sábado, 12 de outubro de 2013

Minha alma não tem calma

Minha alma não tem calma. Mas também não quer nada diferente. Talvez esquecer, ao menos às vezes, essa deliciosa sensação de abandono que a falta de calma nos trás.

1/4 de pensamento tranquilo

Colocou uma música para o pensamento não ficar muito alto e pôs-se a arrumar no quarto apertado tudo o que não precisava de organização. Volume apenas, não fuga. Ele não era de fugir. Claro, também não gozava dessa opção. Daqui pra lá, daquele canto pra cá, as coisas se transferiam quase sozinhas, já que dele não tinham senão as mãos: o espírito avoava. Perto, mas voava. Aquele silêncio musical era reconfortante, terrivelmente reconfortante, dolorosamente. Assemelhava-se àqueles abraços antigos, então tão afáveis, reais. Hoje era o pensamento. Ele era o pensamento, somente, e desarrumava o quarto apenas para pensar no que pensava querer pensar. Buscava em verdade fazer-se acreditar na sensação de que se sentia tranquilo. Tranquilamente, em suas mãos, as coisas do quarto transitavam, de um lado a outro, tão somente para que ele falsamente se tranquilizasse. Se tudo é ilusão, por que não a tranquilidade, ele se perguntava e ficava então melhor. Eram boas as suas coisas, estavam sempre com ele, ao seu lado, tal como o quarto. Eram seres, e como é próprio dos seres sabiam - como ninguém - apenas estar. O estar é uma das melhores companhias a compartilhar, e suas coisas sabiam estar com ele. Não falavam uma só palavra enquanto a música tocava, senão um comentário ou outro nos intervalos. Como aquele da caixinha de bombom que viria a lembra-lo daquela noite de agosto do ano passado, silenciada após um olhar reprovador e o início da nova canção. Agravo pequeno, nada que tirasse da noite a definição que ele buscava, boa e tranquila. Naquele dia dormiu mais arrumado que o quarto: suas coisas o colocaram no seu lugar.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Legado

E eu que já pus nas mãos de Deus, sob a pena de não mais nele acreditar, a vida de meu pai. Desculpe-me, pai, foi o máximo que pude fazer para te deixar partir. Junto contigo foi se o resto dessa minha crença, enquanto comigo ficaste a dor, o peso do mundo – agora ainda mais pesado, e a liberdade: a liberdade de um por eu, só. Obrigado, pai, por ter ido com Deus. Legaste-me a liberdade. Deste-me, assim, novamente, a vida.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

à ninguém

Estranho. Interesso-me por palavras exatamente no momento em que menos parecem dizer. Falseadas, aumentam em legitimidade. Valoram-se na verdade do único dono. Se não há sentido absoluto, também não disputo parcialidades, fico com os meus. Falo sem pretensões de ser compreendido. De mim pra mim, são sempre verdadeiras. E se entro no sistema, o faço apenas para subvertê-lo, para não dizer. Meu comprometimento é comigo. Se não digo a você, faço-me, assim, a mim entendido. Me tranquilizo na desistência. Conformado, não mais mendigo por compreensão, entendimento tampouco: pelo direito de dizer, talvez, e apenas - e somente a mim mesmo.