quinta-feira, 2 de maio de 2013

Cara Cecília,


     há quantas luas não te escrevo. Quanta saudade! Se bem lhe conheço, deves estar preocupada. Sei que sua ingenuidade não lhe permite compreender a necessidade da ausência e associas, inutilmente, ausência ao agravamento da tristeza. No caso deste que te escreve, e não posso mentir a você, em quase todos os seus sumiços a hipótese especulada acima faz-se especialmente verdadeira, contudo, e isso já lhe ensinei, não tome a experiência de seu amigo como referência para julgar o mundo. Seu amigo não mora nele, e é por isso que lhe escreve.

Dá última vez que nos vimos, senti-a mais calada que de costume e não me recordo da explicação que me destes para a ocasião daquele rosto lânguido, que mantivera durante toda a nossa conversa. Desculpo-me. Como de costume, eu devia de estar pensando em mim, como a maioria dos seres normais, esquecendo-me de que nasci nós. Peço-lhe, portanto, que se não for lhe causar incômodo, para enviar-me a explicação de sua melancolia na resposta desta carta, ficarei muito grato em saber. Quero voltar a me preocupar com os meus amigos, se ultimamente não o ando fazendo, gasto contigo, pela segunda vez nesta carta, a palavra que mereceria menor banalização: desculpe-me.

Ontem fui à casa do meu pai, ele não estava, mas chegou logo depois enquanto eu conversava - sem palavras - com o João. O velho chegou e deu-me um abraço. Não me levantei da cama para abraça-lo, fiquei estático enquanto ele se curvava. Depois, quando ele já havia partido, fui tomado por uma sensação ruim, de arrependimento, mas o sonho já havia acabado. Não havia mais como abraça-lo. Você, que é versada nas ilhas dos sonhos, sabe como faço para encontra-lo novamente? Se puder, mande-me uma daquelas suas receitas de sonhação, tenho coisas a tratar com o velho, ando confuso com algumas coisas e creio que só alguém com aquela ponderação pode me acalmar.

Outra coisa... sabe onde encontro certeza? É que, pensando nisso, dia desses, lembrei-me de uma conversa nossa em que você disse que sabia de algumas que eu podia usar, não sei se suas ou de um amigo seu, mas que me serviriam e não seria problema me emprestar. Olha isso pra mim, por favor, tenho uns eventos pela frente e vou precisar. Comprei um sapato novo, uma bela camisa, mas minhas certezas estão meio relaxadas. Não sei se vão me aceitar desse jeito. É que o evento é meio formal, sabe?

Aqui... infelizmente tenho que sair pois estou escrevendo essa carta no tempinho que me sobrou entre um ponteiro e outro, mas o tempo já está acabando e no próximo espaço entre eles eu preciso estar em outro lugar. Volto a lhe escrever em breve, tenho muitas novidades, e algumas te deixarão feliz! Não demore a responder, tenho saudades, e sem notícias suas não é raro que eu imagine ter sido esquecido. Não é legal quando fazem com a gente.

Um beijo, e dê um abraço no João.

Ps: Quando é que você viaja?
Ps (2): Quando você retorna?
Ps (3): Apareça quando quiser. :)

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