domingo, 29 de setembro de 2013

imperativo categórico manoelês

Só a poesia pode falar em verdade.
Somente em seus lábios a língua encontra relatividade suficiente para pronunciar essa falácia.
Daí a força do imperativo de Manoel:
"existem várias formas de não se dizer nada
- dentre as quais a tal ciência -
mas só a poesia é verdadeira".

merecia até outro nome

Domingo devia de ser só manhã
mesmo pra quem acorda tarde.
Tarde de domingo já não é domingo
é um adomingo
Chega às vezes ser pior que a segunda
é um não lugar
um morrer de véspera.
Domingo devia de ser só manhã.
Essa sensação de tranquilidade vazia
da forma mesma que toda tranquilidade
devia de ser: esvaziada.
Um não delicioso não ser
ou não estar.
O domingo de manhã é a sensação de um tempo que não passa
passando.
O não estar do domingo a tarde é cheio
angustiado.
Nem falo da noite.
Bom é o vaziamento do domingo de manhã
principalmente quando chove.
Aquele ar carregado despreenche meu ser.
- É tão bom!

sábado, 28 de setembro de 2013

uma bela correteza

Já percebi que só sei ler os meus poemas
nos dos outros erro no canto, na rima e na cor
entono sempre na pedra errada.
Ventalizo verbos
e quase sempre esqueço de verbalizar substantivos.
Esqueço que poeta erra a vera
e de primeira acabo por corrigir as invenções deles.
Mas depois
quando descorrijo
os invejo
É cada verdade bonita!

O menino que virou palavra

Depois da irmã que virou cor, contarei a história do menino que virou palavra. Também meu irmão.

uma poesia por dia

Escrevo, desde que nasci, uma poesia por dia
Um dia, desde que escrevi, uma poesia nascia
Uma poesia escrevi desde que um dia nascia
Desde que um dia nascia uma poesia escrevi
Que desde uma poesia escrita um dia nasce
Poesia escrita nasce desde que um dia dia.

entre permanências e nuncas

Nunca esqueci dos meus abandonos de infâncias,
cresci sem ser esquecer.
Por isso inda sou todos eles.
Eu só cresci
e ainda nem fui.
Sou abandonado de ser.

poesia é um nada lotado de felicidade

Faço duas coisas na vida.
Uma é poesia
a outra é viver.
Quando vivo eu como,
rio, transo, gozo,
bebo, festejo,
trabalho e
estudo.

quando faço poesia sou feliz.

é

A gente só é mesmo,
objetivado, definido, definitivo,
na morte:
quando aí o seu ser não muda mais.
Aí a gente vira é,
ou foi.
A gente só é de fato quando encerram as possibilidades de será.

Futuros impedem nosso ser.

- É é uma coisa que quero ser!



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

apalavrado

Houve uma época que eu escrevia tudo o que eu via
era o tudo que virava palavra
embora às vezes o nada eu também palavrasse.
Escrevi uma namorada
um irmão
até palavra eu escrevia.
Desenhava de tudo em palavra.
No computador,
na máquina,
no lápis,
todo desenho eu desenhava em palavra.
De alguns eu gostava mais do desenho palavra que do desenho visão.
Não digo que era mais bonito
eu que gostava mais.
Só não permitia que palavra diminuísse os desenhos visões.
Tem alguns tão bonitos que parecem palavras
como entardecer
ou garça - né Manoel.
Palavra, pra se arriscar a desenhar, tem de dar conta do que fala.
Como amanhecer
que é cheia de estrela no início e termina desavermelhando
clarinha clarinha
E aí se junta com palavra pássaro, canto e... e texta
ensolarando as imagens da cabeça da gente.
(ensolarado também dá conta do que diz)
Texto é a pretensão máxima dos desenhos palavras.
Na verdade, sua própria incompetência.
É um desenho montado com um monte de desenho palavra.
Melhor o desenho mesmo.
Em beleza texto só ganha de palavra mentira, como propedêutico
que só dizem por meio da força:
se chamam conceitos.
São desprovidas de desenhos verbais.
Claro, tem texto que desenha a gente
- como os de Graciliano ou Shakespeare -
por dentro e por fora.
Mas tem uns  que rabisca.
(rabisca também dá conta, arranha como o próprio desenho de palavra ruim)
Depois de palavra eu gosto mesmo é de frase
Como a manhã repousada nas costas de uma lata
do menino de Manoel.
Penso que nem tem visão que dê conta
ou desenho.
Não é um jogo
Mas tem dia que a palavra vence.

será?

