quinta-feira, 28 de março de 2013

Amor


João Vitor Heliodoro Nascimento foi o menino mais bonito que conheci. Fácil, ponderado, bom de gostar. Por ele eu sentia qualquer coisa bem maior que essa palavrinha de quatro letras que hoje se diz pra qualquer um, às vezes, com não mais que um sinal, ♥.

Não, por ele era mais. Era tanto gostar que a gente não dizia, a gente era, e só. A língua, naquela época, ainda era pequena e não dava conta de expressar a gente. A única forma de falar de nós dois era escrevendo agente. Isso, assim mesmo, junto, igual agente ficava o dia inteiro. Ele no violão, e eu, do lado, sendo.

Talvez por isso fosse fácil gostar dele. Porque ele era eu, e eu, era ele. Amando-o, eu me amava. No violão, eu era ele, enquanto ele, quando olhava no espelho, via eu. Éramos assim, éramos agente. Não tinha eu e não tinha ele, tinha Nós.

É por isso que hoje ficou só eu. Metade séria, sisuda. A parte bonita, sorridente, era ele. Meu nós ficou vazio, minúsculo. Cheio só de Eu eu não funciono bem, e pela vida, apenas perambulo, vago.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sonhos mágicos...




- E ai, cara, viu as viradas do Barça?

Não adiantava, e por mais que eu insistisse, ele não falava comigo. Apesar disso, ele não era inexpressivo e como numa foto antiga seu rosto era feliz e sereno. Mesmo sem ouvir sua voz, recebi de volta sua opinião. Satisfeito, exaltou sorridente a vitória do time catalão com o mesmo sorriso frouxo daquele tempo antigo e nem tão distante .

- E o Iniesta avisou né, você viu? Disse que aquele time precisava de uma grande virada, e que conseguiriam passar de fase, que disso tinha certeza e que não se pode duvidar do Barcelona. Tem lido a coluna do Tostão? Estou ansioso pra vê-lo comentar essa vitória.

Haviam muitas pessoas a sua volta que com olhos acessos o encaravam com alegria e fascínio. Era como se ele tivesse viajado e estivesse ali somente de passagem, nos visitando, pois logo partiria novamente. Eu tinha muita coisa para perguntar, para saber. Como ele estava, o que tinha feito, por que sumiu, mas ele não respondia. Ainda assim, sem emitir nenhum som, ele conversava comigo e com os outros que o circundavam mas não participavam da conversa. Pareciam amistosos, mas não pude reconheço-los pois a luz contornava aquelas fisionomias desconhecidas iluminando somente o menino. Eram figurantes. Minha percepção,  afetada, me localizava numa festa enquanto meus olhos não tinham dúvidas de que essa cena se passava num ponto de ônibus próximo da minha casa, casa que ele não conheceu.

Eu não sabia para onde ele havia ido, que viagem foi aquela que repentinamente o retirou de nosso convívio por muito tempo. Sentia-me confuso e apesar das muitas dúvidas eu não sabia o que perguntar. Não sabia que histórias pedir para ele contar. Perguntaria do hotel, do avião, do ônibus, dos passeios? Ele era um viajante conhecido, íntimo, mas a minha impressão, que eu sabia também ser compartilhada pelos figurantes, era de que a sua presença bastava. Havia nela algo de fantástico, mágico, extrapolando por si qualquer história de viagem. Aos poucos, no decorrer da conversa,  fui compreendendo que na verdade ele já não morava mais com a gente.

Talvez, por isso, ao invés de sanar dúvidas e confusões, eu me satisfizesse apenas por estar com ele, corriqueiramente, tal qual num passado recente quando nos entregávamos a conversas homéricas e, juntos, fazíamos quase tudo. Riamos ao assistir televisão, ao comentar os vídeos do computador, e a discutir as músicas do Chico ou do Criolo. Não, quando ouvi Criolo ele já havia partido, não sei pra onde. Será que ele tá ouvindo Cícero? É a cara dele.

