quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Propaganda enganosa


Seja no Palmolive ou na Bíblia, acreditar é só questão de crença.

03h49min da madrugada e a sanha escrevinhadora me assanha, depois de muito tempo, novamente em hora inoportuna. Porém, dessa vez, foi diferente. Acordei, sem motivo e sem pauta, tomado por duas incompatíveis e incontroláveis vontades, de tomar um banho e de escrever. Dois ímpetos, distintos e juntos – sem por quê. Embora eu goste mais de escrever, costumo banhar-me com mais frequência, é mais fácil limpar o corpo que a alma. Entretanto, como não havia escovado os dentes antes de me deitar, achei que não seria má ideia fazê-lo sob a água quente e aceitei de bom grado a chuveirada, se já havia acordado, por que não?

Por outro lado, sei que essas vontades de escrevinhação, quando chegam, são como desejo de arrumar confusão, se você quiser você vai encontrar. E que algumas vezes, para sacia-la, é preciso meter-se nem que seja numa discussãozinha. Claro que na maioria das vezes a gente termina machucado, afinal, texto não é briga de faca mas é um bom meio de (re)abrir feridas. E além de apetite - ou ódio -, exige também dedicação, paciência. Mas o fato é que dentro de mim a solitária reclamava, me conduzia e já me excitava os dedos, esperando para alcança-los apenas o final do banho. Sonolento e sem forças para discordar, fui então para o banheiro e encontrei logo o motivo para trocar a cama pela cadeira do computador. Se eu acreditasse em destino diria que ali compreendi o por que da súbita insônia: uma embalagem de condicionador.

Envolto na sua branca pele de cordeiro, assim como o de Deus que retira o pecado do mundo e habita a bíblia, ele trazia uma frase tão audaciosa como as que normalmente encontramos no Livro sagrado: Repara 3 anos de dano em 1 mês. Quanta pretensão, petulância, presunção, insolência, atrevimento! Nunca havia visto tanta num frasco só. No caso da bíblia, ao menos, sabemos que ela tem mais de mil páginas, trocentos capítulos, doze apóstolos, quase dois mil anos, possui o meu nome, conta a história do filho do cara e tem o Corinthians. Portanto, essa afetação de que vai reparar três anos em um mês é o mínimo, chega a ser modesta para o principal livro cristão, mas para um condicionador – e Palmolive. Quanto absurdo!

Indignado, no mesmo momento - e não podia ser diferente - peguei o Nívea, conferi o Clear, li todo o rótulo do Loreal, mas não encontrei a propaganda enganosa. Imaginei que poderia ser uma falta de caráter de classe, então compartilhada por todos os condicionadores, mas não era. Apenas Palmolive repara 3 anos de dano em 1 mês, diz a embalagem.

Ora, respeito, sinceramente, quem acredita na bíblia, cujos os sucessos na política, na economia e na dominação da sociedade ocidental, a Igreja tanto deve, e, principalmente, pela importância que o Livro possui para vida pessoal de várias pessoas. Diversas são as versões da História que confirmam sua importância, que não me deixam mentir. Mas o que é que um condicionadorzinho barato já fez pela humanidade? E não me invoque a santa paciência.

Embora reconheça minha desatualização na matéria dos condicionadores, já que a pelo menos nove anos não faço uso de marca alguma, eu sempre admirei seus usuários, afinal, seu uso é sintoma de cuidado, amor próprio, sem falar do cheirinho gostoso que ele deixa na nuca das meninas. Contudo, a admiração que eu nutria por seus consumidores, sobretudo os de Palmolive - em função da atitude parcimoniosa - não resistiu ao banho dessa noite.

