Queria
escrever um texto pra essa foto, uma poesia, uma frase, um desenho, um solo de
piano, uma outra foto, qualquer coisa. Queria achar um texto que a explicasse, encontrar uma forma, um estilo, algo que desse conta de tudo que pra mim ela representa. Queria me expressar.
Desisto. É que nessas situações eu não gosto da autonomia do texto, que nunca chega ao outro pelo caminho que a gente enviou.
Desisto. É que nessas situações eu não gosto da autonomia do texto, que nunca chega ao outro pelo caminho que a gente enviou.
Não gosto
por que nessa situação, mais do que me expressar, eu queria ser entendido,
compreendido. Mas somente plenamente, não pelas metades. Queria que à visão dessa foto todo mundo entendesse o significado de
todas as minhas segundas-feiras, da melancolia escondida no fundo dos olhos,
das camisetas mal feitas, da irritação para as convenções sociais, da raiva das malditas frases feitas, e do sumiço necessário.
Eu sei, eu queria o impossível. Impossível por que só eu sei a história daquela
calça, daquele vestido estampado, da camisa xadrez e de todos os passos desse sorriso tímido. Dessas vidas, li todos os capítulos, todas as linhas, todas as notas de rodapé, da primeira à última página, do nascimento à morte. Acompanhei-os do início ao fim.
Para que
você me compreendesse - minimamente - eu teria de explicar todas as experiências que compartilhamos, teria de lhe contar toda a história daquela festa em que eu nem estive, e como inexplicavelmente eu conheço dela todos os detalhes. Dessa vida, dessas fotos, só a história não me escapou, ela foi exatamente o que restou. Como troféus, minhas lembranças estão materializadas nas fotos que ostento na sala em que não recebo visitas para não ter de explicar a contradição que estabelecem com o vazio da casa.
Roubaram-me significados, pilharam-me pequenas felicidades, esvaziaram minha rotina, silenciaram meu violão. Além das histórias, deixaram-me um futuro incompleto.
Roubaram-me significados, pilharam-me pequenas felicidades, esvaziaram minha rotina, silenciaram meu violão. Além das histórias, deixaram-me um futuro incompleto.
Queria que
essa foto, a despeito do foco embaçado, informasse sobre a dificuldade de
recomeçar, contasse de um tempo medido em relógio diferente, e sobre a vaga ideia de se viver um dia por vez. Sem demagogia, somente um dia por vez. Queria que essa foto contasse sobre o meu apego ao passado, que contasse a realidade que não aparece no meu carnaval e que revelasse a verdade que só compartilho com as paredes do meu quarto.
Queria que essa foto explicasse por que o futuro é uma necessidade externa, uma referência que responde a demanda alheia e à convivência social. Que ela dissesse por que - até o presente momento - no meu dicionário o amanhã é definido como uma obrigação imposta pela vida em sociedade, que ela contasse por que o ano que vêm é uma pauta dos outros a qual faço referência apenas para fins de manutenção dos laços afetivos.
Queria que essa foto explicasse por que não quero explicar as coisas que escrevo. Isso! Eu queria que ela me eximisse de explicar, de precisar, de fazer, e me livrasse desses verbos chatos, imperativos, infinitivos, sei lá, desses verbos que ordenam. Queria que essa foto explicasse por que a expressão "até o presente momento" pode durar muito, pouco, ou tempo demais, que relembrasse às pessoas da relatividade do tempo para que elas soubessem que, pra mim, o demais significará suficiente.
Queria poder postar essa foto no Facebook e contar na legenda sobre a triste alegria que ela me desperta, queria que a ditadura da felicidade não obrigasse a omissão de sentimentos, e que eu pudesse abriga-la nalgum álbum feliz que contasse a bebedeira da festa de ontem. Queria não ter de abrigar a tristeza num quarto, num blog ou na sala de cinema de uma quarta feira a tarde.
Queria que todos entendessem que há um silêncio que só eu sei escutar.
Queria que meus irmãos estivessem aqui. Todos eles.
Queria poder postar essa foto no Facebook e contar na legenda sobre a triste alegria que ela me desperta, queria que a ditadura da felicidade não obrigasse a omissão de sentimentos, e que eu pudesse abriga-la nalgum álbum feliz que contasse a bebedeira da festa de ontem. Queria não ter de abrigar a tristeza num quarto, num blog ou na sala de cinema de uma quarta feira a tarde.
Queria que todos entendessem que há um silêncio que só eu sei escutar.
Queria que meus irmãos estivessem aqui. Todos eles.
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