quinta-feira, 29 de agosto de 2013

o conto do conto

Meus irmãos caminham pela casa durante a madrugada. É como inicia um dos textos que guardo a sete chaves no livro do meu recomeço. Livro que ainda não iniciei. No conto eles estão vivos e felizes, e eu os abraço, um a um. Naquela história ouço canções, vejo o violão e converso de livros e bois. Meu pai não está ali, foi trabalhar e só voltará quando eu acordar, saltando para fora da sala. A noite do conto foi noite fraterna. Sem pai nem mãe conversamos como sempre fazíamos a qualquer hora do dia e da noite, sem nos preocuparmos com o fim ou se estávamos todos lá ou não. Na história que escrevi vou até o fim para encontra-los, caminho ao limite dos meus esforços, da minha sanidade, e encontro, feliz, naquela ilusão, a realidade que de fato me conforta. Estou abraçado sem precisar toca-los.

Mergulhado naquelas palavras sinto-me novamente. Estou ali. Estou, simplesmente. Sensação que há muito não experimentava: a de deixar-se ser. E ali eu fui. Naquele conto eu fui, mais um vez, irmão. Aquelas presenças envolviam-me, enleavam-me, circunscreviam-me outra vez em algum lugar. Segurança, certeza, gratuidade para estar. Gratuidade no estar, no viver. O transpassar de pernas, vozes, pessoas, músicas e ruídos de casa aliviavam-me toda a tristeza dos últimos anos. E eu rejuvenescia. Sentado ali na sala, com a almofada nas mãos, regozijava internamente a oportunidade de conviver com seus corpos animados, falantes e vivos. Vozes infantis, adultas e adolescentes, juntas e reais. Quanta saudade? Há quanto tempo? Prefiro não contar. Opto por seguir contando o conto do recomeço cujo cenário é o fim da vida de todos nós. Afinal, a minha também já acabou.

Conto passado numa sala apenas minha, desconhecida por pelo menos três deles, mas que naquelas linhas faziam do recente cenário abrigo à vida de todos. Aquela sala servia à vida. Daquele espaço fiz um lugar atemporal, sincrônico. Ao contrário da crueldade da vida, naquele conto enterrávamos o tempo, a diacronia, e convivíamos todos num mesmo lugar. Zombávamos da lógica, do destino, do tempo e da morte. A nova sala era o nosso lugar. Sentados no novo sofá, poderíamos conversar se quiséssemos. Se quiséssemos, poderíamos tudo. Mas bastava-nos a presença, o abraço da convivência, a segurança encontrada nas coisas pequenas e corriqueiras, como a que encontra o bebê ao ser tocado no ouvido pela voz materna. Cultivávamos o gosto pelo nada, pela presença sem toque, o prazer de estarmos juntos.

No meu conto eu não chorava mais, apenas sorria encantado sob a luz encantadora da voz do violão do João. Aquele menino lindo, fácil, e que era eu mesmo. Iluminavam-me os cabelos lindos e esvoaçantes de Gabi, sempre engraçada, faceira, esperta. A Ana andava, de lá pra cá, da cozinha à sala, falava com a gente e tecia planos enquanto fervia uns legumes, ainda com roupa de caminhada. Meu pai não estava. Àquela hora ainda trabalhava, por nós e pela família, como sempre fez. Embebido de luz, de amor, eu me amava novamente. Sentia felicidade em viver. Orgulhava-me fazer parte daquele time, daquela família.

Mas meu conto era só um conto, era estória, ficção. Escrevi aquelas linhas sabedor de que final feliz era desfecho impossível naquela ocasião. E ainda assim escrevi. Escrevia, escrevia e escrevia, compulsivamente. Queria que aquele momento jamais acabasse, que minha história com eles não findasse outra vez. Queria que finasse, essa sim, a minha tristeza. Outra derrota, nova frustração. Sobravam linhas, canetas, computadores, folhas brancas, mas faltavam-me ideias para manter vivo o conto do recomeço. Era preciso contornar os irremediáveis pontos finais que abundavam naquelas vidas breves e cheias de aspas. Era preciso retira-las, e faze-los viver.