Prometer aos meus olhos molhados, nesse exato momento da minha vida, a reparação completa de todos os danos sofridos nos últimos três anos – exatamente dos últimos três anos – não é outra coisa senão crueldade. Crueldade que, se não foi diretamente praticada pela empresa estrangeira, no caso desta ter incluído só recentemente a maldita frase no seu rótulo, é fruto, como parece mais provável, dessa ironia fina que só a própria vida consegue articular. Essa ironia que me fez perceber somente hoje, numa madrugada qualquer do ano de 2013, após os três piores anos da minha existência, a existência dessa promessa perversa que provavelmente já ocupa as prateleiras de supermercado a mais tempo que a minha habitação na vida.

Reparar? Reparação? Reparem a minha vida nos últimos três anos e entenderão por que eu preferiria acreditar na bíblia. Se nela acreditasse, e conseguisse ir além do ótimo e criativo livro do apocalipse, eu tenho certeza que alcançaria alguma tranquilidade. Mas acreditar nos poderes do Palmolive, condicionador que não amolece nem cabelo de índio vai abrandar meu coração aonde? Isso não vai ficar barato, vou ver se resolvo isso no PROCON.

Por fim, ainda no banheiro, enquanto me enxugava, descobri que tenho ali outro problema, outra questão, agora com os meus shampoos: não riam, mas eles dizem que são neutros. Coitados, mais um com a síndrome do Direito. Qualquer dia desses vai surgir creme rinse dizendo que é imparcial. Quando o problema não é crença na religião é a crença na ciência. Maldita busca pela verdade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Os ombros suportam o mundo


O poeta sente do mundo o peso nas costas.
O poeta sente o peso do mundo nas costas.
O mundo sente do poeta o peso nas costas.
O mundo sente o peso do poeta nas costas.
O mundo poeta sente nas costas o peso.
O poeta mundo sente o peso nas costas.
O peso nas costas do mundo poeta.
O peso nas costas do poeta mundo.

O poeta sente, nos ombros, o peso do mundo.
Não.
Os ombros do poeta suportam o mundo.

Ah, se me fosse dado ser poeta
Chegaria um tempo em que meu tempo chegaria.
E mais que a mão de uma criança, do mundo, eu não sentiria.
A vida apenas seria.


Cometo algumas heresias, mas peco por necessidade de expressão. Perdão, Carlos.

Monólogo


A minha dificuldade de comunicação, a preguiça que sinto em conversar com as pessoas acerca dos meus problemas mais profundos é resultado, principalmente, da sensação de incapacidade de transmissão dos sentimentos. Na fala, a sensação é que nunca passo o que de fato sinto - ou penso sentir - e toda palavra sai mentirosa, falsa, dissimulada. Claro, além da dicção, falha, evidentemente. Mas a esta eu não culpo, pois se lhe falta articulação e destreza, faltam-lhe também ferramentas uma vez que a língua é limitada e nós temos de jogar o seu jogo.

Temos de nos expressar dentro dos seus liames, de seus limitados caracteres e vírgulas, pontos, travessões, parênteses. Como colocar em parênteses o que não cabe no peito ou na cabeça? Não tenho o que exclamar pois não tenho novidades, apenas interrogações, por quês. Não existe um sinal para lamentar. Sugestão: uma exclamação ao contrário, talvez. - Não? Tudo bem. Recolho-me e escrevo. O papel, se não compreende, ao menos aceita, e melhor, não responde, não fala. E não há mesmo por que falar se nada diz, e principalmente se ninguém escuta.

Enquanto eu falo – eu sei – você rumina o que quer dizer, não me ouve, está olhando para dentro do seu mundinho assim como faço quando você é quem fala. - Estamos combinados então? Qualquer dia desses nos encontramos para mais um de nossos monólogos a dois. E como já não falo o que sinto, mas o que você quer ouvir, então está tudo bem se você não me escutar, talvez seja até melhor.
- Ate à próxima... e ah, mande um abraço meu àqueles que quase nunca vejo e que pouco me importam.
- Tchau.
- Tchau!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Dias tranquilos


Esses dias tranquilos, hoje em dia, são os que mais me assustam. Basta uma queda, um telefonema, e pronto, é outro velório. E o pior é que não tem horário para acontecer, e cada hora sem sal desse dia besta só faz aumentar o frio da minha espinha. Assustado, vasculho as  experiências trágicas buscando circunstâncias comuns que me permitam antecipar a tragédia ocultada na aparente vulgaridade presente.  - Tomei café naquele dia? - Qual camisa usava? - Teve futebol na noite anterior? Um patético esforço visionário. Mas morte não é ciência e minha vasta experiência pouco contribui na minha vida senão para justificar meu fracasso em viver.

