quarta-feira, 29 de maio de 2013

Tigun is Dead

Morreu, nesta segunda-feira, Tigun, o mais desimportante palhaço do Brasil. Dono de um sorriso vacilante, o triste palhaço retirou da face o nariz vermelho exatamente às seis horas deste 6º dia de junho. Procurada por nossa produção, a assessoria de imprensa do agora ex-palhaço não quis se pronunciar, limitando-se apenas a dizer que nos próximos dias será convocada uma entrevista coletiva na qual não se falará dos motivos da morte. À pedido do falecido, a entrevista será um momento para agradecimentos.

Segundo apuramos logo após o anúncio que foi publicado no site oficial na manhã dessa terça-feira, a alegação é de que os motivos já são de conhecimento público, dessa forma, não serão nem mesmo citados durante a entrevista. Durante a última aparição em público, ainda devidamente trajado, o palhaço já dava mostras de seu cansaço, mas negou os boatos de que morreria nos próximos dias. – Estou bem! Foram suas últimas palavras.

Clownistas de todo mundo já se pronunciaram sobre o anúncio da morte oficial do palhaço, e de forma geral todos foram enfáticos ao afirmar que sua falta não será sentida. Na esteira dessas opiniões, diversos grupos circenses apressaram-se em emitir notas endossando a opinião dos especialistas. Para a maioria dos profissionais a morte de Tigun apenas demonstra a necessidade da regulamentação da profissão, impedindo que amadores se arrisquem a conciliar as tristezas pessoais com a obrigação de fazer a felicidade dos outros. "A proposta de lei está lá no congresso, engavetada. É desumano. Quantos inocentes precisaram morrer para que os palhaços sejam olhados com mais seriedade?" A declaração inflamada é do presidente do sindicato dos palhaços de Minas Gerais, Carlitos, que soube da notícia enquanto se reunia com os saltimbancos, de quem busca apoio para pressionar o governo através de uma regularização conjunta.

Um dos poucos a lamentar a morte do palhaço foi Bert Willians, a grande estrela do espetáculo In Dahomey, encenado pelo grupo Willians e Walker. Cinco minutos após o anúncio, Bert publicou em seu Twitter uma foto tirada no último carnaval em que os dois estão abraçados, e Tigun aparece sorrindo. Na legenda, o mestre do humor norte americano faz referência a uma das marcas registradas do parceiro brasileiro, seu sorriso falso: “Para viver era preciso reaprender a sorrir de verdade, e ele não estava conseguindo”.

Benjamim, defensor histórico do humor realizado por pessoas tristes, num primeiro momento optou por um tom menos sentimental ao comentar a morte. Crítico, o palhaço – negro tal como Tigun – seguiu a mesma linha dos sindicalistas e aproveitou o exemplo para alertar sobre a grande dificuldade de quem opta pela vida de Clown, sustentar a ambiguidade das emoções. Na visão de Benjamim, “a relação paradoxal entre a vida particular e a vida social (um conflito entre tragédias e melancolias em face da necessidade de se fazer a felicidade alheia) é o motor mas é também a própria desgraça de muitos palhaços. É um trabalho complicado, é preciso preparação. Uma atividade como essa não pode ficar nas mãos de qualquer um.”

Adiante, mais lamentoso, Benjamim destacou Tigun como um lutador: “Razoável como palhaço, Tigun deve ser lembrado como um lutador. Por mais falso que seu sorriso tenha se tornado nos últimos anos, por mais medíocres que suas piadas tenham ficado, o importante é que ele nunca deixou de fazê-las. Na vida pública, mesmo estando meio desanimado, até bem pouco tempo era possível rir com ele."

O dia e o horário do sepultamento ainda não foram confirmados, mas um amigo da família revelou que o mais provável é que aconteça amanhã, quarta-feira, no atelier da saudade, onde a família tem jazigo. Suspeita-se que não será permitida a presença de público. Segundo a mesma fonte, o dono do corpo - um rapaz de 27 anos que se encontra extremamente abalado com a decisão do palhaço em falecer - já decidiu que tudo ocorrerá numa cerimônia simples, obedecendo, sobretudo, ao desejo do nariz vermelho, que havia manifestado através de uma carta escrita em 2010 as orientações para seu funeral. Abaixo, o  trecho final da carta assinada pelo tradicional nariz vermelho usado por Tigun desde a infância.

