Hoje escrevi uma canção pra ele.
Em La alto e estridente ela começa assim bem lenta, com muita Do de mim menor.
É que fiquei tão pequeno quando ele partiu que tive de compô-lo,
torná-lo palavra para fazer-me música.
E fiz, hoje de manhã.
Na segunda estrofe, embora seja uma canção escura,
rimando dores com amores ela inventa cores, igual eu fiz.
É uma canção estranha.
Na terceira parte meu Si bemol reclama cuícas que o refrão ignora
sonhando acompanhamentos que nunca chegam.
É que ele já não tá mais aqui, e a música é de um violão só,
e sem cavaco.
Como todo refrão, sonhador, carnavalesco,
ele inventa alegrias pro povo dançar,
nem que na melodia só-zinha.
E então, como se feliz fosse a canção, o povo dança, enganado, tanto quanto o compositor, que crê ter composto música melhor do que a que ele o deixou:
uma marchinha que se chama "abraço", apertada, compassada, e que nunca termina, cheia de Si, de Me, mas sem Ele.
Hoje - mal - tocada só em Mim menor,
bem pequena.
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