Hoje acordei sonhando que
acordava no natal de 2002. Estava deitado em um colchão, no chão áspero de uma
casa grande de teto descascado e paredes rebocadas cor de areia. No sonho eu
era garçom e atendia a mesa dos meus tios oferecendo-lhes: – Céu ou inferno
senhores? Eles nada respondiam e eu trazia água, mas agora a memória me impede
de saber se doce ou salgada. Havia uma mulher e havia eu. Éramos Greta Garbo e
Chico Buarque. Ela era o Chico, e vinha em direção à minha mesa. Enquanto eu
mostrava rapidamente meus joelhos brancos numa cruzada de pernas ele repousava em
minhas mãos o cardápio, que já posicionado diante dos meus olhos apresentava as
especialidades da casa: céu e inferno. Hesitando, sem saber o que escolher, olhei
para o lado enquanto acendia um cigarro procurando na fumaça da primeira tragada
as respostas para a minha vida desgraçada, refletindo. Por que a gente não consegue
escrever sem usar clichês? Foda-se, ninguém vai ler mesmo. Ao meu lado uma
criança chorava estridentemente uma música dos Beatles. Já não escutava mais
aquele choro quando vi que Greta ainda me olhava, serena. Não entendia por que
ela cruzava as mãos sobre os seios de um jeito estranhamente mórbido, como
estivesse num caixão, mas não quis perguntar, não sei falar com artistas. Além
de tudo o Chico me intimidava. Nessa hora eu já era eu mesmo e só percebi
quando notei meus joelhos escuros, a perna ainda estava cruzada. Minha
masculinidade se manifestava de um jeito diferente, de outra forma, por outro
lugar. Revelava-se na forma de um não reclamar das escaras que me consumiam as
costas já grudadas à quase seis meses naquela cama de hospital. Eu tinha o
Pequeno Príncipe nas mãos e só faltavam algumas páginas para terminar, lia
devagar pois o tempo fugia, quando saí de casa não imaginei que as horas demorassem
tanto a passar num hospital. Há alguma magia naquelas paredes brancas. No momento seguinte eu estava sentado na cadeira de acompanhante, admirava uma feia paisagem pela janela e sentia o vento no rosto, era domingo a tarde. Somente quando
olhei para cama me dei conta de que as escaras eram do meu pai, o Pequeno Príncipe do meu avô, a Greta Garbo de um livro recente enquanto o Chico era do João ou
do Janderson, já não me recordo quem baixou a discografia. Com os olhos entreabertos, meio acordado, agora
redescubro: na realidade o emprego de garçom foi durante a fase-João, o Janderson foi namorado da Ana e não tem nada disso de Chico. Internações, escaras e recomeços se
misturam na minha cabeça e a memória, perdida, já não sabe mais que sonho
sonhar. Já de pé, a frente do espelho, no banheiro de uma casa hoje pequena e
bem acabada eu resolvo escrever o sonho maluco. Decido chama-lo de realidades misturadas.
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