A mim, pouco coube. Não mais que copiar do blog de uma outra insone como eu esse início de oração. Achei bacana, a mim era expressão que nunca usei, nem pouco. Invejei e agora a repito nas primeiras linhas destas minhas memórias que só serão lidas com afeto significativo caso a insônia de amanhã tenha seu alimento retirado pelo ocaso, pelo acaso, ou por mim mesmo. Não li todo seu texto, pois a mim pouco cabia. Eu estava cheio, não havia espaço para caber mais nada. Não, eu não disse completo, mas cheio. Talvez enfarado defina melhor este sentimento que a mim cabia naquela noite insone. Outra palavra bacana, acho que a moça não a usa. Eu sim. Envaideço-me. Entristeço-me. Entristeço-me por perder noites à saudade, aos pensamentos. Entrego minha saúde ao que faz do homem o Homem. Penso, reflito, discuto, argumento e venço. Penso. A cabeça trabalha na noite, de noite, é vigia da sensatez e cuida para que não fuja. Envaideço-me, tranquilizo-me. Os que admiro trabalharam a noite. Certamente a noite. Protegeram-se ao abrigo de velas. Velaram-se. Velório. Entristeço-me: praguejo ao maldito jogo da linguagem, das associações que me lançam o perfume dos cafés das noites incomuns: das que não saímos incólumes. Afeto-me. Recordo uma frase não escrita, uma reflexão não desenvolvida nas passagens acima e retraio-me ante o desenvolvimento do afetar, certo de que primeiramente devo acertar as contas com as linhas passadas quando sou atingido - em cheio - por desenxabida. Orgulho-me dela, desenxabida. Acertou em cheio o pensamento vadio. Orgulho-me também de insone e de incólume. Como os que admiro, estou usando palavras difíceis. Haverão de usar dicionários por mim. Me lembrei, insone. Insone foi a ideia não desenvolvida. Não segui. Parei no insone, viajei por memórias estranhas, entristeci-me, e assim fiquei, insone. A mim, coube algo que ainda não domino, que não vejo, não identifico. Caiba-me, talvez, desenvolver - insone - um sonho. Pequeno que seja, mas que sirva ao menos de suporte ao sono, dele mesmo então arrancado, no furto do agá. Ah, o sono. Há o sono. Há o sonho em há o sono, basta jogar, brincar com os agás enquanto a noite devora luzes amarelas, ruas vazias e sonhos. Seja a sonar ou a sonhar, compreendo: a mim, cabe jogar. Sim, a mim, cabe sonar. A mim cabe, mas pouco.
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