Atento aos sinais, eu fico desde cedo à espera do estrondo, da quebra, do extraordinário, desse imprevisto que me fará chorar por mais alguns meses, que me obrigará a recomeçar, mais uma vez. Porém, por crueldade, ele muitas vezes não vêm. Esse acaso é um tipo esperto que quando percebe que já notei a traiçoeira frugalidade da rotina que antecede a dor intensa, adia para amanhã. Às vezes por semanas, meses, mas já notei, não mais de um ano. A morte é criança inquieta, superativa, daquelas que enquanto são observadas ficam quietas, mas que não resistem a excitação de maltratar um distraído. Adia, por um lado, para não perder o efeito surpresa - a marca registrada das tragédias, de outro, para degustar lentamente a angústia que me acomete nesses dias normais desde que reconheço que tudo está - exatamente - no seu lugar. - Normal demais, lamento temeroso.

Esses dias, perversos, bestas, se divertem com a gente brincando de Deus. Bestas, são chamados, por que são neles que a besta vaga pelas ruas a caça de morte, em plena luz do dia, sem tocar trombetas. Trombetas são para mortes coletivas, no varejo as notícias  não chegam pelos jornais. São telefonemas cuidadosos, vozes de angustias silenciadas dizendo que está tudo bem.

De tais dias, as segundas-feiras são as mais sorrateiras, escondem as trevas da madrugada nas entrelinhas desse quotidiano monótono. Nas malhas do seu enfado, muitas delas escondem terças-feiras terríveis. Desonestas, fazem-nos caminhar por todo um dia até nos atacarem pelas costas, já no fim de tarde. Claro que já conheci sábados e sextas terríveis, mas a segunda é uma cobra e seu grande prazer é observar o inocente indivíduo acreditando que vive um dia normal e tedioso. Das copas mais altas da árvore da vida ela observa seu macabro reality show, saboreia cada hora consumida pelo desavisado que, inocente, planeja a terça, o cinema da quinta, o samba do sábado e até a viagem do carnaval seguinte, do próximo ano. E assim, ignorando o que o aguarda ele vai à aula, trabalha, se estressa no trânsito e janta ao chegar em casa, como se fosse precisar de energia para dormir eternamente.

Desculpem a digressão, acho que me deixei levar pela frase e não pelo texto, meu propósito não é falar da rotina do anjo que vai, mas do diabo que fica. A própria morte não é motivo de perturbação desse sujeito. Tira-lhe o sono, não o medo de perder-se no próprio fim, o que, aliás, pode ser um encontro, mas de ter de viver outro fim de outro alguém, novamente. Desgraçado, ele vive atormentado pelos sinais invisíveis do anjo de preto, pelas mortes escondidas nos dias mais triviais. Ah, se ele conseguisse identificar os pontos em comum de todos esses eventos, trocaria de camisa, de caminho, de rotina, e mudaria o destino nem que fosse para conseguir ao menos um intervalo maior.

Mas perdoem-no, não é por mal que há muito ele perde a própria vida na vigilância da morte alheia. Hoje tornou-se hábito, neura, síndrome. Da última vez que o vi ele nem soube me explicar senão gaguejando um ditado. – Sabe aquele de que gato escaldado... Sem forças, não chegou a terminar a frase. Fui então assertivo, balançando a cabeça e fingindo compreensão. Aos problemas que me fogem ao controle e a minha capacidade de ajuda ofereço aos meus amigos apenas o silêncio, e dele retiram o que quiserem, compreensão, empatia, apatia ou indiferença.