terça-feira, 15 de novembro de 2016

"a vida é igual um livro"

,não sei qual livro eu gostaria de ter escrito, mas sei qual estou escrevendo..,O resto dos meus dias.

aliás, uma conversa

- se eu escrevo pra não morrer? ..,não ,eu escrevo enquanto... escrevo enquanto eu não morro. Não há motivo, aliás, se há um exatamente nessa explicação é exatamente a falta de haver, é a falta de motivo. Se houvesse eu não, e não mesmo. Antes eu não queria, nem precisava. Por que foi agora, nesse hoje que só faz estranhar o ontem que foi só deles, e que só faz o amanhã sem eles não ter mais do que escrita é que escrevo, não fosse não haveria, entendeu!?, Foi só por isso que fiz, que aliás te faço ler essas linhas, sacou!? É que não é fácil nem pra mim, e talvez por isso mesmo eu te explique, ou tente, e fique por aqui fazendo esse esforço pra te explicar a escrita que sobra sobre a falta que resta. Compliquei, né!? Não foi por querer. Isso!!! Entendeu? É que eu escrevo porque não foi por querer que eu escrevi esse texto que é quase igual aquele outro e com aquelas primeiras linhas lá que você até já leu. É como se não fosse eu, é como se fosse por que fosse, por que ele se fosse, por que ela se fosse,..foi depois que se foiçaram todos que comecei,  na verdade muito mais por medo de terminar do que de começar, mas foi por isso, sacou, menos por medo de morrer, do que por medo de não, de nem, e não para não morrer, mas só (e somente só) para não morrer enquanto eu não morro, entendeu!? Por que senão, como meu pai me disse uma vez, quando a gente não morre no morro o morro fica alto, quase matando a gente, mas se a gente morre no morro, ao contrário, fica tudo um pouco melhor, daí essa coisa de morrer mesmo, sabe!? ,de verdade, no meio da escrita viva dos mortos que não morreram por que eu também não morri enquanto eles morreram de me matar de mortes. Isso, eu não ainda não te contei, mas eu morri de morte, aliás, foi disso que veio a escrita, que aliás some às vezes quando eu me esqueço de morrer, ou que morri, não sei ao certo escrever. Por que se estou escrevendo de lá é morri, mas se escrevo daqui é morri também, entendeu? Falta verbo. O que me falta é verbo e não morro, nem morte, por que morro mesmo eu tenho, sabe!?, de subir e descer, de morrer e de morrer, ni mim e nos outros, mas verbo não, por que se eu estou lá ou aqui é exatamente o que eu não sei, e por isso vou escrevendo, te vivendo enquanto escrevo proce me viver enquanto lê as escritas onde eu faço eles viverem junto comigo, uma escrita nós todos, eles, eu, você e eles denovo, por que é por eles que eu escrevo enquanto morro de medo de morar nas mortes dos morros deles mais do que nos morros das minhas mortes. Por que? Por que se morro eu, morro eles, neles e ni mim mesmo, e aí morremos todos, e até você se você não sabe!, Aliás, é de não saber que eu morro, todos os dias, morrendo escritas e matando mortes, só pra vê se morro dignamente, apenas enquanto a morte não me mata de morrer nos morros das mortes deles. Aliás, só por isso.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

passado o presente



– Sobrei, muadiê? A verdade só: sobrei ou morri mesmo de tudo?
[ondjaki]

