Estou cansado desse
caminho de convivência e aceitação.
– Você tem que aprender a
conviver com isso!
Não, não quero, estou
cansado, rebelde.
Daqui em diante vou usar
palavras rebeldes, feias, chulas, palavrões dirigindo ofensas a tudo e a todos
que cruzarem essas linhas. Quero xingar, ofender, praguejar. Merda, diabo,
desgraça, inferno, caralho, raiva, buceta, ódio, cú, porra!
Hoje decidi respeitar a inteligência
e a autonomia de quem lê e não me censurar, não me disfarçar. Decidi não fingir de
poeta, escritor, nem porra nenhuma. Se não é carnaval eu não preciso de
máscaras. Não preciso falar através de saudade, amor, afeto, tristeza, melancolia
e por outras palavras de livros. Hoje quero usar palavras de voz.
É que hoje eu não vou - e
não quero - traduzir a sensação, hoje vou apenas expor, escancará-la do jeito que
ela se formar. Bruta, dura, grande, enorme, imensa, assim mesmo, cheia de pleonasmos
e redundâncias, pois de tão grande não se extrai dela a metade senão com
repetição, repetição, repetição, redundância, pleonasmos e palavrões enormes,
repetidos, sujos, diretos e profundos.
Hoje quero chorar na rua,
gritar no ônibus, espernear no colo da dona de seios grandes e rosto redondo e
amável e por ela ser consolado até dormir.
Quero acordar já deitado
na minha cama, de banho tomado, limpo, sentindo seus dedos acariciando minha
barba e o meu cabelo. – Está tudo bem.
Quero acreditar na mentira
tentadora e doce que enfeita cada letra desses lugares comuns. Mas estou
cansado e volto a dormir.
É isso, me lembrei!
O que eu quero é adormecer
como fiz durante 26 anos da minha vida, quando desconhecia a finitude dos
sonhos e do sono.
O que eu não queria era ter despertado. Não sem a proteção da mulher gorda
que me amparava o sono e a verdade.
Eu não queria ter acordado sozinho.
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