Cecília, hoje tá tenso. Dormi bem mas acordei triste em pleno sábado de sol. Estou a incoerência em pessoa, sentindo-me a vergonha do mundo. Sonhei com Luisa pela primeira vez, mas assim como o João ela não falou comigo. Eu e Henrique fomos buscar cerveja mas quando, no balcão, ele pediu ao dono do bar três garrafas de Brahma foi ela quem falou, e não ele. Foi bom ouvir sua voz, mas só no sonho, pois acordei triste.
Cecília, é normal sentir vergonha de Ser? É que eu sinto vergonha de ser quem eu sou, sabe? As vezes até penso que é raiva mas é vergonha mesmo. Vergonha de ter a história que eu tenho. É que tem dias que eu não quero sair, sábados que não quero me divertir, mas sinto vergonha de admitir o por quê. De contar às pessoas. Sinto que essa choradeira fragiliza as relações da gente, né. Aí eu coloco minha máscara, mas ela tem caído ultimamente... não tá dando pra segurar, meus elásticos andam bem frouxos. É que eu ainda uso os mesmos elásticos da época do João, já que a Luisa nem avisou que era pra comprar mais, tenho me virado, tem dias que seguro com a mão mesmo. O problema é que na época eu já tava fingindo bem, e aí não tive como voltar atrás e ficar triste tudo de novo, e só me restou caminhar como se toda segunda fosse um dia normal. Mas não tá sendo, e você sabe. Tenho vergonha de não seguir, de não ir, de estar meio parado, embora eu ache que esteja andando, e bem. Ah, esses meus olhos... eles me enganam tanto, sabe? Eu nunca sei em que velocidade estou. Não sei se a roda viva é que é muito rápida ou a minha muito lenta. Eu tinha certeza que andava pra frente, evoluindo, como dizem fora da Antropologia. Hoje não sei nem se estou andando.
Então Cecília, estranho isso não é? Essa coisa de vergonha. A vergonha é minha, claro, disso tenho clareza. Mas às vezes acho que tem alguma a ver com a vida lá fora, sabe? Por exemplo, hoje sinto-me extremamente constrangido pelos ouvidos, sinto-os cada vez menores e mais impacientes. Eles não querem escutar a gente. Eles me olham com cada olho, isso quando me deixam falar. É estranho, Cecília, os ouvidos de hoje continuam sensibilizados, e nisso meus olhos não mentem, mas deixam-me falar cada vez menos. Não gosto disso. Meus olhos já reclamaram, disseram pra eu excluir alguns ouvidos da minha lista. Segundo ele, eles não passam de orelha. Fingem que são amigos mas só servem para acumular cera. Acho que eles tem alguma razão. Meus braços são menos radicais, mas esses eu conheço bem e sei que é por puro egoísmo. Ou hedonismo. Para aqueles dois, pouco importam a qualidade da conversa, do que se fala ou do que se ouve, contando que tudo termine em abraço. São uns pervertidos. Ah, e já que comecei a falar, as pernas estão como as suas, tímidas. Bem que você tinha avisado, hoje elas ignoram ou desconhecem diversos caminhos que um dia já foram até casa, estão parecendo a cabeça, que agora deu pra não reconhecer passado. Essa aí olha pras fotos e fica com cara de boba. Diz ela que até reconhece o pessoal, lembra, sabe que existiram, mas se pedissem para que apontasse ela mesma nas fotos ela não o saberia fazer. Apesar de velha, sua sensação é de que nasceu há pouco tempo, há poucos dias, após uma gestação de pouco mais de dois anos. Anda perdidinha, tadinha, deu pra viajar... Quem diria hein, eu que sempre malhava essa sua mente vadia. É, minha cara amiga, a cada dia te entendo melhor e mais profundamente.
Um beijo, moça. Até a próxima. Ps: responda minha última carta. :/
Nenhum comentário:
Postar um comentário