segunda-feira, 27 de maio de 2013

Era uma casa muito engraçada...

Já não conseguia mais ficar sozinho, cada encontro consigo era ficar no vazio, num quarto vazio. Seu quarto não tinha paredes. Sem abrigo da chuva, do vento e dos furacões, aquilo não era mais um lugar. Já foi. Sozinho em seu quarto sentia frio, fome, sede de segurança, de referência e de proteção.

Suas paredes foram derrubadas, uma a uma, rapidamente. As últimas duas antes de estarem terminadas. Ainda faltava reboco, pintura, personalidade. Caíram antes, assim mesmo, inacabadas. Após perdas duras e consecutivas suas referências também caíram, viraram escombros, confundiram-se no chão. Nos passos escuros da madrugada ele caminha sobre restos de símbolos, sentidos de cores variadas e pontas finas, cortantes. Calça os chinelos, pisa com cuidado, devagar, procurando o chão. Estende as mãos, tateia, mas não acha as paredes. Está solto, desamparado. É um errante na própria casa.

Hoje ele não vai ao encontro do outro, vai ao abrigo. Seus outros não são pessoas, são lugares onde se abriga do vento molhado e do sol que queima seus olhos escurecidos. Hoje ele é má companhia, um parasita. Pouco oferece, não tem mais que a presença. Consome suas relações, desgasta-as, devora laços duramente construídos somente por medo de ser devorado por si mesmo dentro da própria casa. A rede fica no chão, não serve pra descansar. Rede precisa de paredes, balizas. No chão não é mais do que cobertor.

O ofício das construções ele aprendeu cedo, e logo percebeu: reformar é mais difícil que construir. Sua experiência pouco ajuda. Talvez até dificulte. Afinal, reconstruir cansa, leva tempo, e as últimas duas casas não duraram seis meses cada uma. Por vezes ele se pergunta se essa é uma nova ou velha reforma. Errante no tempo. Não está fácil. Num dia é um tijolo que cai, noutro é o pedreiro que falta, entretanto, quase sempre, a escassez é de material mesmo. A obra pára. 

Sem ter para onde ir, ele mora por ali. Vai tomando chuva até que o barraco se erga novamente. Quando convidado, dia ou outro, ele dorme na casa do vizinho, abrigado e feliz. Mas via de regra acorda molhado. O sereno das noites frias é cortante, e o início da manhã é sempre gelado.


Um dia, com paredes novas, voltará a receber os amigos em sua casa, tal como sempre fez. Será também fonte de abrigo. Por enquanto não dá, não pode. Sente vergonha da própria casa. A cidade cresce rápido ao seu redor, numa velocidade que ele não consegue acompanhar. Sua casa, mal-acabada, enfeia a rua da amizade, empobrece a rua do amor. Porém, modestamente, ele segue sua reconstrução. Vive num canteiro de obras, num lote meio vago, uma casa meio vazia. Falta material, sentido e significado não se encontra em qualquer depósito.  Vontade sempre tem, mas é pouco. Significado é importante, mas é difícil encontrar. Resolveu produzir sozinho. Produção caseira, clandestina, no fundo do lote. Como não tem cheiro nem faz barulho, tem gente que nem percebe, mas há uma casa sendo refeita no 650.

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