Já não conseguia mais
ficar sozinho, cada encontro consigo era ficar no vazio, num quarto vazio. Seu
quarto não tinha paredes. Sem abrigo da chuva, do vento e dos furacões, aquilo
não era mais um lugar. Já foi. Sozinho em seu quarto sentia frio, fome, sede de
segurança, de referência e de proteção.
Suas paredes foram
derrubadas, uma a uma, rapidamente. As últimas duas antes de estarem
terminadas. Ainda faltava reboco, pintura, personalidade. Caíram antes, assim
mesmo, inacabadas. Após perdas duras e consecutivas suas referências também
caíram, viraram escombros, confundiram-se no chão. Nos passos escuros da
madrugada ele caminha sobre restos de símbolos, sentidos de cores variadas e
pontas finas, cortantes. Calça os chinelos, pisa com cuidado, devagar,
procurando o chão. Estende as mãos, tateia, mas não acha as paredes. Está
solto, desamparado. É um errante na própria casa.
Hoje ele não vai ao
encontro do outro, vai ao abrigo. Seus outros não são pessoas, são lugares onde
se abriga do vento molhado e do sol que queima seus olhos escurecidos. Hoje ele
é má companhia, um parasita. Pouco oferece, não tem mais que a presença.
Consome suas relações, desgasta-as, devora laços duramente construídos somente
por medo de ser devorado por si mesmo dentro da própria casa. A rede fica no
chão, não serve pra descansar. Rede precisa de paredes, balizas. No chão não é
mais do que cobertor.
O ofício das construções
ele aprendeu cedo, e logo percebeu: reformar é mais difícil que construir. Sua
experiência pouco ajuda. Talvez até dificulte. Afinal, reconstruir cansa, leva
tempo, e as últimas duas casas não duraram seis meses cada uma. Por vezes ele
se pergunta se essa é uma nova ou velha reforma. Errante no tempo. Não está
fácil. Num dia é um tijolo que cai, noutro é o pedreiro que falta,
entretanto, quase sempre, a escassez é de material mesmo. A obra pára.
Sem ter para onde ir, ele
mora por ali. Vai tomando chuva até que o barraco se erga novamente. Quando
convidado, dia ou outro, ele dorme na casa do vizinho, abrigado e feliz. Mas
via de regra acorda molhado. O sereno das noites frias é cortante, e o início
da manhã é sempre gelado.
Um dia, com paredes
novas, voltará a receber os amigos em sua casa, tal como sempre fez. Será
também fonte de abrigo. Por enquanto não dá, não pode. Sente vergonha da
própria casa. A cidade cresce rápido ao seu redor, numa velocidade que ele não
consegue acompanhar. Sua casa, mal-acabada, enfeia a rua da amizade, empobrece
a rua do amor. Porém, modestamente, ele segue sua reconstrução. Vive num
canteiro de obras, num lote meio vago, uma casa meio vazia. Falta material,
sentido e significado não se encontra em qualquer depósito. Vontade
sempre tem, mas é pouco. Significado é importante, mas é difícil encontrar.
Resolveu produzir sozinho. Produção caseira, clandestina, no fundo do lote. Como
não tem cheiro nem faz barulho, tem gente que nem percebe, mas há uma casa
sendo refeita no 650.
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