Enquanto
devoro em minha leitura matinal as angústias da autora que admite só com
sofreguidão sua infelicidade, só penso em escrever. Invejoso, impaciente, inquieto,
balanço as pernas no sofá, ansioso por despejar no papel as minhas angústias.
Gosto, mas não preciso ler a dos outros, saber das dos outros, já as tenho em
bom número, e em boa conta. Gosto das minhas angústias, alimento-me delas vorazmente,
geralmente de madrugada, mas nessa manhã também. É que hoje ela sentiu sede e
veio logo que acordou tomar água, comer alguma coisa, se alimentar de mim. Sou
eu que me alimento de mim, embora não me suporte, não me tolere, não me importe
e não goste desse gosto de noite da minha língua. Sabor de fracasso, fraqueza,
franqueza. Franqueza que só encontro nas palavras, somente escritas, pois as
ditas levam na cauda a mentira necessária do dia-a-dia social, mas não pessoal.
Nunca sou eu que falo, é outro, outro estranho eu, um eu social, feliz, sorridente
e que olha para frente. Escrevo por que preciso, escrevo por que gosto, gosto
de escrever e publico o que escrevo por que sou vaidoso. Escrevo bem? Escrevo mal?
Preciso de reconhecimento, admito, maldita vaidade. Mas se escrevo para
expressar-me, para ser lido por mim mesmo, para ler e entender esse eu pessoal,
para que preciso de reconhecimento? Para que publicar? - Vaidade. Sou interno e
externo, pessoal e social. Gosto de escrever e é o que acho que faço de melhor,
ler e escrever, mas quanto mais escrevo mais tenho medo de escrever e acho que minha
escrita tem piorado a cada linha. Poderia viver disso, já que gosto, mas por
que tudo o que gostamos tem de ser colocado a serviço de fazer dinheiro? – Para poder
viver. Ser cotidiano é fazer dinheiro. Para poder continuar escrevendo, lendo e
assistindo a filmes que são necessários para eu continuar frequentando os
grupos que gosto. – Já viu o novo filme do Almodovar? Merda de vida vazia. Aff...
cansei de escrever, posso voltar agora para a angústia da autora, pobre diaba,
parece ter sofrido bastante, me identifico tanto. Mais tarde, com ares de desabafo,
publico essa merda aqui. E dissimulando propósitos inadmissíveis escolho cautelosamente
os marcadores, a fonte e um tamanho de letra que facilite a leitura, esperando do ledor - quem sabe - alguma sorte de elogio. Sou um miserável.
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