A morte me pega dormindo. Embora nos outros tenha me pegado sempre acordado. Nessas lembranças é que me pegou na quase manhãzinha, sonando, no frio das quase cinco e pouco. Lembransonho. Personagens? A casa que nem apareceu era a mesma, a rua também era a mesma, as de ontem; eles, tal como a saudade e o amigo que fui encontrar, de hoje – como naquele outro conto, como se nem tivessem m.. .; ela, que nem a casa, pousou nem janelas por hoje, ainda assim a trarei pro texto - aí na frente. É que em mim, já notei, ausência é presença. Por isso é que eles tão aqui, ainda, nas contemporâneas vidas nos meus dias todos, ou quase. A verdade: eles é que me sonharam, que eu tô é lá naquela casa ainda, buscado às vezes pra aqui pro hoje nos transportes de um sonho ou outro que eles me dão, e é aí que eu vivo, ou quase. Remedando os autores meus, de hoje, me apresentados pelas mortíferas distâncias deles eu pergunto: Morri? Claro. O corpo não é a morada da alma? Mas quem disse que é uma só, cinco ou mais é que tive, e sozinha vive ela hoje, nessa sua casa eu vazia deu mesmo, já que a minha se foi junto com as deles. Sim, as deles viviam ni mim, não sei se de todos, mas quanto a dele duvido pouco. A dele e a minha, já disse, são agente. Ruim pra língua, melhor pra nós. Mas viveria sozinha minha depenada alminha? Aquela que sobrou? Ah...um pouco, só o suficiente pra segurar o corpo que escreve as linhas que segura o corpo que alinha a minha na minhagente. Não mais. O resto é comida que faiz.
            No hoje do sonho o João me levava à carro que não sei de quem à entrada do bairro, a encontrar meu irmão nosso e de muita gente , o Maurito, que era ele mas não era muito ele, embora nesse sonho todo mundo fosse muito quem fosse mesmo, sem erros de rostos. O João por exemplo era o João mesmo, e tava dirigino e tudo. – Pra quê, João, pára o carro de qualquer jeito aí...Queria fazer baliza e tudo o menino, achou que da primeira vez que parou o carro não ficou bem alinhado. – Pra quê dar essa ré, João, pára ali mesmo! Nas manobras nos invés do morro eu vi meu pai, caminhava na nossa direção pela rua que cortava, e que o João quase cortou quando foi manobrar. – você nem olhou direito se vinha carro, João!, chinguei, assim com ch mesmo pois nem tava muito bravo. O João parou mal o carro outra vez, três rodas sobre o meio fio, duas fora, um pneu meio na rua. O pai então se aproximou, a gente já de pé os três, conversando aquela coisa nenhuma, aquela cena do sonho que parece que só existiu para escorar a outra seguinte com algum sentido, que alias nem viria, já que meu pai chegava de um congresso de diversidade sexual e de gênero. – Como foi lá, pai? – ah...aquela coisa né, vem uma professora e vai e fala, e vem outra.  Gabi não tava, mas avisei lá no começo que ia trazê-la assim mesmo pro texto, né, que ao contrário do sonho é meu. Mas minha mãe tava no sonho, assim como umas tias e outros desconhecidos, todos sem rosto, um grupinho vivendo só nas figurações dos sentidos da minha mãe, presença ilustre, pois quase nunca passeia nos sonhos por que me passam. Pode ser esteja viva, não sei. – Mãe, a Ana tá viva viva?,.. morta mas viva?, ou... .Eu já tava perto delas nessa hora que falei e uma tia me interrompeu com o olhar assustado, meio sorrindo ou quase dizendo alguma coisa enquanto olhava minha mãe também, que usava preto e parecia chorar. Impedir que eu falasse à minha mãe!?, logo a ela, que eu nunca encontrava por ali. – quero saber é se a senhora vê ela também, mãe? Falei denovo. E olhando pras tias: – é que se ela vê eu vejo,..é que eu acordei com saudade, queria dar um abraço nela. Envergonhado não sei de quê meu olho embaçou, devia tá todo molhado quando no celular vi a foto do João me avisando que ainda era antes das seis. Olhos dagente apertados, luzinhas escapando e os silêncios também. Nem pássaros. Na palma dos dedos passei o rosto do pai num sorriso de canto e vi uma Gabi que lembrava a prima mais nova. Outra deslizada de dedo e rolei no meio da foto daquele natal em que eu já não tava mais, mas o João e a Ana sim, feito hoje estão, abraçados.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

pai

O corredor branco, quase cegando os olhos, um caminhar lento, passo a passo, no ritmo da vida dos últimos anos, o rosto inchado, mas ainda muito familiar, muito bonito, amoroso, como quando nos levava a passear, no volante da velha brasília amarela, a domingar, aquela que se foi na conquista da casa que nunca conseguiu terminar, último suspiro na tentativa de dar, um quarto para a filha - que morreu antes, sem ganhar, sorriso dele, para sempre, da cor da brasília, a ficar, amarelar - como o caminhão, que também nunca deu quarto, reboco ou piso, para a família, a se acabar (antes da casa), a lágrima fixada, insecável, nem balançar no seu caminhar, passos duros, na minha direção, a me entregar, aqueles olhos de "é, não deu", "não vai dar", e me embrulhar, num abraço silencioso e tenso, anunciando cafés e noites, frias, descontentes parentes, e o fim do corpo, que me vinha anunciar, pessoalmente, atravessar, meu ressonar, um aperto forte, de morte, de corte, desses que que só os país amorosos e as avós gordinhas sabem dar, nos apertar, a gente sumindo no meio do peito, sem ar, formando um par, que é só um, eu na cama, rolar, resonhar, ele deixando a sua, sem desdeitar, perto dali, a partir, para outro lugar, alta hospitalar, mas sem caminhar, alma a passear, voar, na minha cama a deitar, me abraçar, despedir, avançar, foi eu acordar, o telefone a tocar, nem um minuto a passar, noticiar, nos convidar, para ir lá, saber o que eu já, sabia, falar e contar, mas não contei, neguei, à minha mãe, silenciei, aos meus irmãos fraquejei, caminhei, desmolhei, meus olhos, sequei, segurei, para que?, me perguntei, sem responder, me banhei, ei, cumprimentei, para a moça de branco, olhei, entendi, antes de ouvir abracei, minha mãe, liguei, avisei, confirmei, do meu irmão me lembrei, chorei, conjurei, programei, uma vida que nunca levei, nem levarei, pois deles também separei, por que, nunca apurei, só me levei, desgostei, e mentirei, para o fim do tempo, que viverei, fingirei - restarei.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

