A minha dificuldade de comunicação,
a preguiça que sinto em conversar com as pessoas acerca dos meus problemas mais
profundos é resultado, principalmente, da sensação de incapacidade de transmissão
dos sentimentos. Na fala, a sensação é que nunca passo o que de fato sinto - ou penso
sentir - e toda palavra sai mentirosa, falsa, dissimulada. Claro, além da dicção, falha, evidentemente.
Mas a esta eu não culpo, pois se lhe falta articulação e destreza, faltam-lhe também
ferramentas uma vez que a língua é limitada e nós temos de jogar o seu jogo.
Temos de nos expressar
dentro dos seus liames, de seus limitados caracteres e vírgulas, pontos, travessões,
parênteses. Como colocar em parênteses o que não cabe no peito ou na cabeça? Não tenho
o que exclamar pois não tenho novidades, apenas interrogações, por quês. Não
existe um sinal para lamentar. Sugestão: uma exclamação ao contrário, talvez. -
Não? Tudo bem. Recolho-me e escrevo. O papel, se não compreende, ao menos aceita, e melhor, não responde, não fala. E não há mesmo por que falar se nada diz, e principalmente
se ninguém escuta.
Enquanto eu falo – eu sei – você rumina o que quer dizer, não
me ouve, está olhando para dentro do seu mundinho assim como faço quando você é
quem fala. - Estamos combinados então? Qualquer dia desses nos encontramos para
mais um de nossos monólogos a dois. E como já não falo o que sinto, mas o que você
quer ouvir, então está tudo bem se você não me escutar, talvez seja até melhor.
- Ate à próxima... e ah, mande um abraço
meu àqueles que quase nunca vejo e que pouco me importam.
- Tchau.
- Tchau!
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