Andava com preguiça das
pessoas. Não encontrava em nenhuma delas a culpa de seu fracasso, de sua
desgraça. Nem para isso serviam, reclamava em pensamento. Para o futuro, só carregava uma certeza, a de que iria se arrepender. Como não fosse tão tolo e se conhecesse
bem, sabia que entenderia seus motivos. Fazemos sempre o que tem de ser feito,
era um de seus mantras. Na faculdade aprendera que o passado deve ser julgado
sempre em seus termos, o que utilizava mais em beneficio próprio que
profissional.
Assim, fora compreendendo – e respeitando – a trajetória dos pais,
dos amigos, e de quem lhe interessava respeitar. Contudo, dessa vez sabia:
iria se arrepender. Era uma revelação. Quando, daqui a alguns anos, revolvesse o
passado, entenderia, porém não sem tristeza, não sem remorso. E agora? Sofria
por antecipação ao projetar-se no futuro sorvendo do presente esse passado que
ainda não passou? Precisava disso? Talvez. Quem sabe dessa forma o evitasse
tomando novas atitudes – ou alguma atitude. Ou talvez não, como seria mais
provável.
Em verdade, como se lhe faltassem motivos, antecipava-se somente pelo prazer de sofrer. Idiota. Nunca soube transformar limão em limonada e desde
criança terminava sempre com a boca machucada, em carne viva. Ia chupando
aquele negócio, comendo o bagaço e matando a fome e a sede de melancolia que
sempre teve. Depois da tempestade, sorria, trazendo ainda as cicatrizes que
denunciavam a falta de cuidado adequado. Era feio. Não era difícil notar que as feridas curavam-se sozinhas, por iniciativa do corpo e não do sujeito, sem a menor ajuda
de alguma parte pensante.
E hoje a história se repetia, com a única diferença
de que previa com temor o futuro que ele mesmo se reservava. Quem beijaria
aquela boca amarga? Quem ostentaria a amizade daquela cara enrugada? Quem encostaria-se
àquele rosto fétido, ainda exalando o mau cheiro de feridas antigas? Ninguém.
Desanimado, deitou-se na cama. Resignado, buscou entender sua falta de forças,
e encontrou motivos, mas só o suficiente para se levantar com dignidade na manhã seguinte. E dormiu enquanto tecia formas sombrias de fugir àquele destino.
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