[...] derreta-me em fogo baixo, misture-me com o resto de maquiagem e pegue os pincéis. Faça com isso uma poção, uma tinta. Desenhe-me. Quando partir, quero virar uma camisa. É uma forma de continuar acalorando o coração de alguém. =)

ruído de vida

- É isso. Imaginei que fosse importante te contar. Se vamos ter uma ter relação pessoal, como você propôs, achei fundamental que soubesse. Não é uma história boa de contar, imagino que também não seja de ouvir, mas é a que eu tenho, é ela que trago escondido seja no fundo dos olhos ou no sorriso frouxo.
 - Entendi. E você? Desculpe, sei que é uma pergunta idiota mas... como é que você tá?
 - Sinceramente, mal, muito mal. Eu era o mais velho né, de quatro irmãos. Desde pequeno meus planos sempre levaram os outros em conta, e quando a gente vai ficando adulto isso é ainda mais evidente, mais obrigatório, inconsciente. Ainda que em menor grau, o mais velho é tipo pai, mãe, essas coisas, é um olho aqui e outro lá. Tudo o que a gente faz, faz também pensando em deixar, né. Tem de ficar um legado. Agora vou ter de tocar as coisas por mim mesmo. Aliás, antes já seria por mim, eu mesmo é que teria de fazer, conseguir, eu que te teria de chegar, né. Mas a minha ideia era chegar pra dividir. Não essa de ser tudo pra mim. Se eu conseguisse status, dinheiro, poder, seria também pra dividir com eles, para ter uma vida melhor. Não era só pra mim. Foi assim que eu cresci, né, dividindo, do iogurte ao pão, do quarto ao dinheiro da passagem, tudo era dividido, tudo era pra todos. Hoje perdi essas referências, esses outros estímulos, esses outros lugares onde encontrava apoio e motivação para agir, conquistar, mas tô levando. É bem difícil mas tô levando. Como te falei eu cresci sempre dividindo, tudo isso hoje é muito novo pra mim. Um dias desses eu tava pensando que essa coisa de dividir era parte da minha identidade. Fui filho único muito pouco tempo na minha vida, nem dois anos, só antes e depois da Ana. É estranho, não tá fácil não. Sem banda, sem bonde, a vida fica sem ritmo. Ando me sentido um boneco de cordas, ou melhor, um violão, mas com quatro cordas arrebentadas. Quem toca sabe, música mesmo não sai não, ouve-se mais é barulho mesmo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Era uma casa muito engraçada...

Já não conseguia mais ficar sozinho, cada encontro consigo era ficar no vazio, num quarto vazio. Seu quarto não tinha paredes. Sem abrigo da chuva, do vento e dos furacões, aquilo não era mais um lugar. Já foi. Sozinho em seu quarto sentia frio, fome, sede de segurança, de referência e de proteção.

Suas paredes foram derrubadas, uma a uma, rapidamente. As últimas duas antes de estarem terminadas. Ainda faltava reboco, pintura, personalidade. Caíram antes, assim mesmo, inacabadas. Após perdas duras e consecutivas suas referências também caíram, viraram escombros, confundiram-se no chão. Nos passos escuros da madrugada ele caminha sobre restos de símbolos, sentidos de cores variadas e pontas finas, cortantes. Calça os chinelos, pisa com cuidado, devagar, procurando o chão. Estende as mãos, tateia, mas não acha as paredes. Está solto, desamparado. É um errante na própria casa.

Hoje ele não vai ao encontro do outro, vai ao abrigo. Seus outros não são pessoas, são lugares onde se abriga do vento molhado e do sol que queima seus olhos escurecidos. Hoje ele é má companhia, um parasita. Pouco oferece, não tem mais que a presença. Consome suas relações, desgasta-as, devora laços duramente construídos somente por medo de ser devorado por si mesmo dentro da própria casa. A rede fica no chão, não serve pra descansar. Rede precisa de paredes, balizas. No chão não é mais do que cobertor.

