Meus irmãos caminham
pela casa durante a madrugada. É como inicia um dos textos que guardo a sete
chaves no livro do meu recomeço. Livro que ainda não iniciei. No conto
eles estão vivos e felizes, e eu os abraço, um a um. Naquela história ouço
canções, vejo o violão e converso de livros e bois. Meu pai não está ali, foi
trabalhar e só voltará quando eu acordar, saltando para fora da sala.
A noite do conto foi noite fraterna. Sem pai nem mãe conversamos como sempre fazíamos a qualquer
hora do dia e da noite, sem nos preocuparmos com o fim ou se estávamos todos lá ou não. Na história que escrevi vou até o
fim para encontra-los, caminho ao limite dos meus esforços, da minha sanidade, e
encontro, feliz, naquela ilusão, a realidade que de fato me conforta. Estou abraçado
sem precisar toca-los.
Mergulhado naquelas palavras sinto-me novamente. Estou ali. Estou, simplesmente.
Sensação que há muito não experimentava: a de deixar-se ser. E ali eu fui. Naquele
conto eu fui, mais um vez, irmão. Aquelas presenças envolviam-me, enleavam-me,
circunscreviam-me outra vez em algum lugar. Segurança, certeza, gratuidade
para estar. Gratuidade no estar, no viver. O transpassar de pernas, vozes, pessoas,
músicas e ruídos de casa aliviavam-me toda a tristeza dos últimos anos. E eu rejuvenescia.
Sentado ali na sala, com a almofada nas mãos, regozijava internamente a
oportunidade de conviver com seus corpos animados, falantes e vivos. Vozes
infantis, adultas e adolescentes, juntas e reais. Quanta saudade? Há quanto tempo? Prefiro não
contar. Opto por seguir contando o conto do recomeço cujo cenário é o fim da vida
de todos nós. Afinal, a minha também já acabou.
Conto passado numa sala apenas minha, desconhecida
por pelo menos três deles, mas que naquelas linhas faziam do recente cenário abrigo à vida de todos. Aquela sala servia à vida. Daquele espaço fiz um lugar
atemporal, sincrônico. Ao contrário da crueldade da vida, naquele conto enterrávamos
o tempo, a diacronia, e convivíamos todos num mesmo lugar. Zombávamos da lógica,
do destino, do tempo e da morte. A nova sala era o nosso lugar. Sentados no novo sofá, poderíamos
conversar se quiséssemos. Se quiséssemos, poderíamos tudo. Mas bastava-nos a
presença, o abraço da convivência, a segurança encontrada nas coisas pequenas e
corriqueiras, como a que encontra o bebê ao ser tocado no ouvido pela voz materna. Cultivávamos o gosto pelo nada, pela presença sem toque, o prazer de estarmos juntos.
No meu conto eu não
chorava mais, apenas sorria encantado sob a luz encantadora da voz do violão do
João. Aquele menino lindo, fácil, e que era eu mesmo. Iluminavam-me os cabelos
lindos e esvoaçantes de Gabi, sempre engraçada, faceira, esperta. A Ana andava,
de lá pra cá, da cozinha à sala, falava com a gente e tecia planos enquanto fervia
uns legumes, ainda com roupa de caminhada. Meu pai não estava. Àquela hora ainda trabalhava, por nós e pela família, como sempre fez. Embebido de luz, de
amor, eu me amava novamente. Sentia felicidade em viver. Orgulhava-me fazer parte
daquele time, daquela família.
Mas meu conto era só um conto, era estória,
ficção. Escrevi aquelas linhas sabedor de que final feliz era desfecho impossível
naquela ocasião. E ainda assim escrevi. Escrevia, escrevia e escrevia,
compulsivamente. Queria que aquele momento jamais acabasse, que minha história com
eles não findasse outra vez. Queria que finasse, essa sim, a minha
tristeza. Outra derrota, nova frustração. Sobravam linhas, canetas,
computadores, folhas brancas, mas faltavam-me ideias para manter vivo o conto do recomeço. Era preciso contornar os irremediáveis pontos finais que abundavam naquelas vidas breves e cheias de aspas. Era preciso retira-las, e faze-los viver.
