sexta-feira, 30 de maio de 2014

Em (mi menor)

Hoje escrevi uma canção pra ele.
Em La alto e estridente ela começa assim bem lenta, com muita Do de mim menor.
É que fiquei tão pequeno quando ele partiu que tive de compô-lo,
torná-lo palavra para fazer-me música.
E fiz, hoje de manhã.
Na segunda estrofe, embora seja uma canção escura,
rimando dores com amores ela inventa cores, igual eu fiz.
É uma canção estranha.

Na terceira parte meu Si bemol reclama cuícas que o refrão ignora
sonhando acompanhamentos que nunca chegam.
É que ele já não tá mais aqui, e a música é de um violão só,
e sem cavaco.

Como todo refrão, sonhador, carnavalesco,
ele inventa alegrias pro povo dançar,
nem que na melodia só-zinha.
E então, como se feliz fosse a canção, o povo dança, enganado, tanto quanto o compositor, que crê ter composto música melhor do que a que ele o deixou:
uma marchinha que se chama "abraço", apertada, compassada, e que nunca termina, cheia de Si, de Me, mas sem Ele.
Hoje - mal - tocada só em Mim menor,
bem pequena.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

domingo, 18 de maio de 2014

Ele e Ela, o pouco que sobrou

Acordou antes de abrir os olhos, e antes de conferir-se sabia, aquele seria um dia de saudades. Saudades do povo, da vida de ontem, das conversas, do contato. Havia tempo não acordava daquele jeito, deformado daquela forma. Há dias achava-se novamente conformado ao mundo e este a ele, mas naquela manhã fora do lugar é onde tudo parecia estar, novamente, tal como alguns meses atrás. Talvez fosse o cinza do céu, a chuva fora de época, ou nada disso, apenas o fato mesmo de que aqueles que falta faziam eram há três anos tudo o que de mais importante considerava na vida. Apenas isso, era do que se lembrava: que se encontrava vazio de lugar, de sentido, de referências para saber-se cheio ou não. Não era muito do que se lembrara, apenas disso, de que seu tudo era nada de uns anos pra cá, ou assim havia se tornado, entornado. Por umas semanas esqueceu-se de toda essa verdade, e ficou bem, mas agora relembrou-se dela, e descobriu que nunca a havia esquecido. Nem mesmo o café quente esquentava o dia, era domingo, haveria samba, choro, vela, mas estava frio, cinza. Ele, ao contrário, amarelava saudade, tremia abraços, dividia - consigo - solidão. Antes, quando outros com ele disputavam solidão, solidão sobrava. Hoje ela havia de sobra, igual a ele.

Sa-u-da-de

se éminha divid o como qui-ser

sexta-feira, 16 de maio de 2014

na estação de ônibus

Gosto de começar com verbos, por isso digo chorava. Poderia ser chorei, mas sendo inverdade não digo, eu já tinha chorado. Noutro tempo, tempo atrás. Agora era ela, e ela chorava. Choro de verdade, choro de morte, choro copiado de quem ligou para dar a notícia, choro copioso. Senti de longe, entorpeci, marejei, meu rosto molhou, e da janela do ônibus revelei  a quem quisesse o final precoce da minha noite, o adiantar da minha meia noite. A dela - certamente - seria bem mais longa, estava apenas começando. Se bem me lembro destes dias, aquela noite não terminaria nunca. Sim, me recordo, por quatro vezes eu também nunca mais amanheci, pago ainda por estas noites nas minhas olheiras, nas risadas, no bar, no cansaço de ser, no desembaraço para chorar facilmente e sempre, que quiser e que precisar. Enquanto a mim devo este sono, a mim a vida deve presenças. E minha amiga, que da janela vejo ainda a marejar-se, quanto deve ao mundo? Menos que eu? Mais? Seus olhos são fundos, rosto machado, inchado é o coração, eu vejo. Pouco não é, ela deve muito, eu sinto, eu sei. Se os seus não mentem, os meus não se enganam, com olhos de quem sabe chorar eu vejo, ela chora, mais um vez. Não é a primeira, não será a última, eu sei, nunca é.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pra que tanta cerca? Perguntava-se encarando a frio a noite que se insistia amarela, iluminada. Grave de cachorros, rija. Não queria chegar em casa, mas o portão já se aproximava, pés em ato contínuo, chave na mão. De onde vinha? Inconsciência. Obvio que estaria vazia, a casa. Seu meio cheio era fora do mundo, o que lhe faltava já não estava aqui, partiram sem avisar. Deixaram abraços, carinhos, mas sim, foram sem avisar. E ele ficara, para sempre a ser ele condenado, apenas ele daqui pra frente, sem divisórias ou divisões, a tornar-se o que sempre renegara: mais um desses eus enormes. Porém, lutaria, e não seria, afinal, não nasceu praquilo, ele era nós, sempre fora e disto ser não abriria mão. Aliás, com ela fechada, acertaria, na ponta do nariz do mundo, um murro bem dado, mas só depois de tomar banho e comer alguma coisa. Por hora, a passos lentos, só pensava em não ir pra casa, que se aproximava. Ao invés de chegar, iria encontrá-los, os que importam, no fundo de um fundo verde qualquer, ficaria com eles até que a manhã amanhecesse, amarela, tão grave de passarinhos quanto leve de azul saudade, no entanto vazia, tal como a casa, a manhã, o mundo e a cerca. Acerca de se, cercado de si, sabia apenas ser sozinho, e só.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

D e s i g u a l d a d e

Tinha de ser uma palavra tão grande?

tenho

medo,
dos roteiros mais que dos dragões,
da neve mais que dos anões,
dessa verdade, assim como dos chavões,
destes mocinhos bem mais que dos vilões.

nojo?

dessas baratas menos que de carrões,
dessas meninas mais do que de ladrões,
destas mansões, dessas mansões, tesas mansões, mansões...