Não perguntei nada disso. Nem da viagem, do Cícero ou do novo disco do Chico. Minha vontade, naquele momento, sob a marquise do ponto de ônibus em um dia cinzento, era apenas vivenciar aquela sensação que eu não experimentava há muito tempo. Sensação de empatia, de uma afinidade inigualável, que desde sua partida algo igual eu nunca senti. Naquele tempo, quando dividíamos o quarto, sabíamos um do outro mais do que de nós mesmos. Irmãos gêmeos, eu era ele mais velho, e ele era eu mais novo. Mas hoje ele não falava comigo.

Não foi na hora que pensei nisso, mas teria ele esquecido nossa língua? Talvez, mas certamente ainda falava o meu idioma, o nosso idioma. Pois nos comunicávamos, eu respondia as perguntas que ele não fazia e comentava os comentários engraçados que escapavam de seus pensamentos. E riamos um do outro como se as outras pessoas não estivessem ali, tratando-as, de fato, como figurantes. Como no passado, nós não precisávamos delas. Poderíamos ficar horas a sós, conversando ou tocando violão, juntos - em acompanhamento, ou separados, em quartos diferentes, mas nunca sozinhos, pois cantávamos as mesmas músicas, apenas em tons diferentes.

Ele me rejuvenescia, fazia-me cantar letras utópicas, revoluções impossíveis e refrões pegajosos de bandinhas adolescentes, com suas frases diretas, seus amores românticos e desesperados, infantis e ingênuos; por outro lado, a minha influência o fazia sofrer por antecipação as inseguranças e inverdades da vida adulta, fazia-o pensar sobre a ruína dos sonhos, frustrações, e ouvir as malandragens que não foram compostas para os ouvidos de um adolescente. Ele ouvia tudo atentamente, comprometido não com as músicas, mas comigo.

Mas agora ele não me dirigia a palavra, o que não impedia a nossa relação. Ao contrário, aquela telepatia só fazia confirmar o valor da fraternidade experimentada nos anos anteriores. Todavia, eu queria ouvir sua voz... Perguntava, comentava, sorria e estimulava, mas ele não falava. Meu tempo era pouco, a noite terminava, talvez fossem quatro, cinco da manhã, e da sua boca eu não extraía nada além de um sorriso único e suficiente. Não pra mim, eu queria mais. E em pensamento eu suplicava uma palavra, um ruído, ou qualquer som que fosse, mendigando em nome de tudo que passamos juntos. Esforço inútil.

A essa altura já não havia mais tempo. Eram nove da manhã. Luz, janela, cortinas balançando, vento, suor, quarto estranho, vida estranha, vazia. Silenciosa. Ainda vi os figurantes, a rua, a marquise, um sorriso, mas seu rosto não se completava e a cena já não se reconstruía quando fechei com força os olhos inchados. Em meio a esses recortes, despertei, deparando-me com a mesma realidade esburacada, desabitada, e silenciosa.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Vou mandar pastar


Estou cansado desse caminho de convivência e aceitação.
– Você tem que aprender a conviver com isso!
Não, não quero, estou cansado, rebelde.

Daqui em diante vou usar palavras rebeldes, feias, chulas, palavrões dirigindo ofensas a tudo e a todos que cruzarem essas linhas. Quero xingar, ofender, praguejar. Merda, diabo, desgraça, inferno, caralho, raiva, buceta, ódio, cú, porra!

Hoje decidi respeitar a inteligência e a autonomia de quem lê e não me censurar, não me disfarçar. Decidi não fingir de poeta, escritor, nem porra nenhuma. Se não é carnaval eu não preciso de máscaras. Não preciso falar através de saudade, amor, afeto, tristeza, melancolia e por outras palavras de livros. Hoje quero usar palavras de voz.

É que hoje eu não vou  - e não quero - traduzir a sensação, hoje vou apenas expor, escancará-la do jeito que ela se formar. Bruta, dura, grande, enorme, imensa, assim mesmo, cheia de pleonasmos e redundâncias, pois de tão grande não se extrai dela a metade senão com repetição, repetição, repetição, redundância, pleonasmos e palavrões enormes, repetidos, sujos, diretos e profundos.

Hoje quero chorar na rua, gritar no ônibus, espernear no colo da dona de seios grandes e rosto redondo e amável e por ela ser consolado até dormir.

Quero acordar já deitado na minha cama, de banho tomado, limpo, sentindo seus dedos acariciando minha barba e o meu cabelo. – Está tudo bem.

