quinta-feira, 28 de julho de 2016

passado o presente



– Sobrei, muadiê? A verdade só: sobrei ou morri mesmo de tudo?
[ondjaki]

A morte me pega dormindo. Embora nos outros tenha me pegado sempre acordado. Nessas lembranças é que me pegou na quase manhãzinha, sonando, no frio das quase cinco e pouco. Lembransonho. Personagens? A casa que nem apareceu era a mesma, a rua também era a mesma, as de ontem; eles, tal como a saudade e o amigo que fui encontrar, de hoje – como naquele outro conto, como se nem tivessem m.. .; ela, que nem a casa, pousou nem janelas por hoje, ainda assim a trarei pro texto - aí na frente. É que em mim, já notei, ausência é presença. Por isso é que eles tão aqui, ainda, nas contemporâneas vidas nos meus dias todos, ou quase. A verdade: eles é que me sonharam, que eu tô é lá naquela casa ainda, buscado às vezes pra aqui pro hoje nos transportes de um sonho ou outro que eles me dão, e é aí que eu vivo, ou quase. Remedando os autores meus, de hoje, me apresentados pelas mortíferas distâncias deles eu pergunto: Morri? Claro. O corpo não é a morada da alma? Mas quem disse que é uma só, cinco ou mais é que tive, e sozinha vive ela hoje, nessa sua casa eu vazia deu mesmo, já que a minha se foi junto com as deles. Sim, as deles viviam ni mim, não sei se de todos, mas quanto a dele duvido pouco. A dele e a minha, já disse, são agente. Ruim pra língua, melhor pra nós. Mas viveria sozinha minha depenada alminha? Aquela que sobrou? Ah...um pouco, só o suficiente pra segurar o corpo que escreve as linhas que segura o corpo que alinha a minha na minhagente. Não mais. O resto é comida que faiz.
            No hoje do sonho o João me levava à carro que não sei de quem à entrada do bairro, a encontrar meu irmão nosso e de muita gente , o Maurito, que era ele mas não era muito ele, embora nesse sonho todo mundo fosse muito quem fosse mesmo, sem erros de rostos. O João por exemplo era o João mesmo, e tava dirigino e tudo. – Pra quê, João, pára o carro de qualquer jeito aí...Queria fazer baliza e tudo o menino, achou que da primeira vez que parou o carro não ficou bem alinhado. – Pra quê dar essa ré, João, pára ali mesmo! Nas manobras nos invés do morro eu vi meu pai, caminhava na nossa direção pela rua que cortava, e que o João quase cortou quando foi manobrar. – você nem olhou direito se vinha carro, João!, chinguei, assim com ch mesmo pois nem tava muito bravo. O João parou mal o carro outra vez, três rodas sobre o meio fio, duas fora, um pneu meio na rua. O pai então se aproximou, a gente já de pé os três, conversando aquela coisa nenhuma, aquela cena do sonho que parece que só existiu para escorar a outra seguinte com algum sentido, que alias nem viria, já que meu pai chegava de um congresso de diversidade sexual e de gênero. – Como foi lá, pai? – ah...aquela coisa né, vem uma professora e vai e fala, e vem outra.  Gabi não tava, mas avisei lá no começo que ia trazê-la assim mesmo pro texto, né, que ao contrário do sonho é meu. Mas minha mãe tava no sonho, assim como umas tias e outros desconhecidos, todos sem rosto, um grupinho vivendo só nas figurações dos sentidos da minha mãe, presença ilustre, pois quase nunca passeia nos sonhos por que me passam. Pode ser esteja viva, não sei. – Mãe, a Ana tá viva viva?,.. morta mas viva?, ou... .Eu já tava perto delas nessa hora que falei e uma tia me interrompeu com o olhar assustado, meio sorrindo ou quase dizendo alguma coisa enquanto olhava minha mãe também, que usava preto e parecia chorar. Impedir que eu falasse à minha mãe!?, logo a ela, que eu nunca encontrava por ali. – quero saber é se a senhora vê ela também, mãe? Falei denovo. E olhando pras tias: – é que se ela vê eu vejo,..é que eu acordei com saudade, queria dar um abraço nela. Envergonhado não sei de quê meu olho embaçou, devia tá todo molhado quando no celular vi a foto do João me avisando que ainda era antes das seis. Olhos dagente apertados, luzinhas escapando e os silêncios também. Nem pássaros. Na palma dos dedos passei o rosto do pai num sorriso de canto e vi uma Gabi que lembrava a prima mais nova. Outra deslizada de dedo e rolei no meio da foto daquele natal em que eu já não tava mais, mas o João e a Ana sim, feito hoje estão, abraçados.