Seja no Palmolive ou na Bíblia, acreditar é só questão de crença.
03h49min da madrugada e a
sanha escrevinhadora me assanha, depois de muito tempo, novamente em hora inoportuna. Porém, dessa vez, foi diferente. Acordei, sem motivo e sem pauta, tomado por
duas incompatíveis e incontroláveis vontades, de tomar um banho e de escrever. Dois ímpetos, distintos e juntos – sem por quê. Embora eu goste mais de escrever,
costumo banhar-me com mais frequência, é mais fácil limpar o corpo que a
alma. Entretanto, como não havia escovado os dentes antes de me deitar, achei
que não seria má ideia fazê-lo sob a água quente e aceitei de bom grado a chuveirada, se já havia acordado, por que não?
Por outro lado, sei que essas
vontades de escrevinhação, quando chegam, são como desejo de arrumar confusão, se você
quiser você vai encontrar. E que algumas vezes, para sacia-la, é preciso meter-se nem que seja numa discussãozinha. Claro que na maioria das vezes a gente termina machucado, afinal,
texto não é briga de faca mas é um bom meio de (re)abrir feridas. E além de apetite - ou ódio -, exige também dedicação, paciência. Mas o fato é que dentro de mim a solitária reclamava, me conduzia e já me excitava os dedos, esperando para alcança-los apenas o final do banho. Sonolento
e sem forças para discordar, fui então para o banheiro e encontrei logo o motivo para trocar a cama pela cadeira do computador. Se eu acreditasse em destino diria que ali compreendi o por que da súbita insônia: uma embalagem de condicionador.
Envolto na sua branca pele
de cordeiro, assim como o de Deus que retira o pecado do mundo e habita a bíblia, ele trazia uma frase tão
audaciosa como as que normalmente encontramos no Livro sagrado: Repara 3 anos de dano em 1 mês. Quanta
pretensão, petulância, presunção, insolência, atrevimento! Nunca havia visto
tanta num frasco só. No caso da bíblia, ao menos, sabemos que ela tem mais de mil páginas, trocentos
capítulos, doze apóstolos, quase dois mil anos, possui o meu nome, conta a
história do filho do cara e tem o Corinthians. Portanto, essa afetação de que vai reparar
três anos em um mês é o mínimo, chega a ser modesta para o principal livro
cristão, mas para um condicionador – e Palmolive. Quanto absurdo!
Indignado, no mesmo
momento - e não podia ser diferente - peguei o Nívea, conferi o Clear, li
todo o rótulo do Loreal, mas não
encontrei a propaganda enganosa. Imaginei que poderia ser uma falta de caráter de classe, então compartilhada por todos os condicionadores, mas não era. Apenas Palmolive repara 3 anos de dano em 1 mês, diz a embalagem.
Ora, respeito, sinceramente, quem
acredita na bíblia, cujos os sucessos na política, na economia e na dominação da
sociedade ocidental, a Igreja tanto deve, e, principalmente, pela importância que o
Livro possui para vida pessoal de várias pessoas. Diversas são as versões da História que confirmam sua importância, que não me deixam mentir. Mas o que é que um
condicionadorzinho barato já fez pela humanidade? E não me invoque a santa
paciência.
Embora reconheça minha desatualização na matéria dos condicionadores, já que a pelo menos nove
anos não faço uso de marca alguma, eu sempre admirei seus usuários, afinal, seu uso é sintoma de cuidado, amor próprio, sem falar do cheirinho gostoso que ele deixa na nuca das meninas. Contudo, a admiração que eu nutria por seus consumidores, sobretudo os de Palmolive - em função da atitude parcimoniosa - não resistiu ao banho dessa noite.
Prometer aos meus olhos molhados, nesse exato momento
da minha vida, a reparação completa de todos os danos sofridos nos últimos três anos – exatamente dos últimos três
anos – não é outra coisa senão crueldade. Crueldade que, se não foi diretamente praticada pela empresa estrangeira, no caso desta ter incluído só recentemente a maldita
frase no seu rótulo, é fruto, como parece mais provável, dessa ironia fina
que só a própria vida consegue articular. Essa ironia que me fez perceber somente
hoje, numa madrugada qualquer do ano de 2013, após os três piores anos da minha existência, a existência dessa promessa perversa que
provavelmente já ocupa as prateleiras de supermercado a mais tempo que a minha habitação na vida.
Reparar? Reparação? Reparem
a minha vida nos últimos três anos e entenderão por que eu preferiria acreditar na
bíblia. Se nela acreditasse, e conseguisse ir além do ótimo e criativo livro do apocalipse,
eu tenho certeza que alcançaria alguma tranquilidade. Mas acreditar nos poderes do Palmolive, condicionador que não amolece nem cabelo de índio vai abrandar meu coração aonde? Isso não vai ficar barato, vou ver se resolvo isso no PROCON.
Por fim, ainda no banheiro, enquanto me enxugava, descobri que tenho ali outro problema, outra questão, agora
com os meus shampoos: não riam, mas eles dizem que são neutros. Coitados, mais um com a síndrome do Direito. Qualquer dia desses vai surgir creme rinse dizendo que é imparcial. Quando o problema
não é crença na religião é a crença na ciência. Maldita busca pela verdade.