sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Inscrevendo

“Qual livro você gostaria de ter escrito?” Não me lembro em que programa de TV vi essa pergunta sendo feita pelo entrevistador, lembro apenas que gostei dela. Para quem gosta de ler é uma ótima reflexão. Afinal, quem nunca sentiu a sensação de ser explicado por uma frase ou trecho de livro? Parece que foi escrito pra mim! Quem nunca? Eu sempre, talvez com o acréscimo da inveja de não terem sido escritos por mim. Acho a escrita algo tão fascinante que me arrisco dizer que gostaria de ter escrito todos os livros que li, à exceção de “Grande Sertão Veredas”, “Dom Quixote”, “O lobo da estepe”, “Memórias do Cárcere” e todos os outros do Graciliano, do Manoel, todos os outros desses autores que citei e dos que ainda não li. Fora todos estes, fabulosos demais para qualquer sonho de criança, eu gostaria de ter escrito todos. É que na maioria há uma parte que me escreve, mesmo pequena.
Nessa semana, ao ler algumas coisas por aí, não escrevi livros, mas escrevi dois trechos que não são meus. Primeiro, numa quinta-feira à tarde, dentro de um ônibus em direção ao centro da cidade, escrevi “A arte de desaparecer” de Enrique Vila-Matas. Era um dia meio blasé, e embora o sol contasse com a ausência de nuvens para ter o céu todo pra si, era também um dia meio cinza. Sentado à janela do ônibus, ambos batiam na minha cara, o sol e o dia. Concentrado na leitura, a ponto de nem perceber o calor que fazia, fui escrevendo com os olhos aquelas linhas muito estranhas, mas muito minhas. Mais do que estranha, penso agora, a sensação que sentia era curiosa. O texto de Vila-Matas parecia tão meu que duvidei que o tivesse lendo somente naquele momento. “Até aquele dia”, ele escrevia logo no primeiro parágrafo do conto, apresentando seu personagem, “sempre o horrorizara a ideia de chegar a ter êxito na vida. Frequentemente viam-no andar na ponta dos pés, tanto no liceu como em sua casa, como se não quisesse incomodar ninguém. Nele sempre existira uma rejeição total do sentimento de protagonismo.” Claro, ali eu me vi, e embora nada naquele momento fizesse sentido achei linda aquela descrição. Teria eu sido biografado?, perguntei a mim mesmo enquanto cochilava, a testa molhada de suor, a cabeça batendo na janela do ônibus. Despertei mergulhado na dúvida, e sem resolvê-la abruptamente eu desci no ponto seguinte, desnorteado, desapontado. Afinal, eu descia do ônibus desconhecendo também toda a história daquele personagem, história que nem era grande, uma vida que não existia para além de seis ou sete páginas. Que final melancólico, pensei. Não consigo terminar de escrever nem mesmo o livro dos outros. Que farei do meu? Quase duas horas de viagem e a que ponto cheguei?... Não sabia. Talvez, e infelizmente, aquele era o final, e aquela constatação a minha verdade: assim como os do Enrique, meus contos eram tediosos. Partidos, quebrados, eles não compunham livros, eram, por premissa, contos. Sem relação, sem nexo, sem fim, estavam reunidos por acaso, e terminavam por falta, não por fim. Eram vida apenas/besta e descaminhada/mal escrita/desalinhada. Um mau poema.
De pé, a poucos passos da porta do ônibus, foi quando percebi que afinal eu estava parado, estático, e que, mesmo consciente, mal sabia o que fazer. Sem minhas vírgulas, e com os por ques desacentuados, minhas letras sumiram: por quais palavras eu deveria caminhar? Desamparado, eu não sabia. Parado no centro, entre carros e pessoas desconhecidas, eu era um mero figurante. Representava o personagem de Vila-Matas, e na ponta dos pés coadjuvava na vida que pouco parecia ter de própria. Raso, meu olhar distante revelava um livro frágil, insustentável, vazio de qualquer possibilidade literária, mesmo ficcional. Aquele jogo estranho, perigoso, no entanto, revelou-me um fato, minhas linhas haviam acabado, e eu precisava urgentemente de um novo biógrafo. Era necessário voltar a caminhar...

domingo, 9 de agosto de 2015

Um novo poeta

Não sou um cara de muitos poetas, os poucos que conheço me parecem suficiente para explicar todo o inexplicável que já me aconteceu. Intensos, delicados, loucos ou doloridos, eles são poucos e bons, repito e repenso os mesmos de sempre.  Feito cachorro bobo, vivo às voltas,  umas poucas linhas me satisfazem. Daí o medo dos outros, dos tantos outros que desconheço e que compõem as listas dos modestos sites de poesias que eventualmente visito, geralmente a fim de protelar algo de útil a fazer. Perco horas na navegação daquele impossível inútil. Enorme. É necessária muita eficiência para conhecer a todos, e eu disponho apenas de preguiça, um dos meus métodos de trabalho.

