“Poesia não é tentar trepar
pelas paredes, é trepar mesmo pelas paredes.” Lia sorrindo no livro rosa do
Mário Quintana enquanto se encaminhava ao centro da cidade. O metrô estava
vazio e sem dificuldade pode sentar-se, como de costume, de frente para o vidro
espelhado. Sua vaidade, a cada túnel, saia de trás da porta para que ele
pudesse conferir o cabelo. Além da leitura, a música no último volume
completava a redoma que o levava seguro ao encontro da namorada. Ali dentro
nada o importunava, saia somente para ajeitar o cabelo e os óculos na porta
envidraçada, dominava tão bem o trajeto que não precisava pensar para achar os túneis,
eles é que o achavam no intervalo de alguma estação. Quintaneando, sozinho, consumia distraído o seu
caminho.
De repente, a deleitar-se
com alguma sacada do amigo poeta, levantou do livro os olhos risonhos rompendo
num só pensamento sua bolha protetora. - Linda! Antes que ela o fitasse de
volta, rapidamente laçou pela cauda os olhos, trazendo-os - a tempo - ao abrido
do poeta que ria maliciosamente. Quinze minutos depois, num beijo ardente,
cumprimentava sua amada na saída da estação central.
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