quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Verdades misturadas


Hoje acordei sonhando que acordava no natal de 2002. Estava deitado em um colchão, no chão áspero de uma casa grande de teto descascado e paredes rebocadas cor de areia. No sonho eu era garçom e atendia a mesa dos meus tios oferecendo-lhes: – Céu ou inferno senhores? Eles nada respondiam e eu trazia água, mas agora a memória me impede de saber se doce ou salgada. Havia uma mulher e havia eu. Éramos Greta Garbo e Chico Buarque. Ela era o Chico, e vinha em direção à minha mesa. Enquanto eu mostrava rapidamente meus joelhos brancos numa cruzada de pernas ele repousava em minhas mãos o cardápio, que já posicionado diante dos meus olhos apresentava as especialidades da casa: céu e inferno. Hesitando, sem saber o que escolher, olhei para o lado enquanto acendia um cigarro procurando na fumaça da primeira tragada as respostas para a minha vida desgraçada, refletindo. Por que a gente não consegue escrever sem usar clichês? Foda-se, ninguém vai ler mesmo. Ao meu lado uma criança chorava estridentemente uma música dos Beatles. Já não escutava mais aquele choro quando vi que Greta ainda me olhava, serena. Não entendia por que ela cruzava as mãos sobre os seios de um jeito estranhamente mórbido, como estivesse num caixão, mas não quis perguntar, não sei falar com artistas. Além de tudo o Chico me intimidava. Nessa hora eu já era eu mesmo e só percebi quando notei meus joelhos escuros, a perna ainda estava cruzada. Minha masculinidade se manifestava de um jeito diferente, de outra forma, por outro lugar. Revelava-se na forma de um não reclamar das escaras que me consumiam as costas já grudadas à quase seis meses naquela cama de hospital. Eu tinha o Pequeno Príncipe nas mãos e só faltavam algumas páginas para terminar, lia devagar pois o tempo fugia, quando saí de casa não imaginei que as horas demorassem tanto a passar num hospital. Há alguma magia naquelas paredes brancas. No momento seguinte eu estava sentado na cadeira de acompanhante, admirava uma feia paisagem pela janela e sentia o vento no rosto, era domingo a tarde.  Somente quando olhei para cama me dei conta de que as escaras eram do meu pai, o Pequeno Príncipe do meu avô, a Greta Garbo de um livro recente enquanto o Chico era do João ou do Janderson, já não me recordo quem baixou a discografia. Com os olhos entreabertos, meio acordado, agora redescubro: na realidade o emprego de garçom foi durante a fase-João, o Janderson foi namorado da Ana e não tem nada disso de Chico. Internações, escaras e recomeços se misturam na minha cabeça e a memória, perdida, já não sabe mais que sonho sonhar. Já de pé, a frente do espelho, no banheiro de uma casa hoje pequena e bem acabada eu resolvo escrever o sonho maluco. Decido chama-lo de realidades misturadas.

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