Pudesse - e tivesse competência pra isso - enxertaria o conto eternamente, e por ali ficaria dias e horas e mais dias. Tomando café e escrevendo, revirando e revivendo os meninos, meu pai, a Ana. Faria Gabi aprender violão, nota a nota, devagar, conforme o tempo exato exigido pelo processo e relataria todos os detalhes do dia em que executou sua primeira canção; falaria de seu amor pelos Engenheiros do Havaí, das dificuldades, e do momento em que resolvera desistir, como faria mais tarde, para dedicar-se à literatura. Ao João eu imputaria qualidades que nunca teve, defeitos que nunca manifestou e dedicaria algumas páginas do interminável conto às análises acerca da perfeição daquela criatura à luz de algum filósofo de produção longa e complicada. Apenas para ficar mais difícil, mais longa, a história e a vida dele. Eu queria dificuldades, e tudo o que contribuísse à extensão do meu tempo a frente da máquina de escrever vidas serviria. Nessa passagem, tornar-me-iam doutor no pensador em questão, João e eu ficaríamos ainda mais próximos no estudo de sua própria mente e o conto se alongaria em pelo menos umas novecentas páginas, e isto apenas no capítulo “do menino”, como nas vidas secas do Graciliano, então indicado por Gabi.

À Ana eu tributaria um longo e complicado processo de crise existencial que culminaria em sua construção como uma artista plástica crítica, contestadora, feminista e orgulhosa. Sim, eu mudaria completamente o caminho que se lhe apresentava em vida, apenas para prolonga-lo, para prolonga-la - sua vida. Para estender nas minhas mãos a sua vida, eu lhe imputaria minúcias de difícil descrição. Detalhes que exigiriam de mim aptidão literária que não possuo. Mudanças bruscas muitas vezes são lentas, como seriam estas que a ela eu impingiria. E a descreveria, devagar, como Saramago, levando à palavra cada passo daquela morena bonita.

Em alguns momentos embaralharia as histórias. Talvez falasse do João no capítulo de Gabi, que nos indicaria excelentes autores russos, romenos, africanos e norte americanos. Estes últimos, por sinal, seriam sempre duramente criticados pela Ana. Crítica, brava, ela bradaria contra o império, que naquele momento já estaria em declínio completo. Àquela altura já estaríamos para além de 2050, ainda juntos, jovens, na mesma sala do sofá novo, onde tudo se passaria sem que um segundo destes 50 anos me escapassem à vista ou à letra. E o conto se alongaria, cheio de pleonasmos, repetições, reviravoltas e enrolações. Eterno. Se alongaria longamente enquanto eu ainda estivesse ali, estático, mudo, escrevendo-o das funduras do meu espírito para que nunca terminasse aquele momento. Assim eu mantinha-os vivos, ao meu lado.

Ali na sala, do fundo da minha cabeça fervilhante, eu os casaria e separaria; os adoentaria para depois curá-los; inventaria brigas, apenas para que depois nos abraçássemos; teria sobrinhos e faria filhos tão somente para que tivessem tios; enfim, viveria tudo o que os malditos acasos retiraram do meu futuro sem pesar. Nas minhas letras eu provocaria o mundo. E me vingaria do destino, da morte, da solidão obrigatória de único irmão a que fui condenado. Já sem ideias, ao final do conto, enorme, inchado, que já não caberia em biblioteca alguma desse mundo, eu praguejaria ao acaso a raiva pelos açoites de que reclamavam minhas costas e meu coração.

