No
fim das contas, do dia, notou que estava muito parecido com o pai. Era fim de
tarde quando lembrou-se do comentário da irmã, feito a um amigo que depois
contou para ele: “tenho medo de que ele fique igual meu pai”. Ela tinha razão. O
pai era maravilhoso, pai mesmo, mas nos últimos tempos passava parte do dia
deitado, barriga pra cima, tristeza estancada nos olhos vidrados na televisão.
Perto da cama havia sempre algum livro espírita – que ele nunca o viu lendo.
Talvez o ajudassem a imaginar as saudades, os abraços roubados pelo acaso. O
rosto tranquilo, bonito, era o mesmo de antes, quando os abraços haviam –
apenas um pouco mais profundo. Ele, no fim do dia, sentiu aquela sensação, as mesmas
profundidades que o pai sentia. Embora a casa não fosse a mesma, seus
livros diferentes – bem menos encantados que os do pai – naquele fim de tarde ele sentiu que ele era ele. Antes, na verdade desde o começo da adolescência, já havia notado que alguns trejeitos eram muitos parecidos, a forma de
pensar, de (não) reagir, de falar com as pessoas. Não era muito de ficar
deitado, igualmente - porém - a televisão se tornara uma companheira, ali, todo dia, todo horário, sempre ligada
na sala vazia, o jornal, a novela, o jogo – a vida contada na programação da
tela. O olhar, parado no olhar, olhava o passado – raramente comemorava um gol.
E assim a vida se via, partindo dias, perdendo horas, como se não importasse o
tempo. Pensando a razão da irmã, ele pensava nisso tudo, a frase que ela falou
com o amigo rodando a cabeça – batendo e voltando na tela da televisão. No
braço do sofá, o livro não lido era deixado de lado, sem marcador,
desobrigações. Começava a novela das seis, o dia terminava, restava a noite, restava ele - o pai.
terça-feira, 7 de novembro de 2017
domingo, 15 de outubro de 2017
Se lhe ouvissem.. .
Fechou os olhos. Apertava as pálpebras, uma contra a
outra, contra si. Pensava no pai, agradecia a mãe. Desculpava-se também. Sabia
que pra ela aquilo talvez não fosse bom. Lembrou da avó, dos irmãos, da prima e
do afilhado. Teve certeza de que fazia o certo, ou mais ou menos. De que estava
cansado tinha certeza, absoluta quase, e por isso seguiu o procedimento, até
então nunca testado, descoberto por ele – desinventor de si. As mãos amoleciam,
o coração batia leve, a respiração diminuía, entendida, respondendo conforme
ele tinha imaginado, no dia anterior, no momento em que teve aquela ideia,
insigth seu.
Estava chorando, abraçado com ela, na
casa dela. De lado, joelho dobrado, fechou os olhos quando sentiu que a luz
forte do quarto o incomodava, quase impedindo o curso da tristeza. Foi então
que fechou: a cara, o coração e os olhos. O corpo. Ela mesmo, talvez que nem
tenha notado, pensando fosse só sono. Mais que tristeza, nascia ali um jeito. De dentro ele sentia os olhos
tremendo, apalpebrano, as peles dos olhos expulsando com aquele balanço as
lágrimas que lhe subiam a garganta. Rios no rosto, confortáveis. Junto com o
início dos pensamentos vieram as primeiras noções de que aquilo poderia dar
certo, solução limpa e, principalmente, inimaginável para o mundo. Ninguém
descobriria.
Pediu ao pai, aos irmãos, orou à Deus
até, com quem a tempos não conversava. Sentiu nesse diálogo contudo algum receio,
pensando que sendo filho que pouco pedia poderia ser prontamente atendido. Abriu os olhos e deixou que a parede azul do quarto levasse consigo toda a
potência da quase descoberta, semi-assustado.
Iniciara o processo no dia seguinte,
agora em seu próprio quarto. Paredes brancas, sujas de tristeza amolecida,
violões calados observando tudo. Fazia de novo, novamente. Falou com o pai, com
a irmã primeira, Deus, e até com a bisavó. Tudo corria bem. Desacelerações.
Pensamentos altos, respiração baixinha, calma escura da luz sem luz, sonolentos
calores desinteressavam até dos pernilongos. Primeiros sinais. Sentimentação
dos primeiros frios, nos pés, dedos das mãos, na testa que seria tocada por
alguém caso o pessoal atendesse o pedido. Precisava concentrar, pedir
direitinho, bom menino. Tempo havia que não os via. Dorminhou sem saber se foi,
se ficou, pela pouca experiência o provável é tudo desembocar-se no sono só. Fosse, não inconformaria, seguiria atentando, olho colado, filho-falando. Se lhe ouvissem...
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
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