quarta-feira, 29 de maio de 2013

ruído de vida

- É isso. Imaginei que fosse importante te contar. Se vamos ter uma ter relação pessoal, como você propôs, achei fundamental que soubesse. Não é uma história boa de contar, imagino que também não seja de ouvir, mas é a que eu tenho, é ela que trago escondido seja no fundo dos olhos ou no sorriso frouxo.
 - Entendi. E você? Desculpe, sei que é uma pergunta idiota mas... como é que você tá?
 - Sinceramente, mal, muito mal. Eu era o mais velho né, de quatro irmãos. Desde pequeno meus planos sempre levaram os outros em conta, e quando a gente vai ficando adulto isso é ainda mais evidente, mais obrigatório, inconsciente. Ainda que em menor grau, o mais velho é tipo pai, mãe, essas coisas, é um olho aqui e outro lá. Tudo o que a gente faz, faz também pensando em deixar, né. Tem de ficar um legado. Agora vou ter de tocar as coisas por mim mesmo. Aliás, antes já seria por mim, eu mesmo é que teria de fazer, conseguir, eu que te teria de chegar, né. Mas a minha ideia era chegar pra dividir. Não essa de ser tudo pra mim. Se eu conseguisse status, dinheiro, poder, seria também pra dividir com eles, para ter uma vida melhor. Não era só pra mim. Foi assim que eu cresci, né, dividindo, do iogurte ao pão, do quarto ao dinheiro da passagem, tudo era dividido, tudo era pra todos. Hoje perdi essas referências, esses outros estímulos, esses outros lugares onde encontrava apoio e motivação para agir, conquistar, mas tô levando. É bem difícil mas tô levando. Como te falei eu cresci sempre dividindo, tudo isso hoje é muito novo pra mim. Um dias desses eu tava pensando que essa coisa de dividir era parte da minha identidade. Fui filho único muito pouco tempo na minha vida, nem dois anos, só antes e depois da Ana. É estranho, não tá fácil não. Sem banda, sem bonde, a vida fica sem ritmo. Ando me sentido um boneco de cordas, ou melhor, um violão, mas com quatro cordas arrebentadas. Quem toca sabe, música mesmo não sai não, ouve-se mais é barulho mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário