Os dois? Ah, ela ouvia a música e ele a canção.
Pensando sem precisar pensar, ele sentia a tranquilidade de estar ali, imerso
num silêncio a dois que não incomoda, naquele chamado de cumplicidade.
Praticavam o mesmo crime, deixarem-se estar, apenas, um com o outro.
Felicidade? Não, essas palavras fortes, pesadas, definidoras, não atravessavam
suas cabeças. Como eu já disse, eles apenas estavam. Não definiam, definiam-se.
Era exatamente das caixas que fugiam. Não, não tema leitor esporádico e
pensativo. Como eles, tranquilize-se, eu não vou usar metáforas de liberdades
ou dizer abertamente que eram livres, sobretudo por que não eram. Paremos com
filosofias que inventam palavras que não definem sensações ou coisa alguma da
vida vivida. Conceitos, isto, este é o termo. Paremos com conceitos,
desconceitualize, deixe os dois, deixem estar. Se queres sentir o que sentem
aqueles dois, sinta, faça, viva. Arre, os lugares comuns. Desculpe-me, não
voltará a acontecer. Minha maldita inclinação para manifestos, para sugerir aos
outros que façam aquilo que nunca fiz, não faço e não penso em fazer. Arre, outro...
o passado, presente e o futuro dos verbos, assim, em sequência, encadeados numa mesma frase. Malditos clichês, espero um dia
deixar de usa-los. Mas nos faremos compreendidos sem os usos e desusos dos
lugares comuns? Sinto inveja dos dois e de vocês, que não terão de ter com a
vergonha de suportar a autoria dessas baboseiras...
e prosseguir.
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