O ofício das construções ele aprendeu cedo, e logo percebeu: reformar é mais difícil que construir. Sua experiência pouco ajuda. Talvez até dificulte. Afinal, reconstruir cansa, leva tempo, e as últimas duas casas não duraram seis meses cada uma. Por vezes ele se pergunta se essa é uma nova ou velha reforma. Errante no tempo. Não está fácil. Num dia é um tijolo que cai, noutro é o pedreiro que falta, entretanto, quase sempre, a escassez é de material mesmo. A obra pára. 

Sem ter para onde ir, ele mora por ali. Vai tomando chuva até que o barraco se erga novamente. Quando convidado, dia ou outro, ele dorme na casa do vizinho, abrigado e feliz. Mas via de regra acorda molhado. O sereno das noites frias é cortante, e o início da manhã é sempre gelado.


Um dia, com paredes novas, voltará a receber os amigos em sua casa, tal como sempre fez. Será também fonte de abrigo. Por enquanto não dá, não pode. Sente vergonha da própria casa. A cidade cresce rápido ao seu redor, numa velocidade que ele não consegue acompanhar. Sua casa, mal-acabada, enfeia a rua da amizade, empobrece a rua do amor. Porém, modestamente, ele segue sua reconstrução. Vive num canteiro de obras, num lote meio vago, uma casa meio vazia. Falta material, sentido e significado não se encontra em qualquer depósito.  Vontade sempre tem, mas é pouco. Significado é importante, mas é difícil encontrar. Resolveu produzir sozinho. Produção caseira, clandestina, no fundo do lote. Como não tem cheiro nem faz barulho, tem gente que nem percebe, mas há uma casa sendo refeita no 650.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Respostas


- Cadê a Ana?
- Cadê a Ana?
Assustei-me, mas mantive o sorriso. Eu estava cercado. Com cadernos e canetas nas mãos aquele bando de crianças sedentas por desenhos de carros, flores e palhaços interpelavam-me insistentemente. A situação era comum, não era novidade, acontecia sempre que eu passava por ali. E eu  me divertia com eles, mas não naquele dia, sobretudo enquanto ele, somente ele, o menorzinho, mais afastado, insistia na questão.
- Cadê a Ana?

Voz anasalada, nariz sujo e um olhar profundo incomum para as pessoas daquela idade, o inquisidor mirim era implacável.
- Cadê a Ana?
- Agora não, depois eu faço o desenho pra vocês. Depois eu faço.
Respondi aos outros, mas ele não deixava de me olhar.

Com os dentes armados, amarelados, mantive no rosto um sorriso forçado, disfarçante e incompetente. Afeitei, dissimulei mau, fui denunciado na umidade dos olhos. Já não é preciso ser adulto para reconhecer minhas mentiras. No canto da boca havia também a tremura, insistente, tal qual o maldito questionador. Sem resposta, eu me sentia acuado, precisava ser acudido.

Por sorte eu fui notado.  Mais humano ou simplesmente mais versado nas coisas do trato social, o mais velho do bando viu em mim algo além de um desenhador de aviões e tratou logo de dar um jeito no inconvenientezinho, seu irmão, que não desistia de saber cadê.

Cuidadoso, aproximando o rosto do ouvido do pequeno, ele tratou de fazer com as mãos um túnel de segredos em volta da boca, e assim, baseado na ideia que tinha de sussurro, falou alto aos meus ouvidos a verdade que meu coração fingia não escutar a alguns meses. Mesmo sem compreender exatamente a resposta o pequeno acalmou-se. Naquele instante, nos olhos profundos que não deixavam de pesar sobre os meus, eu percebi o significado daquela resposta. Definitiva, ela era incontestável até para uma criança.

O malvado, que não contava com um vocabulário muito além do necessário para a realização das pequenas maldades cotidianas, nem se dignou a responder. Satisfeito, com naturalidade, pegou pelo chão um carrinho e saiu a correr pela sala em direção ao quintal, dando ainda alguns chutes numa bola que atravessava seu caminho. Sereno e vivaz, ele sorria. Seguiu sem dizer uma palavra. Seu recado foi prático, direto. Eu é que não me dei por vencido. Achei pouco, pretensiosa demais aquela sua tranquilidade diante de explicação tão dolorosamente insofismável. Obstinado, mas sem exitar, saí no encalço do moleque a perguntar, cadê?

