- Por que Eu,
exatamente Eu, não sinto nada? Pergunto-me sempre que corro. Um ataque, um
cansaço diferente, um mal súbito qualquer serviria. Mas não, você não, é o que
responde meu corpo impassível e pretensioso, como se fosse muito forte.
Eu, quando comecei a
correr ainda não sofria, estava bem, recuperado da primeira queda e corria
apenas para emagrecer alguns quilos, perder a barriga, mas depois fui gostando.
Fosse eu biólogo ou químico, ou esse texto datado de 4 anos atrás, certamente
eu tributaria esse prazer à endorfina. Hoje, contudo, eu não seria tão leviano,
e cometeria uma imensa injustiça comigo mesmo se negasse o prazer de estar só.
Durante a corrida eu
penso na vida e conto o tempo de forma diferente. Ali - liberto, tranquilo, eu
mesmo - eu tenho, dependendo da disposição, em torno de 5 a 8 Km meus no dia,
dos quais não divido um minuto sequer com um rosto familiar, ultimamente
insuportáveis. Na pista, eu sou in-divido, e, ao menos em sensação, pleno.
Nesse espaço-tempo
convivo somente com minhas músicas e angústias, e embora corra pelas minhas
medalhas, nem sempre almejo vitórias. Já corri pelo futuro, planejando,
imaginando e chegando; pelo presente, fugindo, refletindo e me cuidando; porém,
ultimamente, eu corro - quase sempre -
pelo passado, pelas lembranças. Correndo, seguindo em frente, eu vejo ali a
minha máquina do tempo, que não intenta pará-lo, mas apressá-lo dignamente. E
esperançoso, eu corro.
Há algum tempo fiz um
teste, queria ver o quanto meu corpo suportava. A ideia era chegar ao limite,
passar dele, ver as consequências, o estrago. Nada. Fiz cinco, oito, na raça eu
cheguei aos dez Km, continuei até doze, sei lá. Nada. À linha de chegada,
alcancei vivo, morrendo no máximo umas 800 calorias, talvez 1000. Entretanto,
em tempo, e sem que desejasse, bati um recorde, cheguei até aqui à frente de
todos. Ninguém a frente, ninguém atrás, ninguém ao lado, ninguém mais corre
comigo.
Os treze Km, insuficientes
para vencer o coração, não me deram
sucesso, nem com a barriga nem com o passado. Ainda assim, preso ao presente ao final de cada jornada,
eu sentia no peito a medalha vermelha, suada, batendo sua ironia - covardemente
- na minha cara. Contra a derrota eu armo vinganças a cada semana, mas
fracasso. Já alcancei os 15 e, pelos meus cálculos, ultrapassarei os 17 Km em
duas semanas. Se a vitória não me impedir, correrei a Pampulha em dezembro e a
São Silvestre em dois anos. São 42 Km. Dessa última, eu sei, o coração não
escapa.
Seus textos são sempre tão geniais... eu até cogito no início tentar descobrir exatamente sobre o que você está falando, mas quando percebo já me meti nas minhas próprias histórias e penso: é, o texto me pegou de novo.
ResponderExcluirObrigado, cara. Não os acho geniais, mas fico realmente feliz que alguém goste desses rabiscos. Eu falo que ultimamente me sobraram palavras, mas o que tem transbordado são os sentimentos, sendo estes textos apenas uma forma de expressão organizada. Se a gente não pode chorar, espernear, gritar em público, da liberdade do meu espaço privado eu não abro mão. E esse blog é o meu banheiro, onde danço, canto e choro escondido. Mas se alguém escuta lá de fora e gosta, fico feliz. Um abraço!
ExcluirMeu caro seu coração é forte, e o interessante é que muitos necessitam que ele seja forte, muitos além da sua necessidade física... seu coração atende uma enorme demanda, demanda está permeada de atenção, carinho, amor, conselhos, amizade, presença, exemplo, opinião, entre outros, q seja até uma conversa descontraída em uma bar...
ResponderExcluirNobre amigo, seu coração não é só seu, pertence a todos que lhe rodeiam, testá-lo é testar a todos que necessitem que ele bata, vencê-lo é nos vencer, nos colocar na lona, abalar nossas almas e nos tirar um pedaço que precisamos, sim, para viver.
Torço, intensamente para que no final, na chegada, após os 42 KM, seu coração vença, não só pelo seu bem, mas pelo meu também!!!
Charles.