sábado, 1 de agosto de 2015

solidão é lava

"desde o dia em que ela foi embora
eu guardo essa canção na memória"

Naquela manhã de sábado o menino amanheceu cor de rosa carvão. Dolorindo um preto forte desde que tirou os pés da cama, notou que ao menos na primeira parte do dia não poderia fazer outra coisa senão escrever, a única maneira de evitar que a escura cor das lembranças pintasse até o branco dos olhos. Antes mesmo que a água do café fervesse abriu o guarda roupas e retirou de seu interior as caixas de som que há tempo não usava. Também pretas. Sem soprar a poeira que as tomava ligou-as no computador, obrigando sua nova casa a cantar – alto – as memórias de mais de quinze anos atrás. Lembrou-se de quando ouviu aquele disco pela primeira vez, do quanto achou doce a voz da cantora do disco rosa. Um dos tios o havia comprado na época em que o sobrinho, sonhando com um “disc man”, não tinha mais do que um “walk man”. Quase quinze anos atrás, e o atraso já constituía o ser do menino. Era final da década de 90, e para a maioria das pessoas os CDs eram ainda um ótimo presente de natal ou aniversário. Ele, porém, sem ter onde ganhar ou escutar o disco carvão contentava-se em ouvi-lo nas manhãs de sábado que tio reservava para varrer a casa em que morava, construída no quintal da sua, mas que na verdade era de sua avó. Se bem se lembrava, devia ali ter por volta de 15 ou 16 anos. Há essa altura da manhã, contudo, perto das 10 horas, suas caixinhas já cantarolavam o Gil, e já tendo o menino escrito quase vinte linhas,  notou que a animada melodia do expresso do ano 2000 fazia de sua pele algo um pouco mais rosa, embora menos sentimental, quase obrigando-o a deixar de escrever - ou de se lembrar. "- O sonho acabou, foi pesado o sonho pra quem não sonhou". Respirou fundo após essa frase. Tomou um gole de café e decidiu recusar a sentença da desabusada canção do ex ministro, permanecendo memorando tanto a velha casa quanto o quintal da avó, tranquilamente. E brincando na língua de Manoel, pensou: que se oriente rapaz o quê, eu gosto é do desvio. Adorava aquela canção, mas não carecia, naquela manhã, de orientações mais que de desvios. Seu desejo era por sois azuis ou carvões cor de rosa. Lamentou a lua azul que deixou de admirar na noite anterior e silenciou o ministro. Sentiu-se poderoso. Voltou a selecionar a voz de Marisa como a trilha de sua obediente e indirecionada escrita. O gosto de café, que já estava frio e mal adoçado, parecia amargar sua saliva. Se a preguiça de viver o deixasse, escovaria os dentes. Não apenas os seus, mas o de todos os seus irmãos. Impossível. Mastigou um biscoito e contentou-se resignado. Passei a vida toda me contentando, sempre me contentando. Quem o visse nesse momento, menos pelos olhos molhados que pelas mãos cerradas, perceberia que o menino tinha tudo para se deter naquela lamentação,  explorando-a ponto de perder o almoço e o restante do dia. Porém, assaltado pela dor doce da moça, perdeu-se de rumo, encontrando na afirmação de que "a dor é minha e de mais ninguém" uma sensação de certeza que a muito não experimentava. Gozou de alegria, extasiado por se sentir compreendido ao menos por alguém nesse mundo. Triste, mas muito muito triste pela saudade de todos, desistiu portanto de perder o almoço e a tarde mergulhado em lágrimas e levantou-se decido. Era quase meio dia, e seu destino estava certo: fingiria sorrisos, calçaria um sapato novo e iria ao cinema. Sozinho, claro, mas todo de preto e rosa, como desejou desde que acordou. Aumentou o volume do som, deixou aberta a porta do banheiro e foi se banhar. Em menos de três canções já voltava ao quarto para secar-se com a toalha marrom, desfiada de antigos usos e casas. Após lembrar-se que o carvão desbota ao contato com a umidade decidiu não se perfumar, já que para sair desenharia no rosto um palhaço preto de lábios rosados - muito bonito. Já o havia usado outras vezes. Vestiu a calça, procurou por uma camisa com botões apenas para poder usar a palavra "abotoar" em algum de seus textos e encaixou nos ouvidos os inseparáveis fones. Estava pronto. Desligou o computador e desceu as escadas torcendo não encontrar nenhum vizinho, no que foi atendido, de modo que chegou a rua sem suor, medo ou  saudade, mas com muita dor, para a qual deu uma de suas mãos antes de começarem, devagarinho, aquela caminhada. E assim, nesse desiludido compasso, e sem que ninguém o notasse, foram ao cinema, todos juntos, ele, ela (,eles) e mais ninguém.

Um comentário:

  1. “Chora, desabafa seu peito,
    Chora, você tem o direito.
    Se tratando de amor,
    Qualquer um pode chorar.
    Não se envergonhe do pranto, que é
    Privilégio de quem sabe amar.

    Quem não teve amor nunca sofreu,
    E desconhece o que é agonia.
    Abra o peito e deixe o pranto livre como eu.
    Ah, desabafe a melancolia.”

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