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Cheio de si



Desaprendi a ficar sozinho. Exatamente agora, quando não há outra opção, eu desaprendi. Óbvio, eu já soube, e por isso desaprendi. Se antes eu sabia é exatamente por que era uma opção, aliás, uma opção de difícil realização. Eu tinha de saber, só sabendo eu poderia ficar sozinho. Saber os lugares, criar situações, aproveitar as oportunidades.

Havia sempre muita gente, o junto era sempre preenchido de sempre. O junto era todo o tempo, e por isso é que o era tão bom. Era algo diferente, era o meu encontro comigo. Momentos raros, passageiros e quase sempre prazerosos. Uma viagem de ônibus, a ida ao trabalho de fone no ouvido, a opção pelo caminho mais longo na hora da volta  só para prolongar a sensação de estar si, de estar só, já que em casa, eu sabia, era só junto, sempre.

Havia sempre alguém, vozes, passos, intromissões. Saco! Quem é que podia ser si quando não se consegue ficar só? Era difícil. Talvez por isso eu não me conhecesse muito, eu quase nunca estava comigo, era sempre obrigado a estar com alguém. Meu estar era sempre junto, eu tinha pouco Ser.

Hoje, nunca e sempre trocaram de lugar. O nunca tá sempre junto enquanto o sempre tá sempre sozinho. Tive de desaprender a dividir, fazer-me de cara valente, enfrentar a mim mesmo e viver se sendo o tempo todo. Não há para onde correr, não há para onde fugir de si. Estou em todos os lugares, encontro-me a cada esquina, fico sempre comigo. Saco!

Não é fácil, eu não sabia que eu era tão chato, sinceramente. Meu eu junto era muito melhor. Menos rabugento, menos melancólico, menos libriano, menos paradoxal. Menos dividido, fiquei mais preso no eu. Antes era melhor.

Com saudades, lembro-me do eu mais dividido e menos dilacerado. Não era partido, era dividido, partilhado, compartilhado, conjunto, conjente. Eu era apenas uma pequena parte de mim mesmo, não tinha de dar conta de tudo. A passos lentos, eu carregava apenas uma das alças do meu futuro. Era divido, não indivíduo.

No tempo de hoje há quarto com porta, noites de privacidade e manhãs de silêncio. Ótimas pra estudar, elas são péssimas para ser. - Juro, imaginei que fosse muito mais legal não ter de dividir a bandeja de iogurte.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sem ela, o bloco doeu sozinho

Eu e ela? Não. Com o nosso bloco foi diferente, quanto mais ele se esvaziava mais a gente se avizinhava, mais a gente se aproximava. Nas ruas do nosso carnaval, quanto mais espaços, mais juntos e menos separados. Quanto mais sozinhos, mais bloco a gente foi, mais bloco a gente ficava, mais bloco a gente era. Sim, nós crescemos assim, tivemos que crescer assim, foi único o jeito, ir se fortalecendo, se solidificando, ir se cimentando. Virando bloco, massa mesmo, conjunto. No fim, um conjunto de dois.

Nosso bloco era a esperança um do outro, a esperança de que nunca seríamos Eus sozinhos. Era pacto. Impacto combinado no silêncio desesperado de abraços de choro forte e doído, onde o peito de um empurrava o do outro, alternando a respiração. Era assim que a gente ia,  ora um, ora outro. Nem precisava falar, o próprio corpo combinava, se encaixava. Ela explodia, eu segurava, eu me implodia, ela me abraçava, forte, reunindo os pedaços. O inchaço do coração de um desaguava no peito do outro, sempre, aspirando e expirando, inspirando e respirando, até se acalmar, se acalmarmos.

E assim fomos um, dois, três carnavais. Pulando juntos, alternadamente, de mãos dadas. Eu era 12, ela era 8, eu corria, ela caminhava, ela partiu e eu fiquei. Sem aviso prévio, ela partiu nosso pacto e acabou nosso carnaval em plena segunda-feira. Com mais uma baixa eu não tive outro jeito, não tive outra opção, guardei a camisa e fechei nosso bloco. Sem ilusões, sem fantasias, desatinei, descarnavalizei. Hoje, de janeiro a janeiro, só realidade, verdades duras, desalento. Sem o nariz de palhaço, a própria vida é quem ficou de cinzas. Sozinho, o bloco doeu.