Queria de ter sido poeta - medíocre - era antes do João aflorar.
Hoje pouco me serve a poesia
senão pra só dele falar.
Queria mesmo é pra ele mostrar.
Cantar
Declamar
Minha pensa me diz que ele iria gostar.
- Mas será sua voz me faria tentar?
Não sei seus abraços que tipo ou poeta me fariam tornar.
Talvez nenhum, ou um medíocre.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

borboleta é uma cor que avoa

Numa piscada ainda a pouco atinei
Que pra alguns a vida é de natureza destinal.
Foi um clareamento, tipo uma ciência
bem num segundo de fechado os olhos.

Vi ali que os azuis são a parte menor dessa vadiagem no tempo.
E que vida de gente tem muito é vermelho.
Claro que roxo, verde, amarelo, por vezes que também tem
Porém já notei que o que mais vai se ver é vermelho mesmo.
Quando crescer contarei pro meu filho dessa alquimia das coisas
Ele por seu turno contará para o meu neto
Que também tentará, sem sucesso,
Azular os tormentos do neto do meu filho.
Sem sucesso.
- Tormento é de um verde-escuro inlavável.

Entendo só hoje por que que é que meu pai não me revelou dessas coisas:
Era sábio.
O velho sabia da inexorabilidade das cores.
Há uma liberdade nos coloridos da vida
A gente é que é preso.
Sorte é não ser apanhado por uma cor só
E ser levado por ela até quando a morte.
Tem marrons que carregam a gente:
São aqueles de um ardor mais amargo.
Isso meu avô que me disse
No final de uma tarde
Todo encardido de cachaça.
Para a própria tristeza
Meu avô era preto
E por isso bebia.

Tive uma irmã que já foi arco íris.
Ao contrário do meu pai
Hoje não sei onde ela tá.
Penso por certo que divinizou-se:
Voou como fosse a própria cor.

revisitações

Gosto de ler em mim minhas poesias envelhecidas. Nelas encontro a tristeza de ontem e que não raras vezes plangem ainda a criança de hoje. Das visualizações do meu blog, metade inda vem de mim. Meu público sou eu. Não é vaidade pois que seja na verdade algo apenas como revisitação. É que minha vida anda de revés, como um carro que vence a distância do tempo na marcha da ré. Ou um caranguejo, que mesmo quando pra frente caminha está sempre que meio de lado, de banda.
O pra frente dele é torto, como o meu. Comungamos de efeitos de nascença.
Meu menino, quando cresceu, também não perdeu o olho da nuca. E isso muito é que piorou os efeitos desse azul. Olho que a vida tratou de por óculos, por modo que hoje ele vê o passado de ainda mais longe, e melhor. Com lentes de ver de longe, mesmo os passados de ontem empoeiram-se de horizontes, como se houvessem sido distantes de tempo e de lugares. Coisa que não são. Ultimamente ando muito revisitado. Quando morrer eu também vou visitar minha mãe mais que meus amigos, e ela se sentirá revisitada. Gozarei de nobrezas de passado.

conforto de palavras acostumadas

O abandono tem um lugar em mim. Foi Manoel que me fez perceber isso. É um lugar cheio, preenchido de saudade, e, como podem ver, lotado de pieguice. Quando escrevo só me saem clichês. Deve ser a vontade de perenidade.

sustento

Coisa que tem existido muito dentro de mim, além de desmotivação, é palavra. Palavras tem ocupado-me de cabo a rabo. É muita, em quantidade de arroba, e sobram, caem do bico dos dedos e me mostram. Fotografam o abandono sobre o qual caminham minhas imprecisões. Minhas palavras alimentam essas imprecisões. Solidão é uma palavra de que gostam muito minhas imprecisões, sobretudo quando tem angu.

