Talvez a explicação esteja em um fato da minha infância, quando eu passava férias na casa da minha avó. Nessa ocasião, minha
tia convidou uma cigana para ler seu futuro e trancaram-se no quarto por quase uma hora. Meus dois primos e eu ficamos curiosíssimos
com aquilo, e ela, quando já ia embora, como nos desse um doce, leu somente a linha
da vida de nossas mãos, ali no terreiro mesmo, perto do portão.
Sem rodeios, e com uma cara pouco confiável, disse ao mais velho que ele não viveria muito. Ao segundo
e a mim, metaforizou, enquanto resumia dois destinos em apenas uma sentença: – Vocês vão contar as histórias da
família Heliodoro. Eu não entendi muito no dia, mas gostei de saber que viveria bastante, era ainda criança ou adolescente e a ideia de me tornar adulto ainda me
agradava, e na palma das minhas mãos estava a garantia que de isso aconteceria.
Mas assim como meu pai, a
cigana também se esqueceu de me contar a verdade a respeito da vida adulta. E omitindo o que de fato me aguardava não explicou o que aquela frase significava. Naquele momento eu também não
entenderia, até então minha vida era só vida, vida, vida,... criança né.
Na verdade, ela não quis
dizer que eu viveria, apenas que eu contaria as histórias, é diferente. Queria
dizer que, ao contrário dos velhinhos viúvos, eu não poderia acompanhar os
amores que perderia. Talvez por que fossem muitos e alguém devesse ficar para chorá-los,
ou talvez por que não precisassem da minha companhia.
Sozinho, eu tive de ir
ficando, acostumando-me, vagando entre as fotos da sala e lembranças de
abraços. Alguns velhinhos - coitados, assim como eu, também são condenados a
ficar por aí sendo as almas penadas deste mundo. Como consolo, eles ao menos
ostentam um título: viúvos. Ao contrário daqueles que perdem irmãos, nomeados somente pelo silêncio da casa.
Mas do que é que eu estou
reclamando. Se ainda não inventaram um nome para as mães que perdem filhos, o
que eu quero como irmão?
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