Gabi, meu pai, Ana,
João, pessoas. Pessoas que por vezes parecem nem ter existido. Essa é a raiva
que tenho, só hoje, de a bem pouco tempo, do Tempo. Esse meu ganha pão, esse lugar
onde vivo, sobrevivo, vago, caminho nos segundos do trabalho e me esqueço de todos vocês. Pessoas, o
Pessoa – o maldito sábio português – parece ter razão: o impulso vital apaga as lágrimas, pouco a pouco, quando não são de
coisas nossas, quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, por
que é coisa depois da qual nada acontece aos outros. É coisa depois da qual coisa só acontece à gente, depois da qual o mundo só acontece às gentes, quando restam
– aos cacos – as gentes que ficam, digo, que sobram. Gentes que, como eu, a despeito de saber que
não seja certo que nossa vida represente
qualquer utilidade – que conquanto sobreviva em cada sorriso a sensação de
que aquele sorriso é sempre menor do que poderia ser; que apesar do vazio da
casa, da noite e do violão ser interminavelmente alto; e que embora ser um
irmão sem irmão signifique mais que uma contradição, mas uma dor profunda, movedora de hercúlea desvontade de viver – como afirma Graciliano Ramos, é preciso viver...
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