sexta-feira, 15 de março de 2013

Sonhos mágicos...




- E ai, cara, viu as viradas do Barça?

Não adiantava, e por mais que eu insistisse, ele não falava comigo. Apesar disso, ele não era inexpressivo e como numa foto antiga seu rosto era feliz e sereno. Mesmo sem ouvir sua voz, recebi de volta sua opinião. Satisfeito, exaltou sorridente a vitória do time catalão com o mesmo sorriso frouxo daquele tempo antigo e nem tão distante .

- E o Iniesta avisou né, você viu? Disse que aquele time precisava de uma grande virada, e que conseguiriam passar de fase, que disso tinha certeza e que não se pode duvidar do Barcelona. Tem lido a coluna do Tostão? Estou ansioso pra vê-lo comentar essa vitória.

Haviam muitas pessoas a sua volta que com olhos acessos o encaravam com alegria e fascínio. Era como se ele tivesse viajado e estivesse ali somente de passagem, nos visitando, pois logo partiria novamente. Eu tinha muita coisa para perguntar, para saber. Como ele estava, o que tinha feito, por que sumiu, mas ele não respondia. Ainda assim, sem emitir nenhum som, ele conversava comigo e com os outros que o circundavam mas não participavam da conversa. Pareciam amistosos, mas não pude reconheço-los pois a luz contornava aquelas fisionomias desconhecidas iluminando somente o menino. Eram figurantes. Minha percepção,  afetada, me localizava numa festa enquanto meus olhos não tinham dúvidas de que essa cena se passava num ponto de ônibus próximo da minha casa, casa que ele não conheceu.

Eu não sabia para onde ele havia ido, que viagem foi aquela que repentinamente o retirou de nosso convívio por muito tempo. Sentia-me confuso e apesar das muitas dúvidas eu não sabia o que perguntar. Não sabia que histórias pedir para ele contar. Perguntaria do hotel, do avião, do ônibus, dos passeios? Ele era um viajante conhecido, íntimo, mas a minha impressão, que eu sabia também ser compartilhada pelos figurantes, era de que a sua presença bastava. Havia nela algo de fantástico, mágico, extrapolando por si qualquer história de viagem. Aos poucos, no decorrer da conversa,  fui compreendendo que na verdade ele já não morava mais com a gente.

Talvez, por isso, ao invés de sanar dúvidas e confusões, eu me satisfizesse apenas por estar com ele, corriqueiramente, tal qual num passado recente quando nos entregávamos a conversas homéricas e, juntos, fazíamos quase tudo. Riamos ao assistir televisão, ao comentar os vídeos do computador, e a discutir as músicas do Chico ou do Criolo. Não, quando ouvi Criolo ele já havia partido, não sei pra onde. Será que ele tá ouvindo Cícero? É a cara dele.

Não perguntei nada disso. Nem da viagem, do Cícero ou do novo disco do Chico. Minha vontade, naquele momento, sob a marquise do ponto de ônibus em um dia cinzento, era apenas vivenciar aquela sensação que eu não experimentava há muito tempo. Sensação de empatia, de uma afinidade inigualável, que desde sua partida algo igual eu nunca senti. Naquele tempo, quando dividíamos o quarto, sabíamos um do outro mais do que de nós mesmos. Irmãos gêmeos, eu era ele mais velho, e ele era eu mais novo. Mas hoje ele não falava comigo.

Não foi na hora que pensei nisso, mas teria ele esquecido nossa língua? Talvez, mas certamente ainda falava o meu idioma, o nosso idioma. Pois nos comunicávamos, eu respondia as perguntas que ele não fazia e comentava os comentários engraçados que escapavam de seus pensamentos. E riamos um do outro como se as outras pessoas não estivessem ali, tratando-as, de fato, como figurantes. Como no passado, nós não precisávamos delas. Poderíamos ficar horas a sós, conversando ou tocando violão, juntos - em acompanhamento, ou separados, em quartos diferentes, mas nunca sozinhos, pois cantávamos as mesmas músicas, apenas em tons diferentes.

Ele me rejuvenescia, fazia-me cantar letras utópicas, revoluções impossíveis e refrões pegajosos de bandinhas adolescentes, com suas frases diretas, seus amores românticos e desesperados, infantis e ingênuos; por outro lado, a minha influência o fazia sofrer por antecipação as inseguranças e inverdades da vida adulta, fazia-o pensar sobre a ruína dos sonhos, frustrações, e ouvir as malandragens que não foram compostas para os ouvidos de um adolescente. Ele ouvia tudo atentamente, comprometido não com as músicas, mas comigo.

Mas agora ele não me dirigia a palavra, o que não impedia a nossa relação. Ao contrário, aquela telepatia só fazia confirmar o valor da fraternidade experimentada nos anos anteriores. Todavia, eu queria ouvir sua voz... Perguntava, comentava, sorria e estimulava, mas ele não falava. Meu tempo era pouco, a noite terminava, talvez fossem quatro, cinco da manhã, e da sua boca eu não extraía nada além de um sorriso único e suficiente. Não pra mim, eu queria mais. E em pensamento eu suplicava uma palavra, um ruído, ou qualquer som que fosse, mendigando em nome de tudo que passamos juntos. Esforço inútil.

A essa altura já não havia mais tempo. Eram nove da manhã. Luz, janela, cortinas balançando, vento, suor, quarto estranho, vida estranha, vazia. Silenciosa. Ainda vi os figurantes, a rua, a marquise, um sorriso, mas seu rosto não se completava e a cena já não se reconstruía quando fechei com força os olhos inchados. Em meio a esses recortes, despertei, deparando-me com a mesma realidade esburacada, desabitada, e silenciosa.

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