Morreu,
nesta segunda-feira, Tigun, o mais desimportante palhaço do Brasil. Dono de um
sorriso vacilante, o triste palhaço retirou da face o nariz vermelho exatamente
às seis horas deste 6º dia de junho. Procurada por nossa produção, a assessoria
de imprensa do agora ex-palhaço não quis se pronunciar, limitando-se apenas a
dizer que nos próximos dias será convocada uma entrevista coletiva na qual não se falará dos motivos da morte. À
pedido do falecido, a entrevista será um momento para agradecimentos.
Segundo
apuramos logo após o anúncio que foi publicado no site oficial na manhã dessa
terça-feira, a alegação é de que os motivos já são de conhecimento público, dessa
forma, não serão nem mesmo citados durante a entrevista. Durante a última
aparição em público, ainda devidamente trajado, o palhaço já dava mostras de
seu cansaço, mas negou os boatos de que morreria nos próximos
dias. – Estou bem! Foram suas últimas palavras.
Clownistas
de todo mundo já se pronunciaram sobre o anúncio da morte oficial do palhaço, e
de forma geral todos foram enfáticos ao afirmar que sua falta não será sentida.
Na esteira dessas opiniões, diversos grupos circenses apressaram-se em emitir
notas endossando a opinião dos especialistas. Para a maioria dos profissionais a
morte de Tigun apenas demonstra a necessidade da regulamentação da profissão, impedindo
que amadores se arrisquem a conciliar as tristezas pessoais com a obrigação de
fazer a felicidade dos outros. "A proposta
de lei está lá no congresso, engavetada. É desumano. Quantos inocentes
precisaram morrer para que os palhaços sejam olhados com mais seriedade?" A declaração inflamada é do presidente do sindicato
dos palhaços de Minas Gerais, Carlitos, que soube da notícia enquanto se reunia
com os saltimbancos, de quem busca apoio para pressionar o governo através de uma regularização conjunta.
Um dos
poucos a lamentar a morte do palhaço foi Bert Willians, a grande estrela do
espetáculo In Dahomey, encenado pelo
grupo Willians e Walker. Cinco minutos após o anúncio, Bert publicou em seu
Twitter uma foto tirada no último carnaval em que os dois estão abraçados, e
Tigun aparece sorrindo. Na legenda, o mestre do humor norte americano faz
referência a uma das marcas registradas do parceiro brasileiro, seu sorriso
falso: “Para viver era preciso reaprender a sorrir de verdade, e ele não estava conseguindo”.
Benjamim,
defensor histórico do humor realizado por pessoas tristes, num primeiro momento
optou por um tom menos sentimental ao comentar a morte. Crítico, o palhaço – negro tal como Tigun – seguiu a mesma linha dos sindicalistas e aproveitou o
exemplo para alertar sobre a grande dificuldade de quem opta pela vida de Clown, sustentar
a ambiguidade das emoções. Na visão de Benjamim, “a relação paradoxal entre a
vida particular e a vida social (um conflito entre tragédias e melancolias em face da necessidade de se fazer a felicidade alheia) é o motor mas é também a própria desgraça de muitos palhaços. É um trabalho complicado, é preciso preparação. Uma atividade como essa não pode ficar nas mãos de qualquer um.”
Adiante,
mais lamentoso, Benjamim destacou Tigun como um lutador: “Razoável como
palhaço, Tigun deve ser lembrado como um lutador. Por mais falso que seu
sorriso tenha se tornado nos últimos anos, por mais medíocres que suas piadas
tenham ficado, o importante é que ele nunca deixou de fazê-las. Na vida pública,
mesmo estando meio desanimado, até bem pouco tempo era possível rir com ele."
O dia
e o horário do sepultamento ainda não foram confirmados, mas um amigo da família revelou que o mais provável é que aconteça amanhã, quarta-feira, no atelier da saudade, onde a família tem jazigo. Suspeita-se que não será permitida a presença de público. Segundo a mesma
fonte, o dono do corpo - um rapaz de 27 anos que se encontra extremamente
abalado com a decisão do palhaço em falecer - já decidiu que tudo ocorrerá numa
cerimônia simples, obedecendo, sobretudo, ao desejo do nariz vermelho, que havia
manifestado através de uma carta escrita em 2010 as orientações para seu funeral. Abaixo, o trecho final da carta assinada pelo tradicional nariz vermelho usado por Tigun desde a infância.
[...] derreta-me em fogo baixo, misture-me com o resto de maquiagem e pegue os pincéis. Faça com isso uma poção, uma tinta. Desenhe-me. Quando partir, quero virar uma camisa. É uma forma de continuar acalorando o coração de alguém. =)
[...] derreta-me em fogo baixo, misture-me com o resto de maquiagem e pegue os pincéis. Faça com isso uma poção, uma tinta. Desenhe-me. Quando partir, quero virar uma camisa. É uma forma de continuar acalorando o coração de alguém. =)