fim de tarde

Domingo, fim do dia, e não fosse a saudade nada mais teria que fazer. Raiva apenas, de tudo e de todos, de mim mesmo inclusive. Ódio dessa incapacidade, dessa incompetência para descrever aqueles olhinhos meio fechados, quase sem lugar no rosto gordinho e amigável. A folha em branco, o texto parado, chamando. Nenhuma inspiração, nem das lembranças dele. Só as do evento. Daquele chato, necessário e longo evento. Pra quê? Quanta gente, quanta pergunta! Pelo menos agora estou sozinho, finalmente. Do sofá da sala ouço música, mas é inútil. Melancólica, sua melodia só faz arrastar-me pelo restante da casa. Meu corpo já está mole e acinzentado. Acidentado, talvez, pois faltam-me alguns pedaços. Não duvido estar morto. Sem saber observo as fotos, a cama e todo o restante do quarto. Todo ele vazio, e de tudo. Cheias estão apenas as coisas, significadas. Preenchidas, todas elas estão abarrotadas dos quereres dele, e ainda não saiu do ar o aroma das vontades que ele dava pra elas. Ao contrário, esvaziado, eu continuo arrastado, buscando no teto as memórias do que até ontem - pela manhã - era apenas vida, som de cheiro, tato de som tocado e cordas de música.

Noite espessa aquela. Quanta gente! Por não dormir um minuto amanheci devagar, mole, interminável feito um texto longo e chato, e terminei-me aqui. Sentado ou deitado? Não sei. Respirando baixinho a casa parece não sentir minha presença, não é só ele que lhe falta. Quase não a ouço. Estou?  Ontem de manhã, antes de tudo, era muito diferente e eu tinha peso, alma e presença. Pensando bem, e embora talvez fosse exatamente por estar desorientado no meio daquela confusão toda, acho que mesmo ontem a noite eu ainda tinha alguma presença. Pouca. E mesmo não estando eu estava. Ao menos era o que parecia, pois feito aniversariante eu era notado como nunca. “- Meus pêsames”, um abraço, ou quase um. Tantos! Eu devia ter contado.

Pêsame. Que será? Não sei se era aquela proparoxisse do acento, mas ontem ela estava tão desconfortável quanto eu, seca, pesada, o que a deixava ainda pior (e isso mesmo nas bocas mais desenvoltas). Eu e ela, dois estranhos, se encontrando o todo tempo. "Meus pêsames", outro quase abraço. Palavra feia, gente esquisita, festa estranha. Acho que se ela pudesse viveria em outros lugares, em outras bocas. Mas o que é que a gente escolhe!? Ontem, nada. Manhã linda, indiferente, mais uma. De repente tudo é traçado naquele segundo, por aquela artéria que marcou nosso encontro pra aquela noite, que fez da coroa meu buquê, do café o nosso drinque. Nossa companhia? As vazias pessoas protocolares que a tomavam como propriedade para depois me oferecer, “meus pêsames”. Eu devia ter contado. Quantos terão sido? Que pensamento idiota! Se cada um deles ao menos me desse um pouco mais daquelas bochechas, daqueles olhinhos apertadinhos, daquele acorde bem tocado, talvez até valesse a pena ter juntado. Mas assim, sem nada, pra que? Número por número fico com meus restos de domingo.

"Obrigado”. Por que foi que eu respondi tão gentilmente!? Por quê? Ninguém ficou sem resposta, e com os devidos trocados nos bolsos todos voltaram satisfeitos para suas casas. Nem a ex-esposa do tio. “Achei ele tão forte”, deve ter dito a tia avó, "tão firme". Daqui, agora, lembro desses diálogos que ajudei a engordar, porcos que depois encherão as bocas de outros estranhos em outros velórios, atormentando a mães e irmãs. Previsíveis, comem sempre a mesma coisa: café novo e quente, biscoito seco e barulhento; um tio velho e frio, silencioso e gordo. Chato. Inconveniente. “ele morreu de que?”. “Por quê, você vai fazer alguma coisa pra salvar?”. “Do coração”, foi o que eu respondi  na verdade, e infelizmente. Maldita educação.