O último a me retirar o chão foi Ondjaki, que adiciono ao dicionário do editor sem ter lido um único livro. Li apenas duas ou três linhas e já quero escrever sobre ele, e como ele. E talvez aqui o por quê desse texto. Não é inveja, só auto-reconhecimento. Nas suas palavras, sinto-me verbete, letra, explicação para algum evento ou sensação.  O cara me escreve. Para que me conquistasse, bastou que me descobrisse (e me relembrasse) que “a solidão ecoa de modo muito silencioso”. Ai se sêsse, pensei.
- Se luandense eu sêsse, se não escrevesse, pelo menos sentiria um silêncio como um desse. Cessei então de pensar e li que “silenciar um eco é missão para uma toda vida”. Amei. Gostei de tudo e do “toda” mas não inflei, pois daquilo eu já sabia. Eu tinha que saber. É que foi cedo, ainda antes dos vinte anos, que me foi exigida a “repensação da própria existência”. Tive de saber de “silenciosidades” muito antes do que recomendam os médicos. O que não foi fácil, embora eu tenha tirado de letra. Na verdade, foi minha única opção: tirar de letra a vida, meus irmãos e as faltas que me fazem. E fiz, tirei de letra frases inteiras sobre eles, conversas, abraços, enfim, tudo o que podia tirar eu tirava, apenas para desfrutar um pouco mais da história que me foi privada.

Como se pode notar, há essa altura meu silêncio ecoava e Ondjaki já andava um tanto quanto ausente dessa história e do mundo. Como de praxe eu novamente escrevia apenas sobre mim mesmo. Mas não era verdade. Foi na inspiração dele que escorregaram as lágrimas que regaram o mundo naquele dia, molhadas de saudades, é claro. Ninguém ainda me tinha falado que "a lágrima presta-se a desresseguir o mundo". Foi uma iluminação saber, uma reconciliação. Por um instante, com o mundo religado, corrigido, tudo pareceu certo, e o inexplicável feito como sentido. Compreendido, plagiando o poeta africano eu celebrei, contente. Sem mais, por que não era necessário e por que a lua já marcava o adiantado da tarde, terminei o texto, húmido, esperando por eles e por ele, o poeta.

Selada num pedaço de noite embrulhei para o Ondjaki a lua, fazendo um poente entre nós. Uma carta. Ainda hoje me lembro, na sua resposta fiz minha primeira viagem intercontinental.

http://consideracaodopoema.blogspot.com.br/2015/08/lagrima-gota-lagrima-ou-todas.html

http://consideracaodopoema.blogspot.com.br/2015/08/que-sabes-tu-do-eco-do-silencio.html

sábado, 8 de agosto de 2015

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

sábado, 1 de agosto de 2015

solidão é lava

"desde o dia em que ela foi embora
eu guardo essa canção na memória"

