Domingo, fim do dia, e não fosse a saudade nada mais teria que fazer. Raiva apenas, de tudo e de todos, de mim
mesmo inclusive. Ódio dessa incapacidade, dessa incompetência para descrever
aqueles olhinhos meio fechados, quase sem lugar no rosto gordinho e amigável. A
folha em branco, o texto parado, chamando. Nenhuma inspiração, nem das
lembranças dele. Só as do evento. Daquele chato, necessário e longo evento. Pra
quê? Quanta gente, quanta pergunta! Pelo menos agora estou sozinho, finalmente.
Do sofá da sala ouço música, mas é inútil. Melancólica, sua melodia só faz
arrastar-me pelo restante da casa. Meu corpo já está mole e acinzentado.
Acidentado, talvez, pois faltam-me alguns pedaços. Não duvido estar morto. Sem saber observo as fotos, a cama e todo o restante do quarto. Todo ele vazio, e de tudo.
Cheias estão apenas as coisas, significadas. Preenchidas, todas elas estão
abarrotadas dos quereres dele, e ainda não saiu do ar o aroma das vontades que
ele dava pra elas. Ao contrário, esvaziado, eu continuo arrastado, buscando no
teto as memórias do que até ontem - pela manhã - era apenas vida, som de
cheiro, tato de som tocado e cordas de música.
Noite espessa aquela.
Quanta gente! Por não dormir um minuto amanheci devagar, mole, interminável
feito um texto longo e chato, e terminei-me aqui. Sentado ou deitado? Não sei.
Respirando baixinho a casa parece não sentir minha presença, não é só ele que
lhe falta. Quase não a ouço. Estou?
Ontem de manhã, antes de tudo, era muito diferente e eu tinha peso, alma
e presença. Pensando bem, e embora talvez fosse exatamente por estar
desorientado no meio daquela confusão toda, acho que mesmo ontem a noite eu
ainda tinha alguma presença. Pouca. E mesmo não estando eu estava. Ao menos era
o que parecia, pois feito aniversariante eu era notado como nunca. “- Meus
pêsames”, um abraço, ou quase um. Tantos! Eu devia ter contado.
Pêsame. Que será? Não
sei se era aquela proparoxisse do acento, mas ontem ela estava tão desconfortável
quanto eu, seca, pesada, o que a deixava ainda pior (e isso mesmo nas bocas
mais desenvoltas). Eu e ela, dois estranhos, se encontrando o todo tempo.
"Meus pêsames", outro quase abraço. Palavra feia, gente esquisita,
festa estranha. Acho que se ela pudesse viveria em outros lugares, em outras
bocas. Mas o que é que a gente escolhe!? Ontem, nada. Manhã linda, indiferente,
mais uma. De repente tudo é traçado naquele segundo, por aquela artéria que
marcou nosso encontro pra aquela noite, que fez da coroa meu buquê, do café o
nosso drinque. Nossa companhia? As vazias pessoas protocolares que a tomavam como
propriedade para depois me oferecer, “meus pêsames”. Eu devia ter contado.
Quantos terão sido? Que pensamento idiota! Se cada um deles ao menos me desse
um pouco mais daquelas bochechas, daqueles olhinhos apertadinhos, daquele
acorde bem tocado, talvez até valesse a pena ter juntado. Mas assim, sem nada,
pra que? Número por número fico com meus restos de domingo.
"Obrigado”. Por que
foi que eu respondi tão gentilmente!? Por quê? Ninguém ficou sem resposta, e
com os devidos trocados nos bolsos todos voltaram satisfeitos para suas casas.
Nem a ex-esposa do tio. “Achei ele tão forte”, deve ter dito a tia avó,
"tão firme". Daqui, agora, lembro desses diálogos que ajudei a
engordar, porcos que depois encherão as bocas de outros estranhos em outros
velórios, atormentando a mães e irmãs. Previsíveis, comem sempre a mesma coisa: café novo e quente, biscoito
seco e barulhento; um tio velho e frio, silencioso e gordo. Chato.
Inconveniente. “ele morreu de que?”. “Por quê, você vai fazer alguma coisa pra
salvar?”. “Do coração”, foi o que eu respondi na verdade, e infelizmente. Maldita educação.
No fim da manhã a volta
para casa. Tilintar de chaves, porta aberta, casa abafada, fechada há quase um
dia inteiro. Espalhadas, as roupas deitavam-se sobre a cama, inclusive as dele.
Foi na correria, meio banho, telefone na mão. “É preciso estar lá às 17h para
receber o corpo”. O corpo, os documentos e o banho. O choro do(no) chuveiro
quente, seu barulho a soluçar por mim que sufocava o meu. Não queria que me
ouvissem. Escolhi minha melhor camisa. Por que? Sensação de falta de sentido
que era completada pelas roupas dele, cada peça lamentado sua repentina
inutilidade. Sem ele, a quem vestiriam, o que fariam. Quem sabe maltratarem-me
a cada descuido, a cada gaveta indevidamente aberta? Por que não? E eu, a que a
serviria? Passaria a vida a descobri-las, claro. Na verdade, a descobri-lo
(ausente) em casa uma daquelas camisetas a rasgar-me um sábado ou outro antes
promissor e festivo. Cadê a jaqueta? Gaveta, camisa rosa, lembrança, tristeza,
fim. Televisão, choro, leite quente. Madrugadas, longas madrugadas. Mas não por
hoje, agora preciso tomar um banho, lavar as vasilhas na pia, comer alguma
coisa. A última refeição feita em casa ainda foi com ele, lembrei. Agora
comerei sozinho. Aliás, só amanhã, o tio gordo (ainda) está na sala, junto com
o restante da família que até que o revezamento termine continuará tocando meu
interfone por mais uma ou duas semanas. “Vamos lá pra casa, durma lá nessa
semana”. “Que ideia! Vou fazer o que lá!?”. Na verdade acho que respondi apenas
que "não". Como era inconveniente a ex-esposa do tio, e ainda passou
a noite toda por lá! Seria mais que o tio gordo? Talvez. Esse ao menos era tio.
