segunda-feira, 6 de junho de 2016

pai

O corredor branco, quase cegando os olhos, um caminhar lento, passo a passo, no ritmo da vida dos últimos anos, o rosto inchado, mas ainda muito familiar, muito bonito, amoroso, como quando nos levava a passear, no volante da velha brasília amarela, a domingar, aquela que se foi na conquista da casa que nunca conseguiu terminar, último suspiro na tentativa de dar, um quarto para a filha - que morreu antes, sem ganhar, sorriso dele, para sempre, da cor da brasília, a ficar, amarelar - como o caminhão, que também nunca deu quarto, reboco ou piso, para a família, a se acabar (antes da casa), a lágrima fixada, insecável, nem balançar no seu caminhar, passos duros, na minha direção, a me entregar, aqueles olhos de "é, não deu", "não vai dar", e me embrulhar, num abraço silencioso e tenso, anunciando cafés e noites, frias, descontentes parentes, e o fim do corpo, que me vinha anunciar, pessoalmente, atravessar, meu ressonar, um aperto forte, de morte, de corte, desses que que só os país amorosos e as avós gordinhas sabem dar, nos apertar, a gente sumindo no meio do peito, sem ar, formando um par, que é só um, eu na cama, rolar, resonhar, ele deixando a sua, sem desdeitar, perto dali, a partir, para outro lugar, alta hospitalar, mas sem caminhar, alma a passear, voar, na minha cama a deitar, me abraçar, despedir, avançar, foi eu acordar, o telefone a tocar, nem um minuto a passar, noticiar, nos convidar, para ir lá, saber o que eu já, sabia, falar e contar, mas não contei, neguei, à minha mãe, silenciei, aos meus irmãos fraquejei, caminhei, desmolhei, meus olhos, sequei, segurei, para que?, me perguntei, sem responder, me banhei, ei, cumprimentei, para a moça de branco, olhei, entendi, antes de ouvir abracei, minha mãe, liguei, avisei, confirmei, do meu irmão me lembrei, chorei, conjurei, programei, uma vida que nunca levei, nem levarei, pois deles também separei, por que, nunca apurei, só me levei, desgostei, e mentirei, para o fim do tempo, que viverei, fingirei - restarei.

Um comentário:

  1. SOPRO

    Preste atenção
    Mais às coisas que aos Seres
    À voz do Fogo, fique atento,
    Ouça a voz das Águas.
    Ouça através do Vento
    A Savana a soluçar
    É o Sopro dos ancestrais
    Os que morreram jamais se foram
    Eles estão na Sombra que se ilumina
    E na sombra que se enegrece.
    Os Mortos não estão sob a Terra
    Eles estão na Árvore que balança,
    Estão na Madeira que geme,
    Estão na Água que dorme,
    Estão na casa, estão na multidão
    Os mortos não estão mortos.
    Preste atenção
    Mais às coisas do que aos Seres
    À voz do Fogo, fique atento,
    Ouça a voz das Águas.
    Ouça através do Vento
    A Savana a soluçar
    É o Sopro dos ancestrais
    Que jamais se foram
    Que não estão sob a Terra
    Que não estão mortos.
    Os que morreram jamais se foram:
    Estão no Seio da Mulher,
    Estão na criança que chora
    E na brasa que inflama.
    Os Mortos não estão sob a Terra
    Eles estão no Fogo que se apaga,
    Estão nas Ervas que choram,
    Estão na Rocha que range,
    Estão na Floresta, na Cabana,
    Os Mortos não estão mortos.
    Preste atenção
    Mais às coisas do que aos Seres
    À voz do Fogo, fique atento,
    Ouça a voz das Águas.
    Ouça através do Vento
    A Savana a soluçar
    É o Sopro dos ancestrais
    Todo dia ele refaz o Pacto
    O grande Pacto que prende,
    Que prende à Lei nosso Destino,
    Aos Atos dos Sopros mais fortes
    O Destino de nossos Mortos que não estão mortos,
    O pesado pacto que nos liga à Vida,
    A pesada Lei que nos ata aos Atos,
    Dos Sopros que morrem
    No leito e às margens do Rio,
    Sopros que se movem
    Na Rocha que range e na Erva que chora
    Sopros que permanecem
    Na sombra que ilumina e se enegrece,
    Na Árvore que balança, na Madeira que geme
    E na Água que corre e na água que dorme,
    Sopros mais fortes que tomaram
    O Sopro dos Mortos que não estão mortos,
    Dos Mortos que não partiram,
    Dos Mortos que não estão mais sob a Terra.

    Poema de Birago Diop, nascido no Senegal em 1906. Foi escritor, poeta e manteve estreita relação com o movimento da Negritude, apresentando importantes contribuições no universo dos contos da literatura oral africana.

    http://www.uel.br/projetos/leafro/pages/arquivos/livro%20dona%20vilma_grafica_03.11.pdf

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