Naquela manhã de sábado o menino amanheceu cor de rosa carvão. Dolorindo um preto forte desde que tirou os pés da cama, notou que ao menos na primeira parte do dia não poderia fazer outra coisa senão escrever, a única maneira de evitar que a escura cor das lembranças pintasse até o branco dos olhos. Antes mesmo que a água do café fervesse abriu o guarda roupas e retirou de seu interior as caixas de som que há tempo não usava. Também pretas. Sem soprar a poeira que as tomava ligou-as no computador, obrigando sua nova casa a cantar – alto – as memórias de mais de quinze anos atrás. Lembrou-se de quando ouviu aquele disco pela primeira vez, do quanto achou doce a voz da cantora do disco rosa. Um dos tios o havia comprado na época em que o sobrinho, sonhando com um “disc man”, não tinha mais do que um “walk man”. Quase quinze anos atrás, e o atraso já constituía o ser do menino. Era final da década de 90, e para a maioria das pessoas os CDs eram ainda um ótimo presente de natal ou aniversário. Ele, porém, sem ter onde ganhar ou escutar o disco carvão contentava-se em ouvi-lo nas manhãs de sábado que tio reservava para varrer a casa em que morava, construída no quintal da sua, mas que na verdade era de sua avó. Se bem se lembrava, devia ali ter por volta de 15 ou 16 anos. Há essa altura da manhã, contudo, perto das 10 horas, suas caixinhas já cantarolavam o Gil, e já tendo o menino escrito quase vinte linhas,  notou que a animada melodia do expresso do ano 2000 fazia de sua pele algo um pouco mais rosa, embora menos sentimental, quase obrigando-o a deixar de escrever - ou de se lembrar. "- O sonho acabou, foi pesado o sonho pra quem não sonhou". Respirou fundo após essa frase. Tomou um gole de café e decidiu recusar a sentença da desabusada canção do ex ministro, permanecendo memorando tanto a velha casa quanto o quintal da avó, tranquilamente. E brincando na língua de Manoel, pensou: que se oriente rapaz o quê, eu gosto é do desvio. Adorava aquela canção, mas não carecia, naquela manhã, de orientações mais que de desvios. Seu desejo era por sois azuis ou carvões cor de rosa. Lamentou a lua azul que deixou de admirar na noite anterior e silenciou o ministro. Sentiu-se poderoso. Voltou a selecionar a voz de Marisa como a trilha de sua obediente e indirecionada escrita. O gosto de café, que já estava frio e mal adoçado, parecia amargar sua saliva. Se a preguiça de viver o deixasse, escovaria os dentes. Não apenas os seus, mas o de todos os seus irmãos. Impossível. Mastigou um biscoito e contentou-se resignado. Passei a vida toda me contentando, sempre me contentando. Quem o visse nesse momento, menos pelos olhos molhados que pelas mãos cerradas, perceberia que o menino tinha tudo para se deter naquela lamentação,  explorando-a ponto de perder o almoço e o restante do dia. Porém, assaltado pela dor doce da moça, perdeu-se de rumo, encontrando na afirmação de que "a dor é minha e de mais ninguém" uma sensação de certeza que a muito não experimentava. Gozou de alegria, extasiado por se sentir compreendido ao menos por alguém nesse mundo. Triste, mas muito muito triste pela saudade de todos, desistiu portanto de perder o almoço e a tarde mergulhado em lágrimas e levantou-se decido. Era quase meio dia, e seu destino estava certo: fingiria sorrisos, calçaria um sapato novo e iria ao cinema. Sozinho, claro, mas todo de preto e rosa, como desejou desde que acordou. Aumentou o volume do som, deixou aberta a porta do banheiro e foi se banhar. Em menos de três canções já voltava ao quarto para secar-se com a toalha marrom, desfiada de antigos usos e casas. Após lembrar-se que o carvão desbota ao contato com a umidade decidiu não se perfumar, já que para sair desenharia no rosto um palhaço preto de lábios rosados - muito bonito. Já o havia usado outras vezes. Vestiu a calça, procurou por uma camisa com botões apenas para poder usar a palavra "abotoar" em algum de seus textos e encaixou nos ouvidos os inseparáveis fones. Estava pronto. Desligou o computador e desceu as escadas torcendo não encontrar nenhum vizinho, no que foi atendido, de modo que chegou a rua sem suor, medo ou  saudade, mas com muita dor, para a qual deu uma de suas mãos antes de começarem, devagarinho, aquela caminhada. E assim, nesse desiludido compasso, e sem que ninguém o notasse, foram ao cinema, todos juntos, ele, ela (,eles) e mais ninguém.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

passos na antiga casa

Angústia é apenas um dos ruídos que a saudade faz ao tropeçar nas feridas que as faltas fizeram nas certezas da gente. Às vezes eu a escuto caminhar.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

domingo, 5 de julho de 2015

Velório

amadrugada
amanheceu
amando
amarelos
raios solares

que embora fossem lindos,
não amariam ninguém naquele dia.

sábado, 4 de julho de 2015

4 da manhã

Confusas - por definição
as lembranças da madrugada
são variadas nos nomes
não no motivo

nunca encontrei a quem seu  silêncio não dissesse:
- ai, que saudade!