Agora, sentado no sofá
logo após despachar a última prima, as lembranças daqueles diálogos me
assaltavam. A morte é mesmo um ladrão impiedoso, deixa-nos só o que esqueceu de
levar, mais um minuto e me levaria até esse fim de tarde. Segurei o cochilo
apesar do cansaço. Que dia cheio, quanta gente! “Vou dormir aqui com você hoje,
já avisei a minha mãe”. “Não, prefiro ficar sozinho”. “Já avisei minha mãe, vou
ficar”. “Não!”. Dessa vez não houve como disfarçar a cara e ela se foi. Porta
trancada e a casa respirando baixinho, bem baixinho.
Quase 17h. Céu cinzento,
música triste, escrita, sofá e chá mate, apenas. Nas próximas horas o telefone
tocará mais três ou quatro vezes. Os atrasados e os preocupados. “Não deu pra
ir, me desculpe, não consegui sair do trabalho.” "Pra que ligar pra se
explicar!" “Gentinha!”. Queria ter dito, mas não era o caso, e eles não
eram. “Sem problemas, tudo bem”. “Fulana vai dormir aí com você, né!?”. “Não,
eu pedi que ela não ficasse, ela acabou de sair”. “Gente, mas eu falei pra ela
te fazer companhia!”. Qual parte do eu pedi ela não terá entendido? “Não tia,
tudo bem, eu que insisti pra ela não ficar”. Deve ser medo, pensam que vou me
matar. Como se precisasse. “Não, tia, não precisa mesmo, eu vou ficar bem,
tchau.” Boa ideia: quem sabe se eu desligar os telefones?
Amigos, felizmente estes
não ligarão. Me conhecem e sabem que apesar de tudo esse domingo é meu, por
pior que seja. Uma mensagem aqui, um abraço apertado ali, e pronto. Ligarão
depois, e talvez só após um pedido. “Queria saber como você tá, se posso te
ligar aí, se não puder tudo bem também. Beijo!”. Mas isso só daqui há uns dois
ou três dias, e certamente direi que sim. Por hoje não, ligarão apenas os
chatos. Esfriando meu chá com frases batidas e inócuas, mastigando meu humor
com seus desejos - sinceros - digeridos de outros velórios, disfarçando mal
aquele maldito cheiro de pêsame. "mas Deus sabe o que faz, né".
“Obrigado, eu vou ficar bem”, mentirei.
Sol quase se pondo, e um
pedaço de tarde passando timidozinho pela janela. Desavermelhando-se, devagar. Até lá, algum tempo pra eu tentar achar alguma ideia e ver se a gente se
encontra naquele abraço escrito, acraseado, de pelo menos uma página e meia. Pra ver se encontro um texto, um tempo verbal ou algum pronome bem nosso, que
só fale dagente, mesmo no passado.
"Quando Olorum procurava matéria apropriada para criar o ser humano (o homem), todos os ebora partiram em busca de tal matéria.
ResponderExcluirTrouxeram diferentes coisas: mas nenhuma era adequada. Eles foram buscar lama, mas ela chorou e derramou lágrimas. Nenhum ebora quis tomar da menor parcela.
Mas Ikú, Òjègbé-Aláso-Òna, apareceu, apanhou um pouco de lama - eerúpé - e não teve misericórdia de seu pranto. Levou-o a Olódumarè, que pediu a Òrìsàlá e a Olúgama que o modelaram e foi Ele mesmo quem lhe insuflou seu hálito.
Mas Olódúmarè determinou a Ikú que, por ter sido ele a apanhar a porção de lama, deveria recolocá-la em seu lugar a qualquer momento, e é por isso que lkú sempre nos leva de volta para a lama. (SANTOS, 1986, p. 107)"
OS MORTOS NÃO ESTÃO MORTOS, OS QUE MORRERAM JAMAIS SE FORAM
Para os Agni Morofoé o homem, “Durante sua existência na terra, o Sõnã reúne, numa interação dinâmica, três componentes principais: o Wõnã (o corpo), o Ekala (princípio vital que assegura o poder de vida e o destino particular do indivíduo), o Woa woe (o duplo). (...) Estes três componentes principais da pessoa seguem destinos muito precisos no processo de desorganização. Enquanto o duplo invisível do corpo (Woa woe) prossegue sua existência transformando-se em Wõmĩ, o corpo ao se decompor restitui à terra os elementos dela retirados e o Ekala retorna à família através do nascimento de uma nova criança ou entra no país dos ancestrais.” (ESCHLIMANN, 1985. In: SANTOS, 2014, p.79)
http://www.uel.br/projetos/leafro/pages/arquivos/livro%20dona%20vilma_grafica_03.11.pdf