“Qual livro você gostaria de ter escrito?”
Não me lembro em que programa de TV vi essa pergunta sendo feita pelo
entrevistador, lembro apenas que gostei dela. Para quem gosta de ler é uma
ótima reflexão. Afinal, quem nunca sentiu a sensação de ser explicado por uma
frase ou trecho de livro? Parece que foi escrito pra mim! Quem nunca? Eu
sempre, talvez com o acréscimo da inveja de não terem sido escritos por mim. Acho a escrita algo tão
fascinante que me arrisco dizer que gostaria de ter escrito todos os livros que
li, à exceção de “Grande Sertão Veredas”, “Dom Quixote”, “O lobo da estepe”,
“Memórias do Cárcere” e todos os outros do Graciliano, do Manoel, todos os outros desses
autores que citei e dos que ainda não li. Fora todos estes, fabulosos demais
para qualquer sonho de criança, eu gostaria de ter escrito todos. É que na maioria há uma parte que me escreve, mesmo pequena.
Nessa semana, ao ler algumas coisas por
aí, não escrevi livros, mas escrevi dois trechos que não são meus. Primeiro,
numa quinta-feira à tarde, dentro de um ônibus em direção ao centro da cidade,
escrevi “A arte de desaparecer” de Enrique Vila-Matas. Era um dia meio blasé, e
embora o sol contasse com a ausência de nuvens para ter o céu todo pra si, era também um dia meio cinza. Sentado à janela do ônibus, ambos batiam na minha cara, o sol e o dia. Concentrado na leitura, a
ponto de nem perceber o calor que fazia, fui escrevendo com os olhos aquelas
linhas muito estranhas, mas muito minhas. Mais do que estranha, penso agora, a
sensação que sentia era curiosa. O texto de Vila-Matas parecia tão meu que
duvidei que o tivesse lendo somente naquele momento. “Até aquele dia”, ele escrevia logo no primeiro parágrafo do conto,
apresentando seu personagem, “sempre o
horrorizara a ideia de chegar a ter êxito na vida. Frequentemente viam-no andar
na ponta dos pés, tanto no liceu como em sua casa, como se não quisesse
incomodar ninguém. Nele sempre existira uma rejeição total do sentimento de
protagonismo.” Claro, ali eu me vi, e embora nada naquele momento fizesse sentido achei linda aquela descrição. Teria eu sido biografado?,
perguntei a mim mesmo enquanto cochilava, a testa molhada de suor, a cabeça
batendo na janela do ônibus. Despertei mergulhado na dúvida, e sem resolvê-la abruptamente
eu desci no ponto seguinte, desnorteado, desapontado. Afinal, eu descia do
ônibus desconhecendo também toda a história daquele personagem, história que
nem era grande, uma vida que não existia para além de seis ou sete páginas. Que
final melancólico, pensei. Não consigo terminar de escrever nem mesmo o livro
dos outros. Que farei do meu? Quase duas horas de viagem e a que ponto cheguei?... Não sabia. Talvez, e infelizmente, aquele era o final, e aquela constatação a minha verdade: assim como os
do Enrique, meus contos eram tediosos. Partidos, quebrados, eles não compunham livros, eram, por premissa, contos. Sem relação, sem nexo, sem fim, estavam reunidos por acaso, e terminavam por
falta, não por fim. Eram vida apenas/besta e descaminhada/mal
escrita/desalinhada. Um mau poema.
De pé, a poucos passos da porta do ônibus,
foi quando percebi que afinal eu estava parado, estático, e que, mesmo
consciente, mal sabia o que fazer. Sem minhas vírgulas, e com os por ques
desacentuados, minhas letras sumiram: por quais palavras eu deveria caminhar? Desamparado,
eu não sabia. Parado no centro, entre carros e pessoas desconhecidas, eu era um
mero figurante. Representava o personagem de Vila-Matas, e na ponta dos pés coadjuvava na vida que pouco parecia ter de própria. Raso, meu olhar distante revelava
um livro frágil, insustentável, vazio de qualquer possibilidade literária,
mesmo ficcional. Aquele jogo estranho, perigoso, no entanto, revelou-me um fato, minhas linhas haviam acabado, e eu precisava urgentemente de um novo biógrafo. Era necessário voltar a caminhar...