quarta-feira, 22 de maio de 2013

Respostas


- Cadê a Ana?
- Cadê a Ana?
Assustei-me, mas mantive o sorriso. Eu estava cercado. Com cadernos e canetas nas mãos aquele bando de crianças sedentas por desenhos de carros, flores e palhaços interpelavam-me insistentemente. A situação era comum, não era novidade, acontecia sempre que eu passava por ali. E eu  me divertia com eles, mas não naquele dia, sobretudo enquanto ele, somente ele, o menorzinho, mais afastado, insistia na questão.
- Cadê a Ana?

Voz anasalada, nariz sujo e um olhar profundo incomum para as pessoas daquela idade, o inquisidor mirim era implacável.
- Cadê a Ana?
- Agora não, depois eu faço o desenho pra vocês. Depois eu faço.
Respondi aos outros, mas ele não deixava de me olhar.

Com os dentes armados, amarelados, mantive no rosto um sorriso forçado, disfarçante e incompetente. Afeitei, dissimulei mau, fui denunciado na umidade dos olhos. Já não é preciso ser adulto para reconhecer minhas mentiras. No canto da boca havia também a tremura, insistente, tal qual o maldito questionador. Sem resposta, eu me sentia acuado, precisava ser acudido.

Por sorte eu fui notado.  Mais humano ou simplesmente mais versado nas coisas do trato social, o mais velho do bando viu em mim algo além de um desenhador de aviões e tratou logo de dar um jeito no inconvenientezinho, seu irmão, que não desistia de saber cadê.

Cuidadoso, aproximando o rosto do ouvido do pequeno, ele tratou de fazer com as mãos um túnel de segredos em volta da boca, e assim, baseado na ideia que tinha de sussurro, falou alto aos meus ouvidos a verdade que meu coração fingia não escutar a alguns meses. Mesmo sem compreender exatamente a resposta o pequeno acalmou-se. Naquele instante, nos olhos profundos que não deixavam de pesar sobre os meus, eu percebi o significado daquela resposta. Definitiva, ela era incontestável até para uma criança.

O malvado, que não contava com um vocabulário muito além do necessário para a realização das pequenas maldades cotidianas, nem se dignou a responder. Satisfeito, com naturalidade, pegou pelo chão um carrinho e saiu a correr pela sala em direção ao quintal, dando ainda alguns chutes numa bola que atravessava seu caminho. Sereno e vivaz, ele sorria. Seguiu sem dizer uma palavra. Seu recado foi prático, direto. Eu é que não me dei por vencido. Achei pouco, pretensiosa demais aquela sua tranquilidade diante de explicação tão dolorosamente insofismável. Obstinado, mas sem exitar, saí no encalço do moleque a perguntar, cadê?

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