Sem forças, desolado, quase absorvido na realidade da qual lutava por escapar, rezaria a Deus por mais ideias e não seria atendido, como de costume. E assim, como a própria vida, como cada um deles, como a meu pai que ainda trabalhava naquele momento, o conto se esvairia pelos meus dedos, como água. Sem ponto final, sem refrão, sem abraços e sem direção, aquelas memórias absurdas, inventadas, sobre um futuro que nunca foi, seriam finalizadas. Sem surpresas, sem final feliz. O nosso encontro no final da vida seria então o recomeço, o início do livro que nunca escrevi, que ainda não sei como escrever, que não sei como escreverei e nem mesmo se o quero escrever: o livro da minha nova vida - sem eles. O livro da vida fora do conto que só terminei por incompetência literária. Fosse eu bom e criativo, viveria por lá, no conto, até hoje, ao lado deles, sentado no sofá novo, com a máquina sob o colo, acomodada na almofada, escrevendo-os, devagar, revivendo-os, revivendo-os, revivendo-os...

domingo, 11 de agosto de 2013

Palavras-insônia-sonhos

A mim, pouco coube. Não mais que copiar do blog de uma outra insone como eu esse início de oração. Achei bacana, a mim era expressão que nunca usei, nem pouco. Invejei e agora a repito nas primeiras linhas destas minhas memórias que só serão lidas com afeto significativo caso a insônia de amanhã tenha seu alimento retirado pelo ocaso, pelo acaso, ou por mim mesmo. Não li todo seu texto, pois a mim pouco cabia. Eu estava cheio, não havia espaço para caber mais nada. Não, eu não disse completo, mas cheio. Talvez enfarado defina melhor este sentimento que a mim cabia naquela noite insone. Outra palavra bacana, acho que a moça não a usa. Eu sim. Envaideço-me. Entristeço-me. Entristeço-me por perder noites à saudade, aos pensamentos. Entrego minha saúde ao que faz do homem o Homem. Penso, reflito, discuto, argumento e venço. Penso. A cabeça trabalha na noite, de noite, é vigia da sensatez e cuida para que não fuja. Envaideço-me, tranquilizo-me. Os que admiro trabalharam a noite. Certamente a noite. Protegeram-se ao abrigo de velas. Velaram-se. Velório. Entristeço-me: praguejo ao maldito jogo da linguagem, das associações que me lançam o perfume dos cafés das noites incomuns: das que não saímos incólumes. Afeto-me. Recordo uma frase não escrita, uma reflexão não desenvolvida nas passagens acima e retraio-me ante o desenvolvimento do afetar, certo de que primeiramente devo acertar as contas com as linhas passadas quando sou atingido - em cheio - por desenxabida. Orgulho-me dela, desenxabida. Acertou em cheio o pensamento vadio. Orgulho-me também de insone e de incólume. Como os que admiro, estou usando palavras difíceis. Haverão de usar dicionários por mim. Me lembrei, insone. Insone foi a ideia não desenvolvida. Não segui. Parei no insone, viajei por memórias estranhas, entristeci-me, e assim fiquei, insone. A mim,  coube algo que ainda não domino, que não vejo, não identifico. Caiba-me, talvez, desenvolver - insone - um sonho. Pequeno que seja, mas que sirva ao menos de suporte ao sono, dele mesmo então arrancado, no furto do agá. Ah, o sono. Há o sono. Há o sonho em há o sono, basta jogar, brincar com os agás enquanto a noite devora luzes amarelas, ruas vazias e sonhos. Seja a sonar ou a sonhar, compreendo: a mim, cabe jogar. Sim, a mim, cabe sonar. A mim cabe, mas pouco.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