Pudesse - e tivesse competência pra isso - enxertaria o
conto eternamente, e por ali ficaria dias e horas e mais dias. Tomando café e
escrevendo, revirando e revivendo os meninos, meu pai, a Ana. Faria Gabi
aprender violão, nota a nota, devagar, conforme o tempo exato exigido pelo
processo e relataria todos os detalhes do dia em que executou sua primeira
canção; falaria de seu amor pelos Engenheiros do Havaí, das dificuldades, e do
momento em que resolvera desistir, como faria mais tarde, para dedicar-se à literatura. Ao João eu imputaria qualidades que nunca teve, defeitos que nunca
manifestou e dedicaria algumas páginas do interminável conto às análises acerca
da perfeição daquela criatura à luz de algum filósofo de produção longa e
complicada. Apenas para ficar mais difícil, mais longa, a história e a vida dele. Eu queria dificuldades, e tudo o que contribuísse à extensão do meu tempo a frente da máquina de escrever vidas serviria. Nessa passagem, tornar-me-iam doutor no pensador em questão,
João e eu ficaríamos ainda mais próximos no estudo de sua própria mente e o
conto se alongaria em pelo menos umas novecentas páginas, e isto apenas no capítulo “do
menino”, como nas vidas secas do Graciliano, então indicado por Gabi.
À
Ana eu tributaria um longo e complicado processo de crise existencial que
culminaria em sua construção como uma artista plástica crítica, contestadora,
feminista e orgulhosa. Sim, eu mudaria completamente o caminho que se lhe
apresentava em vida, apenas para prolonga-lo, para prolonga-la - sua vida. Para estender nas minhas mãos a sua vida, eu lhe imputaria minúcias de difícil descrição. Detalhes que exigiriam de mim aptidão literária que não possuo. Mudanças bruscas muitas vezes são lentas,
como seriam estas que a ela eu impingiria. E a descreveria, devagar, como Saramago, levando à palavra cada passo daquela morena bonita.
Em
alguns momentos embaralharia as histórias. Talvez falasse do João no capítulo
de Gabi, que nos indicaria excelentes autores russos, romenos, africanos e
norte americanos. Estes últimos, por sinal, seriam sempre duramente criticados
pela Ana. Crítica, brava, ela bradaria contra o império, que naquele momento já
estaria em declínio completo. Àquela altura já estaríamos para além de 2050, ainda
juntos, jovens, na mesma sala do sofá novo, onde tudo se passaria sem que um
segundo destes 50 anos me escapassem à vista ou à letra. E o conto se
alongaria, cheio de pleonasmos, repetições, reviravoltas e enrolações. Eterno. Se
alongaria longamente enquanto eu ainda estivesse ali, estático, mudo, escrevendo-o
das funduras do meu espírito para que nunca terminasse aquele momento. Assim eu mantinha-os vivos, ao meu lado.
Ali
na sala, do fundo da minha cabeça fervilhante, eu os casaria e separaria; os adoentaria para depois curá-los; inventaria brigas, apenas para que depois nos abraçássemos; teria sobrinhos e faria filhos tão somente para que tivessem tios; enfim, viveria tudo o que os malditos acasos retiraram do meu futuro sem pesar. Nas minhas letras eu provocaria o mundo. E me vingaria
do destino, da morte, da solidão obrigatória de único irmão a que fui condenado.
Já sem ideias, ao final do conto, enorme, inchado, que já não caberia em biblioteca alguma desse
mundo, eu praguejaria ao acaso a raiva pelos açoites de que reclamavam minhas costas e meu coração.
Sem
forças, desolado, quase absorvido na realidade da qual lutava por escapar, rezaria
a Deus por mais ideias e não seria atendido, como de costume. E assim, como a
própria vida, como cada um deles, como a meu pai que ainda trabalhava naquele
momento, o conto se esvairia pelos meus dedos, como água. Sem ponto final, sem
refrão, sem abraços e sem direção, aquelas memórias absurdas, inventadas, sobre um
futuro que nunca foi, seriam finalizadas. Sem surpresas, sem final feliz. O
nosso encontro no final da vida seria então o recomeço, o início do livro que
nunca escrevi, que ainda não sei como escrever, que não sei como escreverei e
nem mesmo se o quero escrever: o livro da minha nova vida - sem eles. O livro da vida fora do conto que só terminei por incompetência literária. Fosse eu bom e criativo, viveria por lá, no conto, até hoje, ao lado deles, sentado no sofá novo, com a máquina sob o colo, acomodada na almofada, escrevendo-os, devagar, revivendo-os, revivendo-os, revivendo-os...
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