Vestindo
apenas short, ele estampa no peito magrelo, ossudo, o negrume de cor e de sol,
negrume do brincar diário e nunca falho por toda a tarde entre as pedras do
estacionamento. Entre os carros e as outras crianças ele se destaca faceiro,
rápido, e daqui de cima, de longe, me parece o mais astuto, não tenho dúvidas.
Foi dele que gostei desde logo que mudei. Carinha de marginalzinho de favelas,
desses que a polícia bate antes de perguntar o nome ou a graça da avó, já que
pai – legítimo - não deve de ter – mãe pode ser, e pode não ser. O moleque é a cara de uma
letra de Rap, é a própria rua, a periferia em pessoa miúda e desamparada.
Solto,
vadio e bonito, de uma beleza vermelha e uma simpatia gratuita, o menino
cumprimenta a todos que passam no vai e vem de suas vidas medíocres. Nem todos
respondem de boa trova o sorriso que oferece por vezes até sem querer. É que
ele, baixinho, no patamar duns oitos anos, traz a boca sempre aberta por custa
do olho que fecha à proteção da claridade do sol e passa o dia todo no
riscado, chinezinho, sempre a tencionar as bochechas pra cima, mostrando a
dentição, modo um sorriso – às vezes nem é.
Como
próprio do meu costume, e mesmo por despeito do gostar escondido no peito,
quase nunca é que dou ao moleque mais de duas ou três palavras. Porém, felicidade
me deu o acaso no dia que por distração me fez pisar de leve o carrinho que
brincava o negrinho, nas escadarias que dão pra rua. – Desculpa! Falei com ele,
realmente assustado. - Quebrou? Não, disse ele sorrindo. – Foi mal mesmo tá, mandei
nessa frase um sorriso e emendei perguntando se podia fechar o portão, tratando
o moleque feito fosse um adulto, dignamente. – Pode fechar, respondeu todo
criança, sem se importar com honrarias. Ainda no meio do estrondo do portão, ouvi
a voz rouca me chamar, olhos abertões, iluminadinhos: - Cê luta capoeira? Meu
sorriso, maior que o dele, disse que não. – Só pareço, não luto nada. Grave,
mandei um tchau amigo pra ele, voz macia de velho conhecido, e saí imaginando
que se lhe houvesse quebrado o carrinho daria outro, na manhã seguinte, dia de
natal.
Sem intenção de querer afirmar que meu
burro é mais cavalo que o dos outros, não me privo de dizer que nem todos os
moradores dão ao moleque um tratar feito o meu, da véspera de natal. O normal
dele receber é o olhar de cadê sua mãe?,
quando não a voz mesma a perguntar, brava: Cadê sua mãe? E chinezinho, a olhar
pra cima, a resposta corrente é que a avó tá lá em cima, no quinto, cuidando
dos irmãos. Quantos eu não sei, mas essa meia vida me sopra que devem de ser
muitos, por intuição.
Arteiro como criança livre, o magrelo não
apronta mais do que o necessário para a idade vivente. À correr atrás de bola
ou descendo de rolimã a rua ingrimada, ele assemelha viver infância de uns
trinta anos atrás. Falta-lhe talvez um pião à mão ou um bodoque na algibeira da
cueca amarela. De nada parece moderno, a imagem dos pés é a fotografia dos
tempos da escravatura, quando se o pretume não era forte, o calçado ainda
separava, de longe, pessoa de bicho, gente que vale e que não.
As mães das outras crianças, modernas donas
de casa, do alto de suas janelas passam o dia a proibir a meninada de
perambular com aquela má influênciazinha. Levando na cor a culpa por toda marca
de bola ou para-brisa quebrado, o moleque é o líder e responsável por toda
confusão diária, mesmo quando inocentado pelo autor. - Não foi ele, mãe! Se as mães temem a ele, a
criançada de nunca o abandona, que pra brigar e tirar virada em peladinha de pé
descalço igual a ele não tem melhor parceiro. Além disso, se de todo o saber
ler ele ainda não tem, das histórias de adulto por ali não havia melhor
contador. Ensinava, fazia escola nos fins de tarde, quando, sentados ao meio
fio, à beira do portão, toda a meninada ouvia atenta as mentiras sobre beijos,
peitinhos, punhetas e bundas. Claro, sempre encenadas, alias, obcenadas, por ágeis mãos e cintura mole
de gingador experiente. Os pais, principalmente os de meninas, a retornar do
trabalho àquele horário, enlouqueciam ao surpreender aquele infanto seminário
erótico. De seu lado, a criançada adorava. E sob o xingado de algum pai
qualquer, um pouco mais adultos, numa correria desembestada eles subiam aos apartamentos. Com sorte, as histórias contadas pelo negrinho poderiam aos
sonhos inspirar esboços do que haveria de vir nos anos seguintes. Imagens
confusas, estranhamente prazerosas, coisas de só serem totalmente compreendidas
no depois, quando o saber juntasse o fazer. Por hora, era tudo brincadeira. E o
neguinho ainda vivia...
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