...e nos corações saudades e cinzas foi o que restou. Toquinho e Vinícius.

sábado, 11 de maio de 2013

sábado de sol

Cecília, hoje tá tenso. Dormi bem mas acordei triste em pleno sábado de sol. Estou a incoerência em pessoa, sentindo-me a vergonha do mundo. Sonhei com Luisa pela primeira vez, mas assim como o João ela não falou comigo. Eu e Henrique fomos buscar cerveja mas quando, no balcão, ele pediu ao dono do bar três garrafas de Brahma foi ela quem falou, e não ele. Foi bom ouvir sua voz, mas só no sonho, pois acordei triste.

Cecília, é normal sentir vergonha de Ser? É que eu sinto vergonha de ser quem eu sou, sabe? As vezes até penso que é raiva mas é vergonha mesmo. Vergonha de ter a história que eu tenho. É que tem dias que eu não quero sair, sábados que não quero me divertir, mas sinto vergonha de admitir o por quê. De contar às pessoas. Sinto que essa choradeira fragiliza as relações da gente, né. Aí eu coloco minha máscara, mas ela tem caído ultimamente... não tá dando pra segurar, meus elásticos andam bem frouxos. É que eu ainda uso os mesmos elásticos da época do João, já que a Luisa nem avisou que era pra comprar mais, tenho me virado, tem dias que seguro com a mão mesmo. O problema é que na época eu já tava fingindo bem, e aí não tive como voltar atrás e ficar triste tudo de novo, e só me restou caminhar como se toda segunda fosse um dia normal. Mas não tá sendo, e você sabe. Tenho vergonha de não seguir, de não ir, de estar meio parado, embora eu ache que esteja andando, e bem. Ah, esses meus olhos... eles me enganam tanto, sabe? Eu nunca sei em que velocidade estou. Não sei se a roda viva é que é muito rápida ou a minha muito lenta. Eu tinha certeza que andava pra frente, evoluindo, como dizem fora da Antropologia. Hoje não sei nem se estou andando.

Então Cecília, estranho isso não é? Essa coisa de vergonha. A vergonha é minha, claro, disso tenho clareza. Mas às vezes acho que  tem alguma a ver com a vida lá fora, sabe? Por exemplo, hoje sinto-me extremamente constrangido pelos ouvidos, sinto-os cada vez menores e mais impacientes. Eles não querem escutar a gente. Eles me olham com cada olho, isso quando me deixam falar. É estranho, Cecília, os ouvidos de hoje continuam sensibilizados, e nisso meus olhos não mentem, mas deixam-me falar cada vez menos. Não gosto disso. Meus olhos já reclamaram, disseram pra eu excluir alguns ouvidos da minha lista. Segundo ele, eles não passam de orelha. Fingem que são amigos mas só servem para acumular cera. Acho que eles tem alguma razão. Meus braços são menos radicais, mas esses eu conheço bem e sei que é por puro egoísmo. Ou hedonismo. Para aqueles dois, pouco importam a qualidade da conversa, do que se fala ou do que se ouve, contando que tudo termine em abraço. São uns pervertidos. Ah, e já que comecei a falar, as pernas estão como as suas, tímidas. Bem que você tinha avisado, hoje elas ignoram ou desconhecem diversos caminhos que um dia já foram até casa, estão parecendo a cabeça, que agora deu pra não reconhecer passado. Essa aí olha pras fotos e fica com cara de boba. Diz ela que até reconhece o pessoal, lembra, sabe que existiram,  mas se pedissem para que apontasse ela mesma nas fotos ela não o saberia fazer. Apesar de velha, sua sensação é de que nasceu há pouco tempo, há poucos dias, após uma gestação de pouco mais de dois anos. Anda perdidinha, tadinha, deu pra viajar... Quem diria hein, eu que sempre malhava essa sua mente vadia. É, minha cara amiga, a cada dia te entendo melhor e mais profundamente.
Um beijo, moça. Até a próxima. Ps: responda minha última carta. :/

domingo, 5 de maio de 2013

Piu uíííí, tchak, tchak, tchak tchak, tchak, tchak… Piu uíííí


O ‘abismo que é pensar e sentir’ é uma das frases da minha vida, uma das minhas máximas, talvez. Não sei se por escolha deliberada ou trajetória à deriva, esse foi o caminho que percorri e que ainda trilho diariamente, e não sem estrago.

