Esses
dias tranquilos, hoje em dia, são os que mais me assustam. Basta uma queda, um telefonema,
e pronto, é outro velório. E o pior é que não tem horário para acontecer, e
cada hora sem sal desse dia besta só faz aumentar o frio da minha espinha. Assustado, vasculho as experiências trágicas buscando circunstâncias comuns que me permitam antecipar a tragédia ocultada na aparente vulgaridade presente. - Tomei café naquele dia? - Qual camisa usava? - Teve futebol na noite anterior? Um patético esforço visionário. Mas morte não é ciência e minha vasta experiência pouco contribui na minha vida senão para justificar meu fracasso em viver.
Atento aos sinais,
eu fico desde cedo à espera do estrondo, da quebra, do extraordinário, desse imprevisto que me fará chorar por mais alguns meses, que me obrigará a recomeçar, mais uma vez. Porém, por crueldade, ele muitas vezes não vêm. Esse acaso é um
tipo esperto que quando percebe que já notei a traiçoeira frugalidade da rotina que antecede a dor intensa, adia para amanhã. Às vezes por semanas, meses, mas já notei, não mais de um ano. A morte é criança inquieta, superativa, daquelas que enquanto são observadas ficam quietas, mas que não resistem a excitação de maltratar um distraído. Adia, por um lado, para não
perder o efeito surpresa - a marca registrada das tragédias, de outro, para degustar
lentamente a angústia que me acomete nesses dias normais desde que reconheço que tudo está - exatamente - no seu lugar. - Normal demais, lamento temeroso.
Esses dias, perversos, bestas, se divertem com a gente brincando de Deus. Bestas, são chamados, por que são neles que a besta vaga pelas ruas a caça de morte, em plena luz do dia, sem tocar
trombetas. Trombetas são para mortes coletivas, no varejo as notícias não chegam pelos
jornais. São telefonemas cuidadosos, vozes de angustias silenciadas dizendo que está tudo bem.
De tais dias, as
segundas-feiras são as mais sorrateiras, escondem as trevas da madrugada nas
entrelinhas desse quotidiano monótono. Nas malhas do seu enfado, muitas delas escondem terças-feiras terríveis. Desonestas, fazem-nos caminhar por todo um dia até nos atacarem pelas costas, já no fim de tarde. Claro que já conheci sábados e sextas terríveis, mas a segunda é uma cobra e seu grande prazer é
observar o inocente indivíduo acreditando que vive um dia normal e tedioso.
Das copas mais altas da árvore da vida ela observa seu macabro reality show,
saboreia cada hora consumida pelo desavisado que, inocente, planeja a terça, o
cinema da quinta, o samba do sábado e até a viagem do carnaval seguinte, do próximo ano. E assim, ignorando o que o aguarda ele vai à aula, trabalha, se estressa no trânsito e janta
ao chegar em casa, como se fosse precisar de energia para dormir eternamente.
Desculpem
a digressão, acho que me deixei levar pela frase e não pelo texto, meu propósito não é falar da rotina do anjo que vai, mas do diabo que fica. A própria morte não é motivo de perturbação desse sujeito. Tira-lhe o sono, não o medo de perder-se no próprio fim, o que, aliás, pode ser um encontro, mas de ter de viver outro fim de outro alguém, novamente. Desgraçado, ele vive atormentado pelos sinais
invisíveis do anjo de preto, pelas mortes escondidas nos dias mais triviais. Ah, se ele conseguisse identificar os pontos em comum de todos esses eventos, trocaria de camisa, de caminho, de rotina, e mudaria o destino nem que fosse para conseguir ao menos um intervalo maior.
Mas perdoem-no, não é por mal que há muito
ele perde a própria vida na vigilância da morte alheia. Hoje tornou-se hábito, neura, síndrome. Da última vez que o vi ele
nem soube me explicar senão gaguejando um ditado. – Sabe aquele de que gato
escaldado... Sem forças, não chegou a terminar a frase. Fui então assertivo, balançando a cabeça e fingindo compreensão. Aos problemas que me fogem ao controle e a minha capacidade de ajuda ofereço aos meus amigos apenas o silêncio, e dele retiram o que quiserem, compreensão, empatia, apatia ou indiferença.
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