segunda-feira, 5 de agosto de 2013

viver é patético

Pateticamente, ela viu-me chorando pateticamente. Passou todo o domingo com essa ideia na cabeça, atormentado, aturdido. Pateticamente. A festa da noite anterior o assombrava como os fantasmas das perdas recentes que o fizeram, durante a festa, chorar pateticamente. Na frente dela e de todos, pateticamente. Na frente de todos os seus amigos, pateticamente. A própria palavra o perseguia, e ele, patético, fugia do que não podia se libertar, pateticamente. Aquela atitude o perseguia onde quer fosse, em que quer que pensasse. Não era uma atitude, era um meio de vida, uma forma de encarar e observar a vida. Mais que um adjetivo, era ele mesmo, sua personalidade, uma marca de nascença aprendida nos desastres da vida jovem e desastrada, patética. Poderia ser atlético, mas não era, a palavra de sua vida era patético. Era adjetivo, mas não qualidade, era defeito. Defeito, nada mais que uma qualidade não reconhecida socialmente. Claro, os leves, já que os graves não merecem mesmo o menor reconhecimento. E ele era pouco reconhecido, o seu advinha dos motivos que todos compartilhavam. Educado, inteligente, respeitoso, atento, isso qualquer um deve ser, não merecem elogios os que dessas virtudes sofrem. E eram estes os seus elogios, ele era um comum, mais um. Medíocre, pateticamente medíocre. Quando morresse, sim, outros elogios se apresentariam, outras qualidades se apressariam em permear as frases que saltariam engasgadas das bocas dos amigos. Ali faria-se bonito, inteligente, escritor, melhor irmão, primo, amigo, namorado e ótimo filho. Sim, todos elencariam qualidades que criariam a falsa impressão de que ele nunca seria esquecido. Tolos, repetem a mesma mentira uma vez já ouvida por todos os mortos da história da humanidade e nunca cansam de se enganar. Os mortos também não. Lugares comuns, mentiras, ilusões, um dos grandes segredos da tranquilidade social e pessoal. É preciso acreditar para viver, em qualquer coisa, mesmo que na ilusão da eternidade. Mas naquele momento ele tornaria-se único, retirariam-no da mediocridade, elevariam-no. Ninguém se lembraria de um só evento comprovador do antigo e patético modo de vida.  E naquele dia, da mesma forma que ele fazia na noite anterior, todos chorariam seus mortos, como ele, pateticamente.

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