Este também é o ruído que o coração, teimoso em bater, emite aqui do lado de dentro. Barulhinho alto, constante, mas que se faz ouvir a qualquer um que, com alguma sensibilidade, se aproxima do mar por onde navega esse meu trem que não é de ferro, é de lágrima.

Sem valentia e calmo demais, sinto-me um homem estranho, e meu barco navega ao ritmo da chuva. Indeciso, sou passageiro de um destino que só vai ser como será. Quando será?

Pois é, ouvi dizer, não me lembro aonde, que esse ruído costuma ser eterno, faz no peito um carnaval que nunca tem fim... pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir, Piu uíííí.... pensar e sentir, pensar e sentir, pensar e sentir, Piu uíííí pensar e sentir... o vento vai dizer.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Cara Cecília,


     há quantas luas não te escrevo. Quanta saudade! Se bem lhe conheço, deves estar preocupada. Sei que sua ingenuidade não lhe permite compreender a necessidade da ausência e associas, inutilmente, ausência ao agravamento da tristeza. No caso deste que te escreve, e não posso mentir a você, em quase todos os seus sumiços a hipótese especulada acima faz-se especialmente verdadeira, contudo, e isso já lhe ensinei, não tome a experiência de seu amigo como referência para julgar o mundo. Seu amigo não mora nele, e é por isso que lhe escreve.

Dá última vez que nos vimos, senti-a mais calada que de costume e não me recordo da explicação que me destes para a ocasião daquele rosto lânguido, que mantivera durante toda a nossa conversa. Desculpo-me. Como de costume, eu devia de estar pensando em mim, como a maioria dos seres normais, esquecendo-me de que nasci nós. Peço-lhe, portanto, que se não for lhe causar incômodo, para enviar-me a explicação de sua melancolia na resposta desta carta, ficarei muito grato em saber. Quero voltar a me preocupar com os meus amigos, se ultimamente não o ando fazendo, gasto contigo, pela segunda vez nesta carta, a palavra que mereceria menor banalização: desculpe-me.

Ontem fui à casa do meu pai, ele não estava, mas chegou logo depois enquanto eu conversava - sem palavras - com o João. O velho chegou e deu-me um abraço. Não me levantei da cama para abraça-lo, fiquei estático enquanto ele se curvava. Depois, quando ele já havia partido, fui tomado por uma sensação ruim, de arrependimento, mas o sonho já havia acabado. Não havia mais como abraça-lo. Você, que é versada nas ilhas dos sonhos, sabe como faço para encontra-lo novamente? Se puder, mande-me uma daquelas suas receitas de sonhação, tenho coisas a tratar com o velho, ando confuso com algumas coisas e creio que só alguém com aquela ponderação pode me acalmar.

Outra coisa... sabe onde encontro certeza? É que, pensando nisso, dia desses, lembrei-me de uma conversa nossa em que você disse que sabia de algumas que eu podia usar, não sei se suas ou de um amigo seu, mas que me serviriam e não seria problema me emprestar. Olha isso pra mim, por favor, tenho uns eventos pela frente e vou precisar. Comprei um sapato novo, uma bela camisa, mas minhas certezas estão meio relaxadas. Não sei se vão me aceitar desse jeito. É que o evento é meio formal, sabe?

Aqui... infelizmente tenho que sair pois estou escrevendo essa carta no tempinho que me sobrou entre um ponteiro e outro, mas o tempo já está acabando e no próximo espaço entre eles eu preciso estar em outro lugar. Volto a lhe escrever em breve, tenho muitas novidades, e algumas te deixarão feliz! Não demore a responder, tenho saudades, e sem notícias suas não é raro que eu imagine ter sido esquecido. Não é legal quando fazem com a gente.

Um beijo, e dê um abraço no João.

Ps: Quando é que você viaja?
Ps (2): Quando você retorna?
Ps (3): Apareça quando quiser. :)