só a poesia é verdadeira

Ultimamente dei pra me dar à poesia. Desconfiei que só nas artesanias de dizer nadas encontraria sustento pras vaziações. E tenho encontrado. Nos abandonos entardecidos das garças de Manoel tenho percebido que ainda há lotes azuis mesmo nas manhãs que não acham pedras para repousar. Descobri que meu silêncio, embora nobre e colossal, nunca é maior que o silêncio das pedras. E que o abandono do lugar às vezes pode ser maior que o abandono das gentes, que podem, no máximo, ser abraçadas por ele. Descobri que até o abandono abraça a gente, e penso talvez copiar o avô de Manoel que casado já foi com a solidão, com quem bolinava na rede. Fiquei sabendo também que as inutilidades da língua servem para descrever - mas sem explicar - a desutilidade de alguns seres, pelo que fui salvo. Achei meu nome nas línguas mortas dos índios guatós do pantanal. Meu nome não tem gorjeios, pois não tenho que ninguém dos hereditários de cima que tiveram da sorte de ser pássaro, mas goza de uma tristeza entardecida, de uma liridade encardida que qualquer dia desses há de sujar com decência algum olhar azul que me ei de chamar de poeta. Só descansarei quando for um nada de marca menor.

Meus muitos inomináveis

Há em mim coisas que não consigo dizer. Coisas que se digo não digo bem. É que são tão pequenas, infinitas, que nasceram pra ficar sem dizer. Não se permitem existências verbais, não gostam de ser nomeadas. Pequenas que são, já notaram que o conceito enfraquece. Não querem adoecer de dicionários. Tampouco em dicionários. Sofrem - e de nada mais aceitariam sofrer - do bem do tudo. Essas tais coisas, infinitas, que habitam-me em sentimentos de vaziação, não aceitam que apequenem sua completude em formas de quatro ou cinco letras. Nem amor lhes serve. Meus sentimentos querem Ser. Não querem que eu use Meu em frase alguma que fale deles. Eles são eles, ora. Formam-se por todos os lados, multiplicam-se, mas não se afronteiram. Nem mesmo de mim. Desconhecem que Ser é uma coisa grande, porém, por logicação, acreditam que coisas são seres grandes. Acho às vezes que mora em mim um outro ser: verbal. Lírico. À bem da verdade acho que são outros seres, que invisíveis e fortes brigam por não ter nomes senão o meu mesmo. Usam disso pra se esconder. Já li em livros que para viver há seres que não gostam de ser, só de existir. E que sofrem, fazendo-nos sofrer.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

de nadas

Esse Manoel tinha mesmo de ser de barros,
De lodos.
Inclinado a garças, se pudesse,
Certamente seria de ventos,
De árvores
De águas.
E foi.
Manoel nadou-se,
Perfeitamente.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O meu lugar

Quero cantar. É a frase que me vem à cabeça e que eu sem pestanejar escrevo nas linhas do texto que nem sei onde vai dar. E assim realizo-a, canto. Canto sob os lugares comuns que deixo fluir enquanto a referência piegas à coloração avermelhada do fim da tarde pede também passagem neste desvairado conto. Permito. Lugares comuns são bem vindos. A noite traz seu frio sob o vermelho das árvores, escrevo. Rimarei também fel com mel, coração com amor, e me tranqüilizarei. Sinto-me como se respirasse o ar mais limpo dos ares da babilônia - que nem sei de onde tirei, e profundamente. Fecho os olhos, inspiro, respiro. Assento-me nas palavras acostumadas, e elas me acolhem, como a comparação com o abraço de mãe que insinuou-se na cabeça vazia, agora a pouco, no segundo que passou. Seguro-me, serei forte. Não chegarei a tanto: a relação entre mãe e proteção é uma verdade, não uma alusão, e não a darei vida neste texto. Mãe é pra quem tem, não é coisa pra devaneios. Decido então seguir apenas escrevendo, mas sem muita vazão às acostumadas relações batidas, muito usadas, já que por vezes estas nos prendem e não soltam. Que voem, todas as letras, boas ou más. Soltarei agora, para que leias, obscenidades. Está resolvido. O que achas? Tenho autoridade para tanto, ou devo contentar-me com diários? Limitar-me à incompetência de medíocres descrições de pensamentos interiores? Tudo bem, não se preocupe, sei do meu lugar, e, aliás, dele não abro mão. Abraço-me aos meus costumes e tranqüilizo-me, profundamente, como uma criança no colo da mamãe.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

acho que sim, mas

- Você acha que chove hoje?
- ...daqui vejo um pedacinho de céu azul, não sei quem me engana, se meus olhos ou meu coração, mas o vejo, ali, no cantinho, entre a cortina e a janela, um pedacinho de céu azul.