quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

fim de tarde

Domingo, fim do dia, e não fosse a saudade nada mais teria que fazer. Raiva apenas, de tudo e de todos, de mim mesmo inclusive. Ódio dessa incapacidade, dessa incompetência para descrever aqueles olhinhos meio fechados, quase sem lugar no rosto gordinho e amigável. A folha em branco, o texto parado, chamando. Nenhuma inspiração, nem das lembranças dele. Só as do evento. Daquele chato, necessário e longo evento. Pra quê? Quanta gente, quanta pergunta! Pelo menos agora estou sozinho, finalmente. Do sofá da sala ouço música, mas é inútil. Melancólica, sua melodia só faz arrastar-me pelo restante da casa. Meu corpo já está mole e acinzentado. Acidentado, talvez, pois faltam-me alguns pedaços. Não duvido estar morto. Sem saber observo as fotos, a cama e todo o restante do quarto. Todo ele vazio, e de tudo. Cheias estão apenas as coisas, significadas. Preenchidas, todas elas estão abarrotadas dos quereres dele, e ainda não saiu do ar o aroma das vontades que ele dava pra elas. Ao contrário, esvaziado, eu continuo arrastado, buscando no teto as memórias do que até ontem - pela manhã - era apenas vida, som de cheiro, tato de som tocado e cordas de música.

Noite espessa aquela. Quanta gente! Por não dormir um minuto amanheci devagar, mole, interminável feito um texto longo e chato, e terminei-me aqui. Sentado ou deitado? Não sei. Respirando baixinho a casa parece não sentir minha presença, não é só ele que lhe falta. Quase não a ouço. Estou?  Ontem de manhã, antes de tudo, era muito diferente e eu tinha peso, alma e presença. Pensando bem, e embora talvez fosse exatamente por estar desorientado no meio daquela confusão toda, acho que mesmo ontem a noite eu ainda tinha alguma presença. Pouca. E mesmo não estando eu estava. Ao menos era o que parecia, pois feito aniversariante eu era notado como nunca. “- Meus pêsames”, um abraço, ou quase um. Tantos! Eu devia ter contado.

Pêsame. Que será? Não sei se era aquela proparoxisse do acento, mas ontem ela estava tão desconfortável quanto eu, seca, pesada, o que a deixava ainda pior (e isso mesmo nas bocas mais desenvoltas). Eu e ela, dois estranhos, se encontrando o todo tempo. "Meus pêsames", outro quase abraço. Palavra feia, gente esquisita, festa estranha. Acho que se ela pudesse viveria em outros lugares, em outras bocas. Mas o que é que a gente escolhe!? Ontem, nada. Manhã linda, indiferente, mais uma. De repente tudo é traçado naquele segundo, por aquela artéria que marcou nosso encontro pra aquela noite, que fez da coroa meu buquê, do café o nosso drinque. Nossa companhia? As vazias pessoas protocolares que a tomavam como propriedade para depois me oferecer, “meus pêsames”. Eu devia ter contado. Quantos terão sido? Que pensamento idiota! Se cada um deles ao menos me desse um pouco mais daquelas bochechas, daqueles olhinhos apertadinhos, daquele acorde bem tocado, talvez até valesse a pena ter juntado. Mas assim, sem nada, pra que? Número por número fico com meus restos de domingo.

"Obrigado”. Por que foi que eu respondi tão gentilmente!? Por quê? Ninguém ficou sem resposta, e com os devidos trocados nos bolsos todos voltaram satisfeitos para suas casas. Nem a ex-esposa do tio. “Achei ele tão forte”, deve ter dito a tia avó, "tão firme". Daqui, agora, lembro desses diálogos que ajudei a engordar, porcos que depois encherão as bocas de outros estranhos em outros velórios, atormentando a mães e irmãs. Previsíveis, comem sempre a mesma coisa: café novo e quente, biscoito seco e barulhento; um tio velho e frio, silencioso e gordo. Chato. Inconveniente. “ele morreu de que?”. “Por quê, você vai fazer alguma coisa pra salvar?”. “Do coração”, foi o que eu respondi  na verdade, e infelizmente. Maldita educação.

