- Cadê a Ana?
- Cadê a Ana?
Assustei-me, mas mantive o sorriso. Eu estava cercado. Com cadernos e canetas nas mãos aquele
bando de crianças sedentas por desenhos de carros, flores e palhaços interpelavam-me
insistentemente. A situação era comum, não era novidade, acontecia sempre que eu passava por ali. E eu me divertia com eles, mas não naquele dia, sobretudo enquanto
ele, somente ele, o menorzinho, mais afastado, insistia na questão.
- Cadê a Ana?
Voz anasalada, nariz sujo e um olhar profundo incomum para as
pessoas daquela idade, o inquisidor mirim era implacável.
- Cadê a Ana?
- Agora não, depois eu faço o desenho pra vocês. Depois eu
faço.
Respondi aos outros, mas ele não deixava de me olhar.
Respondi aos outros, mas ele não deixava de me olhar.
Com os dentes armados, amarelados, mantive no rosto um sorriso
forçado, disfarçante e incompetente. Afeitei,
dissimulei mau, fui denunciado na umidade dos olhos. Já não é preciso ser
adulto para reconhecer minhas mentiras. No canto da boca havia também a tremura, insistente, tal qual o maldito questionador. Sem resposta, eu me sentia acuado, precisava ser
acudido.
Por sorte eu fui notado. Mais humano ou simplesmente mais versado nas coisas
do trato social, o mais velho do bando viu em mim algo além de um desenhador de
aviões e tratou logo de dar um jeito no inconvenientezinho, seu irmão, que não desistia de saber cadê.
Cuidadoso, aproximando o rosto do ouvido do pequeno, ele tratou de fazer com as mãos um túnel de segredos em volta da boca, e assim, baseado
na ideia que tinha de sussurro, falou alto aos meus ouvidos a verdade que meu coração fingia não escutar a alguns meses. Mesmo sem compreender exatamente a resposta o pequeno acalmou-se. Naquele instante, nos olhos profundos que não deixavam de
pesar sobre os meus, eu percebi o significado daquela resposta. Definitiva, ela era incontestável
até para uma criança.
O malvado, que não contava com um vocabulário muito além do necessário
para a realização das pequenas maldades cotidianas, nem se dignou a responder. Satisfeito,
com naturalidade, pegou pelo chão um carrinho e saiu a correr pela sala em direção
ao quintal, dando ainda alguns chutes numa bola que atravessava seu caminho. Sereno e vivaz, ele sorria. Seguiu sem dizer uma palavra. Seu recado foi prático,
direto. Eu é que não me dei por vencido. Achei pouco, pretensiosa demais aquela sua tranquilidade diante de explicação tão dolorosamente insofismável. Obstinado, mas sem exitar, saí no encalço do moleque a perguntar, cadê?
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