Durante a infância era
visto como uma criança inteligente, depósito de esperanças e de um futuro
promissor. Sem motivo aparente já escondia no peito certa vocação melancólica,
expressada na timidez e nas longas horas de futebol solitário com o muro do
terreiro. Sozinho, ele era o time inteiro, do atacante ao goleiro, de forma que
assim foi aprendendo a se bastar. Manifestava também no gosto pela leitura
alguma introspecção, hábito interrompido temporariamente em função de um moderno vídeo
game, que também jogava sozinho.
Quando a mãe anunciou
um irmãozinho, foi impedido pelo ciúme de compreender de imediato o valor daquela companhia.
Além do que, ele já tinha onze anos, para que serviria um irmão com dez quando
eu tiver vinte? - Ninguém brinca com 20 anos, pensava. Porém, pudesse ver o futuro não
haveria reclamado. Em dez anos, sem que percebesse, a vida moldou não um irmão,
desses chatos que só servem para disputar com a gente o amor da mãe ou a
bandeja de iogurte, mas um amigo, no sentido mais intenso do termo. Claro, de fato
não pode com ele jogar futebol, mas pode conversar. Ah, e como conversavam.
Aquele menino não tinha dez, mas vinte, trinta, sessenta anos se fosse preciso,
encerrava em si todas as idades de modo que sua companhia atendia a qualquer necessidade
de comunicação do irmão mais velho. E que futuro!
Futuro? De tão
inteligente o menino envelheceu tão rápido que nem esperou o avô, metendo-se de
surpresa na fila preferencial e deixando o irmão mais velho novamente sozinho
no terreiro, ele o muro. Contudo, desanimado, agora já não chutava com tanta força a bola na parede, e ela quase não voltava ao seu encontro. Quase ninguém
vinha ao seu encontro.
Embora os amigos o procurassem
com avidez, não o encontravam em lugar algum. Quanto mais avançavam os meios de
comunicação, mais afastado se via dos amigos e pessoas que gostava. Pura opção,
não era difícil perceber, e todos perceberam. Perceberam também que ele se matava aos
poucos, primeiro socialmente, e ainda que evitassem pensar nisso, sabiam que a
próxima morte seria física, material, dessas com caixão, piadas e café forte a
noite toda.
Entretanto, mais rápido
que ele foi a irmã. Engenhosa, fingiu uma formatura, namoro, emprego, tudo para
articular uma ideia de futuro e faze-lo acreditar que planejava viver muito
para acompanhar a mãe até os últimos dias. Pura mentira, engenhosidade,
esperteza. Maquinou tudo na agenda que nunca saia da bolsa,
onde, com meticulosa discrição, escolheu e marcou a data, mês, horário, cuidando
para que ninguém pudesse evitar a realização do plano. Novamente ele foi
pego de surpresa.
Daí é que comprou o
sítio, numa cidade afastada de Belo Horizonte, lá pelos lados do aeroporto, escondida no fundo do coração. Interiorana, chuvosa, a cidade tinha acesso difícil. Sem
telefone, Facebook ou caixa de correio, foi ali que se escondeu até seus
derradeiros dias, quando sentado numa cadeira de madeira antiga, escura, meteu
na cabeça uma bala de revólver.
Quando no fim da tarde
de sábado foi encontrado pelo caseiro uma mosca nojenta já repousava na boca
aberta, feia, enquanto o sangue escuro escorria detrás da cabeça por entre os
cabelos longos e bonitos. Por ironia, dessas que só a vida sabe tecer, ao
contrário da cabeça tão elogiada, foi o coração - algoz de todos os irmãos e que
tanto que lhe apertara durante a vida - que chegou ao fim daquela história
intacto. Na verdade, chegou forte como
tinha de ser, de outra forma não suportaria tanta tristeza. Nessa mesma noite,
estendido na mesa iluminada, ele ouvia com um sorriso desenhado aquelas palavras
amigas de compreensão. - Morreu de forma digna.
A dor tem te feito um artista. Queria mesmo, meu amigo, ter uma palavra que tirasse de você aquele sorriso espontâneo e que de tão largo ocupava a cara inteira que tantas vezes vi em você. Esse sorriso de palhaço triste me faz entristecer também. Mas sei que não são palavras que fazem as dores cessar. Neste caso, se precisar chorar, não chora sozinho.
ResponderExcluir"E cantando assim
ResponderExcluirParece que o tempo voa
Quanto mais triste
Mais bonito soa
Eu agradeço por poder cantar."
(Assim disse o poeta)
São em momentos de angústia e de tristeza que descobrimos muitas verdades escondidas dentro de nós, nesse caso, revelou um grande poeta, mas para o amigo, desejo que a inspiração acabe.