No fim da manhã a volta para casa. Tilintar de chaves, porta aberta, casa abafada, fechada há quase um dia inteiro. Espalhadas, as roupas deitavam-se sobre a cama, inclusive as dele. Foi na correria, meio banho, telefone na mão. “É preciso estar lá às 17h para receber o corpo”. O corpo, os documentos e o banho. O choro do(no) chuveiro quente, seu barulho a soluçar por mim que sufocava o meu. Não queria que me ouvissem. Escolhi minha melhor camisa. Por que? Sensação de falta de sentido que era completada pelas roupas dele, cada peça lamentado sua repentina inutilidade. Sem ele, a quem vestiriam, o que fariam. Quem sabe maltratarem-me a cada descuido, a cada gaveta indevidamente aberta? Por que não? E eu, a que a serviria? Passaria a vida a descobri-las, claro. Na verdade, a descobri-lo (ausente) em casa uma daquelas camisetas a rasgar-me um sábado ou outro antes promissor e festivo. Cadê a jaqueta? Gaveta, camisa rosa, lembrança, tristeza, fim. Televisão, choro, leite quente. Madrugadas, longas madrugadas. Mas não por hoje, agora preciso tomar um banho, lavar as vasilhas na pia, comer alguma coisa. A última refeição feita em casa ainda foi com ele, lembrei. Agora comerei sozinho. Aliás, só amanhã, o tio gordo (ainda) está na sala, junto com o restante da família que até que o revezamento termine continuará tocando meu interfone por mais uma ou duas semanas. “Vamos lá pra casa, durma lá nessa semana”. “Que ideia! Vou fazer o que lá!?”. Na verdade acho que respondi apenas que "não". Como era inconveniente a ex-esposa do tio, e ainda passou a noite toda por lá! Seria mais que o tio gordo? Talvez. Esse ao menos era tio.

Agora, sentado no sofá logo após despachar a última prima, as lembranças daqueles diálogos me assaltavam. A morte é mesmo um ladrão impiedoso, deixa-nos só o que esqueceu de levar, mais um minuto e me levaria até esse fim de tarde. Segurei o cochilo apesar do cansaço. Que dia cheio, quanta gente! “Vou dormir aqui com você hoje, já avisei a minha mãe”. “Não, prefiro ficar sozinho”. “Já avisei minha mãe, vou ficar”. “Não!”. Dessa vez não houve como disfarçar a cara e ela se foi. Porta trancada e a casa respirando baixinho, bem baixinho.

Quase 17h. Céu cinzento, música triste, escrita, sofá e chá mate, apenas. Nas próximas horas o telefone tocará mais três ou quatro vezes. Os atrasados e os preocupados. “Não deu pra ir, me desculpe, não consegui sair do trabalho.” "Pra que ligar pra se explicar!" “Gentinha!”. Queria ter dito, mas não era o caso, e eles não eram. “Sem problemas, tudo bem”. “Fulana vai dormir aí com você, né!?”. “Não, eu pedi que ela não ficasse, ela acabou de sair”. “Gente, mas eu falei pra ela te fazer companhia!”. Qual parte do eu pedi ela não terá entendido? “Não tia, tudo bem, eu que insisti pra ela não ficar”. Deve ser medo, pensam que vou me matar. Como se precisasse. “Não, tia, não precisa mesmo, eu vou ficar bem, tchau.” Boa ideia: quem sabe se eu desligar os telefones?

Amigos, felizmente estes não ligarão. Me conhecem e sabem que apesar de tudo esse domingo é meu, por pior que seja. Uma mensagem aqui, um abraço apertado ali, e pronto. Ligarão depois, e talvez só após um pedido. “Queria saber como você tá, se posso te ligar aí, se não puder tudo bem também. Beijo!”. Mas isso só daqui há uns dois ou três dias, e certamente direi que sim. Por hoje não, ligarão apenas os chatos. Esfriando meu chá com frases batidas e inócuas, mastigando meu humor com seus desejos - sinceros - digeridos de outros velórios, disfarçando mal aquele maldito cheiro de pêsame. "mas Deus sabe o que faz, né". “Obrigado, eu vou ficar bem”, mentirei.

Sol quase se pondo, e um pedaço de tarde passando timidozinho pela janela. Desavermelhando-se, devagar. Até lá, algum tempo pra eu tentar achar alguma ideia e ver se a gente se encontra naquele abraço escrito, acraseado, de pelo menos uma página e meia. Pra ver se encontro um texto, um tempo verbal ou algum pronome bem nosso, que só fale dagente, mesmo no passado.