domingo, 9 de agosto de 2015

Um novo poeta

Não sou um cara de muitos poetas, os poucos que conheço me parecem suficiente para explicar todo o inexplicável que já me aconteceu. Intensos, delicados, loucos ou doloridos, eles são poucos e bons, repito e repenso os mesmos de sempre.  Feito cachorro bobo, vivo às voltas,  umas poucas linhas me satisfazem. Daí o medo dos outros, dos tantos outros que desconheço e que compõem as listas dos modestos sites de poesias que eventualmente visito, geralmente a fim de protelar algo de útil a fazer. Perco horas na navegação daquele impossível inútil. Enorme. É necessária muita eficiência para conhecer a todos, e eu disponho apenas de preguiça, um dos meus métodos de trabalho.

O último a me retirar o chão foi Ondjaki, que adiciono ao dicionário do editor sem ter lido um único livro. Li apenas duas ou três linhas e já quero escrever sobre ele, e como ele. E talvez aqui o por quê desse texto. Não é inveja, só auto-reconhecimento. Nas suas palavras, sinto-me verbete, letra, explicação para algum evento ou sensação.  O cara me escreve. Para que me conquistasse, bastou que me descobrisse (e me relembrasse) que “a solidão ecoa de modo muito silencioso”. Ai se sêsse, pensei.
- Se luandense eu sêsse, se não escrevesse, pelo menos sentiria um silêncio como um desse. Cessei então de pensar e li que “silenciar um eco é missão para uma toda vida”. Amei. Gostei de tudo e do “toda” mas não inflei, pois daquilo eu já sabia. Eu tinha que saber. É que foi cedo, ainda antes dos vinte anos, que me foi exigida a “repensação da própria existência”. Tive de saber de “silenciosidades” muito antes do que recomendam os médicos. O que não foi fácil, embora eu tenha tirado de letra. Na verdade, foi minha única opção: tirar de letra a vida, meus irmãos e as faltas que me fazem. E fiz, tirei de letra frases inteiras sobre eles, conversas, abraços, enfim, tudo o que podia tirar eu tirava, apenas para desfrutar um pouco mais da história que me foi privada.

Como se pode notar, há essa altura meu silêncio ecoava e Ondjaki já andava um tanto quanto ausente dessa história e do mundo. Como de praxe eu novamente escrevia apenas sobre mim mesmo. Mas não era verdade. Foi na inspiração dele que escorregaram as lágrimas que regaram o mundo naquele dia, molhadas de saudades, é claro. Ninguém ainda me tinha falado que "a lágrima presta-se a desresseguir o mundo". Foi uma iluminação saber, uma reconciliação. Por um instante, com o mundo religado, corrigido, tudo pareceu certo, e o inexplicável feito como sentido. Compreendido, plagiando o poeta africano eu celebrei, contente. Sem mais, por que não era necessário e por que a lua já marcava o adiantado da tarde, terminei o texto, húmido, esperando por eles e por ele, o poeta.

Selada num pedaço de noite embrulhei para o Ondjaki a lua, fazendo um poente entre nós. Uma carta. Ainda hoje me lembro, na sua resposta fiz minha primeira viagem intercontinental.

http://consideracaodopoema.blogspot.com.br/2015/08/lagrima-gota-lagrima-ou-todas.html

http://consideracaodopoema.blogspot.com.br/2015/08/que-sabes-tu-do-eco-do-silencio.html

2 comentários:

  1. "Quando eu canto
    É para aliviar meu pranto
    E o pranto de quem já
    Tanto sofreu
    Quando eu canto
    Estou sentindo a luz de um santo
    Estou ajoelhando
    Aos pés de deus
    Canto para anunciar o dia
    Canto para amenizar a noite
    Canto pra denunciar o açoite
    Canto também contra a tirania
    Canto porque numa melodia
    Acendo no coração do povo
    A esperança de um mundo novo
    E a luta para se viver em paz!
    Do poder da criação
    Sou continuação
    E quero agradecer
    Foi ouvida minha súplica
    Mensageiro sou da música
    O meu canto é uma missão
    Tem força de oração
    E eu cumpro o meu dever
    Aos que vivem a chorar
    Eu vivo pra cantar
    E canto pra viver"

    Às Áfricas! À nossa africanidade! Axé!

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