Quero acreditar na mentira tentadora e doce que enfeita cada letra desses lugares comuns. Mas estou cansado e volto a dormir.

É isso, me lembrei!
O que eu quero é adormecer como fiz durante 26 anos da minha vida, quando desconhecia a finitude dos sonhos e do sono.
O que eu não queria era ter despertado. Não sem a proteção da mulher gorda que me amparava o sono e a verdade.
Eu não queria ter acordado sozinho.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Se fosse possível


Queria escrever um texto pra essa foto, uma poesia, uma frase, um desenho, um solo de piano, uma outra foto, qualquer coisa. Queria achar um texto que a explicasse, encontrar uma forma, um estilo, algo que desse conta de tudo que pra mim ela representa. Queria me expressar.

Desisto. É que nessas situações eu não gosto da autonomia do texto, que nunca chega ao outro pelo caminho que a gente enviou.

Não gosto por que nessa situação, mais do que me expressar, eu queria ser entendido, compreendido. Mas somente plenamente, não pelas metades. Queria que à visão dessa foto todo mundo entendesse o significado de todas as minhas segundas-feiras, da melancolia escondida no fundo dos olhos, das camisetas mal feitas, da irritação para as convenções sociais, da raiva das malditas frases feitas, e do sumiço necessário.

Eu sei, eu queria o impossível. Impossível por que só eu sei a história daquela calça, daquele vestido estampado, da camisa xadrez e de todos os passos desse sorriso tímido. Dessas vidas, li todos os capítulos, todas as linhas, todas as notas de rodapé, da primeira à última página, do nascimento à morte. Acompanhei-os do início ao fim.

Para que você me compreendesse - minimamente - eu teria de explicar todas as experiências que compartilhamos, teria de lhe contar toda a história daquela festa em que eu nem estive, e como inexplicavelmente eu conheço dela todos os detalhes. Dessa vida, dessas fotos, só a história não me escapou, ela foi exatamente o que restou. Como troféus, minhas lembranças estão materializadas nas fotos que ostento na sala em que não recebo visitas para não ter de explicar a contradição que estabelecem com o vazio da casa.

Roubaram-me significados,  pilharam-me pequenas felicidades, esvaziaram minha rotina, silenciaram meu violão. Além das histórias, deixaram-me um futuro incompleto.

Queria que essa foto, a despeito do foco embaçado, informasse sobre a dificuldade de recomeçar, contasse de um tempo medido em relógio diferente, e sobre a vaga ideia de se viver um dia por vez. Sem demagogia, somente um dia por vez. Queria que essa foto contasse sobre o meu apego ao passado, que contasse a realidade que não aparece no meu carnaval e que revelasse a verdade que só compartilho com as paredes do meu quarto.

Queria que essa foto explicasse por que o futuro é uma necessidade externa, uma referência que responde a demanda alheia e à convivência social. Que ela dissesse por que - até o presente momento -  no meu dicionário o amanhã é definido como uma obrigação imposta pela vida em sociedade, que ela contasse por que o ano que vêm é uma pauta dos outros a qual faço referência apenas para fins de manutenção dos laços afetivos.

Queria que essa foto explicasse por que não quero explicar as coisas que escrevo. Isso! Eu queria que  ela me eximisse  de explicar, de precisar, de fazer, e me livrasse desses verbos chatos, imperativos, infinitivos, sei lá, desses verbos que ordenam. Queria que essa foto explicasse por que a expressão "até o presente momento" pode durar muito, pouco, ou tempo demais, que relembrasse às pessoas da relatividade do tempo para que elas soubessem que,  pra mim, o demais significará suficiente.

Queria poder postar essa foto no Facebook e contar na legenda sobre a triste alegria que ela me desperta, queria que a ditadura da felicidade não obrigasse a omissão de sentimentos, e que eu pudesse abriga-la nalgum álbum feliz que contasse a bebedeira da festa de ontem. Queria não ter de abrigar a tristeza num quarto, num blog ou na sala de cinema de uma quarta feira a tarde.

Queria que todos entendessem que há um silêncio que só eu sei escutar.
Queria que meus irmãos estivessem aqui. Todos eles.