No fim da manhã a volta para casa. Tilintar de chaves, porta aberta, casa abafada, fechada há quase um dia inteiro. Espalhadas, as roupas deitavam-se sobre a cama, inclusive as dele. Foi na correria, meio banho, telefone na mão. “É preciso estar lá às 17h para receber o corpo”. O corpo, os documentos e o banho. O choro do(no) chuveiro quente, seu barulho a soluçar por mim que sufocava o meu. Não queria que me ouvissem. Escolhi minha melhor camisa. Por que? Sensação de falta de sentido que era completada pelas roupas dele, cada peça lamentado sua repentina inutilidade. Sem ele, a quem vestiriam, o que fariam. Quem sabe maltratarem-me a cada descuido, a cada gaveta indevidamente aberta? Por que não? E eu, a que a serviria? Passaria a vida a descobri-las, claro. Na verdade, a descobri-lo (ausente) em casa uma daquelas camisetas a rasgar-me um sábado ou outro antes promissor e festivo. Cadê a jaqueta? Gaveta, camisa rosa, lembrança, tristeza, fim. Televisão, choro, leite quente. Madrugadas, longas madrugadas. Mas não por hoje, agora preciso tomar um banho, lavar as vasilhas na pia, comer alguma coisa. A última refeição feita em casa ainda foi com ele, lembrei. Agora comerei sozinho. Aliás, só amanhã, o tio gordo (ainda) está na sala, junto com o restante da família que até que o revezamento termine continuará tocando meu interfone por mais uma ou duas semanas. “Vamos lá pra casa, durma lá nessa semana”. “Que ideia! Vou fazer o que lá!?”. Na verdade acho que respondi apenas que "não". Como era inconveniente a ex-esposa do tio, e ainda passou a noite toda por lá! Seria mais que o tio gordo? Talvez. Esse ao menos era tio.

Agora, sentado no sofá logo após despachar a última prima, as lembranças daqueles diálogos me assaltavam. A morte é mesmo um ladrão impiedoso, deixa-nos só o que esqueceu de levar, mais um minuto e me levaria até esse fim de tarde. Segurei o cochilo apesar do cansaço. Que dia cheio, quanta gente! “Vou dormir aqui com você hoje, já avisei a minha mãe”. “Não, prefiro ficar sozinho”. “Já avisei minha mãe, vou ficar”. “Não!”. Dessa vez não houve como disfarçar a cara e ela se foi. Porta trancada e a casa respirando baixinho, bem baixinho.

Quase 17h. Céu cinzento, música triste, escrita, sofá e chá mate, apenas. Nas próximas horas o telefone tocará mais três ou quatro vezes. Os atrasados e os preocupados. “Não deu pra ir, me desculpe, não consegui sair do trabalho.” "Pra que ligar pra se explicar!" “Gentinha!”. Queria ter dito, mas não era o caso, e eles não eram. “Sem problemas, tudo bem”. “Fulana vai dormir aí com você, né!?”. “Não, eu pedi que ela não ficasse, ela acabou de sair”. “Gente, mas eu falei pra ela te fazer companhia!”. Qual parte do eu pedi ela não terá entendido? “Não tia, tudo bem, eu que insisti pra ela não ficar”. Deve ser medo, pensam que vou me matar. Como se precisasse. “Não, tia, não precisa mesmo, eu vou ficar bem, tchau.” Boa ideia: quem sabe se eu desligar os telefones?

Amigos, felizmente estes não ligarão. Me conhecem e sabem que apesar de tudo esse domingo é meu, por pior que seja. Uma mensagem aqui, um abraço apertado ali, e pronto. Ligarão depois, e talvez só após um pedido. “Queria saber como você tá, se posso te ligar aí, se não puder tudo bem também. Beijo!”. Mas isso só daqui há uns dois ou três dias, e certamente direi que sim. Por hoje não, ligarão apenas os chatos. Esfriando meu chá com frases batidas e inócuas, mastigando meu humor com seus desejos - sinceros - digeridos de outros velórios, disfarçando mal aquele maldito cheiro de pêsame. "mas Deus sabe o que faz, né". “Obrigado, eu vou ficar bem”, mentirei.

Sol quase se pondo, e um pedaço de tarde passando timidozinho pela janela. Desavermelhando-se, devagar. Até lá, algum tempo pra eu tentar achar alguma ideia e ver se a gente se encontra naquele abraço escrito, acraseado, de pelo menos uma página e meia. Pra ver se encontro um texto, um tempo verbal ou algum pronome bem nosso, que só fale dagente, mesmo no passado.