terça-feira, 24 de setembro de 2013

só a poesia é verdadeira

Ultimamente dei pra me dar à poesia. Desconfiei que só nas artesanias de dizer nadas encontraria sustento pras vaziações. E tenho encontrado. Nos abandonos entardecidos das garças de Manoel tenho percebido que ainda há lotes azuis mesmo nas manhãs que não acham pedras para repousar. Descobri que meu silêncio, embora nobre e colossal, nunca é maior que o silêncio das pedras. E que o abandono do lugar às vezes pode ser maior que o abandono das gentes, que podem, no máximo, ser abraçadas por ele. Descobri que até o abandono abraça a gente, e penso talvez copiar o avô de Manoel que casado já foi com a solidão, com quem bolinava na rede. Fiquei sabendo também que as inutilidades da língua servem para descrever - mas sem explicar - a desutilidade de alguns seres, pelo que fui salvo. Achei meu nome nas línguas mortas dos índios guatós do pantanal. Meu nome não tem gorjeios, pois não tenho que ninguém dos hereditários de cima que tiveram da sorte de ser pássaro, mas goza de uma tristeza entardecida, de uma liridade encardida que qualquer dia desses há de sujar com decência algum olhar azul que me ei de chamar de poeta. Só descansarei quando for um nada de marca menor.

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