Aqui a tristeza é senhora. Não sou eu quem avisa, mas um coração tão machucado que de tanta ferida já
desistiu de se recuperar ou de sentir raiva da vida, do mundo, de tudo, e hoje
apenas espera, deixa o tempo passar. O que não tem remédio, remediado está.
Resignado, ele acorda diariamente sem entender o porquê de tanto sol, tanta
festa ou música, mas se levanta e cumpre seu papel. Sorri, cumprimenta, festeja
e nunca deixa de responder que está tudo bem. Ele já descobriu o trabalho que
dá dizer a verdade, bem como sua ineficiência, a verdade não muda nada. Hoje,
sozinho, sem ter com quem dividir fracassos e sucessos, divide seu tempo entre atividades
banais entrecortadas por pensamentos tristes que não hesitam em aparecer a
qualquer hora do dia ou da noite. Não há onde se esconder, no almoço, no banho,
na mesa de boteco ou no sexo, eles sempre estão lá. O cérebro sabe que existem
milhares de outras imagens melhores e mais bonitas daquelas pessoas, fotos de
seus sorrisos, aniversários e formaturas, mas sádico, insiste em enviar somente
as mais cruéis ao coração. Insiste nos cemitérios, hospitais, necrotérios e
assim o coração sucumbe, não aguenta, e quando pode, chora. Afinal, não se pode
chorar numa festa de aniversário. Enquanto os olhos avistam balões, bolo e
cerveja, o coração, distante, continua a revirar as piores imagens registradas
nesses 28 anos de hd. E chora sozinho. Inchando como as bolsas dos olhos, ele vai
ficando cada vez maior e maior, até não mais caber na caixa do peito. Ainda na
festa, os pés, sempre prestativos, levam o corpo rapidamente para o banheiro ou
qualquer outro lugar afastado de toda gente para o coração se aliviar. Através
dos olhos, pressionado por soluços semi-desesperados o peito se esvazia e o
coração, mais aliviado, volta a respirar tranquilamente. Envergonhado, ele pede
desculpas ao restante do corpo que sorrindo amarelo demonstra entender. Enquanto
o coração enxuga os olhos, todos se voltam para o cérebro, o recriminando.
Precisava mandar aquelas fotos naquela hora? Enrugado, ele se defende dizendo que
por mais que tente não consegue acessar os outros arquivos. As pastas felizes
estão protegidas por senha, alega cabisbaixo. Se ele não tem controle, ninguém
mais naquele corpo teria. Condenados, todos voltam à festa torcendo para que
o rosto consiga disfarçar a angústia da nova revelação.
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