Não
sou um cara de muitos poetas, os poucos que conheço me parecem suficiente para explicar
todo o inexplicável que já me aconteceu. Intensos, delicados, loucos ou doloridos, eles são poucos e bons, repito e repenso os mesmos de sempre. Feito cachorro bobo, vivo às voltas, umas poucas linhas me satisfazem. Daí o medo dos outros, dos
tantos outros que desconheço e que compõem as listas dos modestos sites de
poesias que eventualmente visito, geralmente a fim de protelar algo de útil a fazer. Perco horas na
navegação daquele impossível inútil. Enorme. É necessária muita eficiência para
conhecer a todos, e eu disponho apenas de preguiça, um dos meus métodos de trabalho.
O
último a me retirar o chão foi Ondjaki, que adiciono ao dicionário do editor sem ter lido um único livro. Li apenas duas ou três linhas e já quero escrever sobre ele, e como ele. E talvez aqui o por quê desse texto. Não é inveja, só auto-reconhecimento. Nas suas palavras, sinto-me verbete, letra, explicação para algum evento ou sensação. O cara me escreve. Para que me conquistasse, bastou que me descobrisse (e me relembrasse) que “a
solidão ecoa de modo muito silencioso”. Ai se sêsse,
pensei.
- Se luandense eu sêsse, se não escrevesse, pelo menos sentiria um silêncio como um desse. Cessei então de pensar e li que “silenciar um eco é missão para uma toda vida”. Amei. Gostei de tudo e do “toda” mas não inflei, pois daquilo eu já sabia. Eu tinha que saber. É que foi cedo, ainda antes dos vinte anos, que me foi exigida a “repensação da própria existência”. Tive de saber de “silenciosidades” muito antes do que recomendam os médicos. O que não foi fácil, embora eu tenha tirado de letra. Na verdade, foi minha única opção: tirar de letra a vida, meus irmãos e as faltas que me fazem. E fiz, tirei de letra frases inteiras sobre eles, conversas, abraços, enfim, tudo o que podia tirar eu tirava, apenas para desfrutar um pouco mais da história que me foi privada.
- Se luandense eu sêsse, se não escrevesse, pelo menos sentiria um silêncio como um desse. Cessei então de pensar e li que “silenciar um eco é missão para uma toda vida”. Amei. Gostei de tudo e do “toda” mas não inflei, pois daquilo eu já sabia. Eu tinha que saber. É que foi cedo, ainda antes dos vinte anos, que me foi exigida a “repensação da própria existência”. Tive de saber de “silenciosidades” muito antes do que recomendam os médicos. O que não foi fácil, embora eu tenha tirado de letra. Na verdade, foi minha única opção: tirar de letra a vida, meus irmãos e as faltas que me fazem. E fiz, tirei de letra frases inteiras sobre eles, conversas, abraços, enfim, tudo o que podia tirar eu tirava, apenas para desfrutar um pouco mais da história que me foi privada.
Como se pode notar, há essa altura meu silêncio ecoava e Ondjaki já andava um tanto quanto ausente dessa história e do mundo. Como de praxe eu novamente escrevia apenas sobre mim mesmo. Mas não era verdade. Foi na inspiração dele que escorregaram as lágrimas que regaram o mundo naquele dia, molhadas de saudades, é claro. Ninguém ainda me tinha falado que "a lágrima presta-se a desresseguir o mundo". Foi uma iluminação saber, uma reconciliação. Por um instante, com o mundo religado, corrigido, tudo pareceu certo, e o inexplicável feito como sentido. Compreendido, plagiando o poeta africano eu celebrei, contente. Sem mais, por que não era necessário e por que a lua já marcava o adiantado da tarde, terminei o texto, húmido, esperando por eles e por ele, o poeta.
Selada num pedaço de noite embrulhei para o Ondjaki a lua, fazendo um poente entre nós. Uma carta. Ainda hoje me lembro, na sua resposta fiz minha primeira viagem intercontinental.
http://consideracaodopoema.blogspot.com.br/2015/08/que-sabes-tu-do-eco-do-silencio.html
"Quando eu canto
ResponderExcluirÉ para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já
Tanto sofreu
Quando eu canto
Estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando
Aos pés de deus
Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz!
Do poder da criação
Sou continuação
E quero agradecer
Foi ouvida minha súplica
Mensageiro sou da música
O meu canto é uma missão
Tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Aos que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar
E canto pra viver"
Às Áfricas! À nossa africanidade! Axé!
Lindo lindo lindo! Axé! S2
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