quinta-feira, 3 de abril de 2014

Nonada

Abandonado o menino danado. Nada de nada fazia, coisinha ou outra só, nada demais, nada de menos. Nadava, de nada a nada mergulhado no abandono, e quando lá pousava, na terceira margem, seco, pés sujos de lama, corria no mato danado, mas nada havia, nada o via, nada alcançava. Claro, lá nada havia! Tava nada lá! Nada tava nele, e não lá! Que é que queria encontrar? Nada!?
De nada adiantava nadar, fosse que lado fosse, sabia! Disso sabia, mas nada de nadar o fazia deixar. Teimoso, sempre nadava, nadava sempre. Nadando, nunca desistia. Em nadando, se sentia, existia. Não nadasse que faria? Nada é quem não faz nada, pensava. Quem nada faz, faz! E se abandonava, em nada nadando, nadando em nada, abandonada. Menina danada, menino do nada.

Passou?

Hoje foi
amanhã não.
Só amanhã!

terça-feira, 1 de abril de 2014

Aquele moleque, do prédio.


Vestindo apenas short, ele estampa no peito magrelo, ossudo, o negrume de cor e de sol, negrume do brincar diário e nunca falho por toda a tarde entre as pedras do estacionamento. Entre os carros e as outras crianças ele se destaca faceiro, rápido, e daqui de cima, de longe, me parece o mais astuto, não tenho dúvidas. Foi dele que gostei desde logo que mudei. Carinha de marginalzinho de favelas, desses que a polícia bate antes de perguntar o nome ou a graça da avó, já que pai – legítimo - não deve de ter – mãe pode ser, e pode não ser. O moleque é a cara de uma letra de Rap, é a própria rua, a periferia em pessoa miúda e desamparada.
Solto, vadio e bonito, de uma beleza vermelha e uma simpatia gratuita, o menino cumprimenta a todos que passam no vai e vem de suas vidas medíocres. Nem todos respondem de boa trova o sorriso que oferece por vezes até sem querer. É que ele, baixinho, no patamar duns oitos anos, traz a boca sempre aberta por custa do olho que fecha à proteção da claridade do sol e passa o dia todo no riscado, chinezinho, sempre a tencionar as bochechas pra cima, mostrando a dentição, modo um sorriso – às vezes nem é.
Como próprio do meu costume, e mesmo por despeito do gostar escondido no peito, quase nunca é que dou ao moleque mais de duas ou três palavras. Porém, felicidade me deu o acaso no dia que por distração me fez pisar de leve o carrinho que brincava o negrinho, nas escadarias que dão pra rua. – Desculpa! Falei com ele, realmente assustado. - Quebrou? Não, disse ele sorrindo. – Foi mal mesmo tá, mandei nessa frase um sorriso e emendei perguntando se podia fechar o portão, tratando o moleque feito fosse um adulto, dignamente. – Pode fechar, respondeu todo criança, sem se importar com honrarias. Ainda no meio do estrondo do portão, ouvi a voz rouca me chamar, olhos abertões, iluminadinhos: - Cê luta capoeira? Meu sorriso, maior que o dele, disse que não. – Só pareço, não luto nada. Grave, mandei um tchau amigo pra ele, voz macia de velho conhecido, e saí imaginando que se lhe houvesse quebrado o carrinho daria outro, na manhã seguinte, dia de natal.
     Sem intenção de querer afirmar que meu burro é mais cavalo que o dos outros, não me privo de dizer que nem todos os moradores dão ao moleque um tratar feito o meu, da véspera de natal. O normal dele receber é o olhar de cadê sua mãe?, quando não a voz mesma a perguntar, brava: Cadê sua mãe? E chinezinho, a olhar pra cima, a resposta corrente é que a avó tá lá em cima, no quinto, cuidando dos irmãos. Quantos eu não sei, mas essa meia vida me sopra que devem de ser muitos, por intuição.
     Arteiro como criança livre, o magrelo não apronta mais do que o necessário para a idade vivente. À correr atrás de bola ou descendo de rolimã a rua ingrimada, ele assemelha viver infância de uns trinta anos atrás. Falta-lhe talvez um pião à mão ou um bodoque na algibeira da cueca amarela. De nada parece moderno, a imagem dos pés é a fotografia dos tempos da escravatura, quando se o pretume não era forte, o calçado ainda separava, de longe, pessoa de bicho, gente que vale e que não.
     As mães das outras crianças, modernas donas de casa, do alto de suas janelas passam o dia a proibir a meninada de perambular com aquela má influênciazinha. Levando na cor a culpa por toda marca de bola ou para-brisa quebrado, o moleque é o líder e responsável por toda confusão diária, mesmo quando inocentado pelo autor. - Não foi ele, mãe! Se as mães temem a ele, a criançada de nunca o abandona, que pra brigar e tirar virada em peladinha de pé descalço igual a ele não tem melhor parceiro. Além disso, se de todo o saber ler ele ainda não tem, das histórias de adulto por ali não havia melhor contador. Ensinava, fazia escola nos fins de tarde, quando, sentados ao meio fio, à beira do portão, toda a meninada ouvia atenta as mentiras sobre beijos, peitinhos, punhetas e bundas. Claro, sempre encenadas, alias, obcenadas, por ágeis mãos e cintura mole de gingador experiente. Os pais, principalmente os de meninas, a retornar do trabalho àquele horário, enlouqueciam ao surpreender aquele infanto seminário erótico. De seu lado, a criançada adorava. E sob o xingado de algum pai qualquer, um pouco mais adultos, numa correria desembestada eles subiam aos apartamentos. Com sorte, as histórias contadas pelo negrinho poderiam aos sonhos inspirar esboços do que haveria de vir nos anos seguintes. Imagens confusas, estranhamente prazerosas, coisas de só serem totalmente compreendidas no depois, quando o saber juntasse o fazer. Por hora, era tudo brincadeira. E o neguinho ainda vivia...