quinta-feira, 26 de setembro de 2013

apalavrado

Houve uma época que eu escrevia tudo o que eu via
era o tudo que virava palavra
embora às vezes o nada eu também palavrasse.
Escrevi uma namorada
um irmão
até palavra eu escrevia.
Desenhava de tudo em palavra.
No computador,
na máquina,
no lápis,
todo desenho eu desenhava em palavra.
De alguns eu gostava mais do desenho palavra que do desenho visão.
Não digo que era mais bonito
eu que gostava mais.
Só não permitia que palavra diminuísse os desenhos visões.
Tem alguns tão bonitos que parecem palavras
como entardecer
ou garça - né Manoel.
Palavra, pra se arriscar a desenhar, tem de dar conta do que fala.
Como amanhecer
que é cheia de estrela no início e termina desavermelhando
clarinha clarinha
E aí se junta com palavra pássaro, canto e... e texta
ensolarando as imagens da cabeça da gente.
(ensolarado também dá conta do que diz)
Texto é a pretensão máxima dos desenhos palavras.
Na verdade, sua própria incompetência.
É um desenho montado com um monte de desenho palavra.
Melhor o desenho mesmo.
Em beleza texto só ganha de palavra mentira, como propedêutico
que só dizem por meio da força:
se chamam conceitos.
São desprovidas de desenhos verbais.
Claro, tem texto que desenha a gente
- como os de Graciliano ou Shakespeare -
por dentro e por fora.
Mas tem uns  que rabisca.
(rabisca também dá conta, arranha como o próprio desenho de palavra ruim)
Depois de palavra eu gosto mesmo é de frase
Como a manhã repousada nas costas de uma lata
do menino de Manoel.
Penso que nem tem visão que dê conta
ou desenho.
Não é um jogo
Mas tem dia que a palavra vence.

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