sexta-feira, 16 de maio de 2014

na estação de ônibus

Gosto de começar com verbos, por isso digo chorava. Poderia ser chorei, mas sendo inverdade não digo, eu já tinha chorado. Noutro tempo, tempo atrás. Agora era ela, e ela chorava. Choro de verdade, choro de morte, choro copiado de quem ligou para dar a notícia, choro copioso. Senti de longe, entorpeci, marejei, meu rosto molhou, e da janela do ônibus revelei  a quem quisesse o final precoce da minha noite, o adiantar da minha meia noite. A dela - certamente - seria bem mais longa, estava apenas começando. Se bem me lembro destes dias, aquela noite não terminaria nunca. Sim, me recordo, por quatro vezes eu também nunca mais amanheci, pago ainda por estas noites nas minhas olheiras, nas risadas, no bar, no cansaço de ser, no desembaraço para chorar facilmente e sempre, que quiser e que precisar. Enquanto a mim devo este sono, a mim a vida deve presenças. E minha amiga, que da janela vejo ainda a marejar-se, quanto deve ao mundo? Menos que eu? Mais? Seus olhos são fundos, rosto machado, inchado é o coração, eu vejo. Pouco não é, ela deve muito, eu sinto, eu sei. Se os seus não mentem, os meus não se enganam, com olhos de quem sabe chorar eu vejo, ela chora, mais um vez. Não é a primeira, não será a última, eu sei, nunca é.

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