quinta-feira, 14 de março de 2013

Vou mandar pastar


Estou cansado desse caminho de convivência e aceitação.
– Você tem que aprender a conviver com isso!
Não, não quero, estou cansado, rebelde.

Daqui em diante vou usar palavras rebeldes, feias, chulas, palavrões dirigindo ofensas a tudo e a todos que cruzarem essas linhas. Quero xingar, ofender, praguejar. Merda, diabo, desgraça, inferno, caralho, raiva, buceta, ódio, cú, porra!

Hoje decidi respeitar a inteligência e a autonomia de quem lê e não me censurar, não me disfarçar. Decidi não fingir de poeta, escritor, nem porra nenhuma. Se não é carnaval eu não preciso de máscaras. Não preciso falar através de saudade, amor, afeto, tristeza, melancolia e por outras palavras de livros. Hoje quero usar palavras de voz.

É que hoje eu não vou  - e não quero - traduzir a sensação, hoje vou apenas expor, escancará-la do jeito que ela se formar. Bruta, dura, grande, enorme, imensa, assim mesmo, cheia de pleonasmos e redundâncias, pois de tão grande não se extrai dela a metade senão com repetição, repetição, repetição, redundância, pleonasmos e palavrões enormes, repetidos, sujos, diretos e profundos.

Hoje quero chorar na rua, gritar no ônibus, espernear no colo da dona de seios grandes e rosto redondo e amável e por ela ser consolado até dormir.

Quero acordar já deitado na minha cama, de banho tomado, limpo, sentindo seus dedos acariciando minha barba e o meu cabelo. – Está tudo bem.

Quero acreditar na mentira tentadora e doce que enfeita cada letra desses lugares comuns. Mas estou cansado e volto a dormir.

É isso, me lembrei!
O que eu quero é adormecer como fiz durante 26 anos da minha vida, quando desconhecia a finitude dos sonhos e do sono.
O que eu não queria era ter despertado. Não sem a proteção da mulher gorda que me amparava o sono e a verdade.
Eu não queria ter acordado sozinho.

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