viver é patético

Pateticamente, ela viu-me chorando pateticamente. Passou todo o domingo com essa ideia na cabeça, atormentado, aturdido. Pateticamente. A festa da noite anterior o assombrava como os fantasmas das perdas recentes que o fizeram, durante a festa, chorar pateticamente. Na frente dela e de todos, pateticamente. Na frente de todos os seus amigos, pateticamente. A própria palavra o perseguia, e ele, patético, fugia do que não podia se libertar, pateticamente. Aquela atitude o perseguia onde quer fosse, em que quer que pensasse. Não era uma atitude, era um meio de vida, uma forma de encarar e observar a vida. Mais que um adjetivo, era ele mesmo, sua personalidade, uma marca de nascença aprendida nos desastres da vida jovem e desastrada, patética. Poderia ser atlético, mas não era, a palavra de sua vida era patético. Era adjetivo, mas não qualidade, era defeito. Defeito, nada mais que uma qualidade não reconhecida socialmente. Claro, os leves, já que os graves não merecem mesmo o menor reconhecimento. E ele era pouco reconhecido, o seu advinha dos motivos que todos compartilhavam. Educado, inteligente, respeitoso, atento, isso qualquer um deve ser, não merecem elogios os que dessas virtudes sofrem. E eram estes os seus elogios, ele era um comum, mais um. Medíocre, pateticamente medíocre. Quando morresse, sim, outros elogios se apresentariam, outras qualidades se apressariam em permear as frases que saltariam engasgadas das bocas dos amigos. Ali faria-se bonito, inteligente, escritor, melhor irmão, primo, amigo, namorado e ótimo filho. Sim, todos elencariam qualidades que criariam a falsa impressão de que ele nunca seria esquecido. Tolos, repetem a mesma mentira uma vez já ouvida por todos os mortos da história da humanidade e nunca cansam de se enganar. Os mortos também não. Lugares comuns, mentiras, ilusões, um dos grandes segredos da tranquilidade social e pessoal. É preciso acreditar para viver, em qualquer coisa, mesmo que na ilusão da eternidade. Mas naquele momento ele tornaria-se único, retirariam-no da mediocridade, elevariam-no. Ninguém se lembraria de um só evento comprovador do antigo e patético modo de vida.  E naquele dia, da mesma forma que ele fazia na noite anterior, todos chorariam seus mortos, como ele, pateticamente.

aquele menino e a vida

Em que será que pensava aquele menino? Em que pensaria aquele menino? Em que fracassaria aquele menino? Dentre as várias definições da vida, identifico-me geralmente com as mais pessimistas – realistas, corrigiriam alguns –, com aquelas que a definem como o encadeamento de fracassos e frustrações. Nesta perspectiva a vida é o exercício das expectativas, das esperanças, é a capacidade de esperar aquilo que não sera realizado. Viver é sonhar. O encadeamento de amanhãs depende da disposição para esperar. Vive quem espera. Enquanto há esperança, há vida, e não o contrário, como lembra o nosso Mário Quintana. O que esperava da vida aquele menino? Daquele menino, o que esperava a vida? Não, não pode ser, não é assim, pois é o menino que espera da vida, é ele que escolhe ou não permanecer ou partir dela, dessa maldita corrente de expectativas frustradas, de dia-a-dias de nãos. Ah, aquele menino, sonhador, menino. Menino tímido, tranquilo,inseguro, menino. Ah, aquele menino. Felizes são os meninos, pois da vida cuidam apenas de viver. E vivem.

sábado, 3 de agosto de 2013

ele e ela, uma imagem

Os dois? Ah, ela ouvia a música e ele a canção. Pensando sem precisar pensar, ele sentia a tranquilidade de estar ali, imerso num silêncio a dois que não incomoda, naquele chamado de cumplicidade. Praticavam o mesmo crime, deixarem-se estar, apenas, um com o outro. Felicidade? Não, essas palavras fortes, pesadas, definidoras, não atravessavam suas cabeças. Como eu já disse, eles apenas estavam. Não definiam, definiam-se. Era exatamente das caixas que fugiam. Não, não tema leitor esporádico e pensativo. Como eles, tranquilize-se, eu não vou usar metáforas de liberdades ou dizer abertamente que eram livres, sobretudo por que não eram. Paremos com filosofias que inventam palavras que não definem sensações ou coisa alguma da vida vivida. Conceitos, isto, este é o termo. Paremos com conceitos, desconceitualize, deixe os dois, deixem estar. Se queres sentir o que sentem aqueles dois, sinta, faça, viva. Arre, os lugares comuns. Desculpe-me, não voltará a acontecer. Minha maldita inclinação para manifestos, para sugerir aos outros que façam aquilo que nunca fiz, não faço e não penso em fazer. Arre, outro... o passado, presente e o futuro dos verbos, assim, em sequência, encadeados numa mesma frase. Malditos clichês, espero um dia deixar de usa-los. Mas nos faremos compreendidos sem os usos e desusos dos lugares comuns? Sinto inveja dos dois e de vocês, que não terão de ter com a vergonha de suportar a autoria dessas baboseiras...
e prosseguir.