terça-feira, 7 de novembro de 2017

no fim

No fim das contas, do dia, notou que estava muito parecido com o pai. Era fim de tarde quando lembrou-se do comentário da irmã, feito a um amigo que depois contou para ele: “tenho medo de que ele fique igual meu pai”. Ela tinha razão. O pai era maravilhoso, pai mesmo, mas nos últimos tempos passava parte do dia deitado, barriga pra cima, tristeza estancada nos olhos vidrados na televisão. Perto da cama havia sempre algum livro espírita – que ele nunca o viu lendo. Talvez o ajudassem a imaginar as saudades, os abraços roubados pelo acaso. O rosto tranquilo, bonito, era o mesmo de antes, quando os abraços haviam – apenas um pouco mais profundo. Ele, no fim do dia, sentiu aquela sensação, as mesmas profundidades que o pai sentia. Embora a casa não fosse a mesma, seus livros diferentes – bem menos encantados que os do pai – naquele fim de tarde ele sentiu que ele era ele. Antes, na verdade desde o começo da adolescência, já havia notado que alguns trejeitos eram muitos parecidos, a forma de pensar, de (não) reagir, de falar com as pessoas. Não era muito de ficar deitado, igualmente - porém - a televisão se tornara uma companheira, ali, todo dia, todo horário, sempre ligada na sala vazia, o jornal, a novela, o jogo – a vida contada na programação da tela. O olhar, parado no olhar, olhava o passado – raramente comemorava um gol. E assim a vida se via, partindo dias, perdendo horas, como se não importasse o tempo. Pensando a razão da irmã, ele pensava nisso tudo, a frase que ela falou com o amigo rodando a cabeça – batendo e voltando na tela da televisão. No braço do sofá, o livro não lido era deixado de lado, sem marcador, desobrigações. Começava a novela das seis, o dia terminava, restava a noite, restava ele - o pai.