sábado, 26 de janeiro de 2013

Dignidade

Morreu de forma digna, disseram todos os amigos, mesmo os mais abalados. Nos últimos anos de vida havia decidido se isolar, mudando-se para o interior e vindo à cidade somente para responder aos chamados burocráticos. Ainda era jovem quando decidiu-se pelo isolamento, beirava a casa dos vinte anos quando por infelizes coincidências teve pela morte retirado o direito de conviver com seus irmãos. Sendo o mais azarado deles, coube-lhe ficar, para que tal qual uma estátua simbolizasse a desgraça daquela família.

Durante a infância era visto como uma criança inteligente, depósito de esperanças e de um futuro promissor. Sem motivo aparente já escondia no peito certa vocação melancólica, expressada na timidez e nas longas horas de futebol solitário com o muro do terreiro. Sozinho, ele era o time inteiro, do atacante ao goleiro, de forma que assim foi aprendendo a se bastar. Manifestava também no gosto pela leitura alguma introspecção, hábito interrompido temporariamente em função de um moderno vídeo game, que também jogava sozinho.

Quando a mãe anunciou um irmãozinho, foi impedido pelo ciúme de compreender de imediato o valor daquela companhia. Além do que, ele já tinha onze anos, para que serviria um irmão com dez quando eu tiver vinte? - Ninguém brinca com 20 anos, pensava. Porém, pudesse ver o futuro não haveria reclamado. Em dez anos, sem que percebesse, a vida moldou não um irmão, desses chatos que só servem para disputar com a gente o amor da mãe ou a bandeja de iogurte, mas um amigo, no sentido mais intenso do termo. Claro, de fato não pode com ele jogar futebol, mas pode conversar. Ah, e como conversavam. Aquele menino não tinha dez, mas vinte, trinta, sessenta anos se fosse preciso, encerrava em si todas as idades de modo que sua companhia atendia a qualquer necessidade de comunicação do irmão mais velho. E que futuro!

Futuro? De tão inteligente o menino envelheceu tão rápido que nem esperou o avô, metendo-se de surpresa na fila preferencial e deixando o irmão mais velho novamente sozinho no terreiro, ele o muro. Contudo, desanimado, agora já não chutava com tanta força a bola na parede, e ela quase não voltava ao seu encontro. Quase ninguém vinha ao seu encontro.

Embora os amigos o procurassem com avidez, não o encontravam em lugar algum. Quanto mais avançavam os meios de comunicação, mais afastado se via dos amigos e pessoas que gostava. Pura opção, não era difícil perceber, e todos perceberam. Perceberam também que ele se matava aos poucos, primeiro socialmente, e ainda que evitassem pensar nisso, sabiam que a próxima morte seria física, material, dessas com caixão, piadas e café forte a noite toda.

Entretanto, mais rápido que ele foi a irmã. Engenhosa, fingiu uma formatura, namoro, emprego, tudo para articular uma ideia de futuro e faze-lo acreditar que planejava viver muito para acompanhar a mãe até os últimos dias. Pura mentira, engenhosidade, esperteza. Maquinou tudo na agenda que nunca saia da bolsa, onde, com meticulosa discrição, escolheu e marcou a data, mês, horário, cuidando para que ninguém pudesse evitar a realização do plano. Novamente ele foi pego de surpresa.

Daí é que comprou o sítio, numa cidade afastada de Belo Horizonte, lá pelos lados do aeroporto, escondida no fundo do coração. Interiorana, chuvosa, a cidade tinha acesso difícil. Sem telefone, Facebook ou caixa de correio, foi ali que se escondeu até seus derradeiros dias, quando sentado numa cadeira de madeira antiga, escura, meteu na cabeça uma bala de revólver.

Quando no fim da tarde de sábado foi encontrado pelo caseiro uma mosca nojenta já repousava na boca aberta, feia, enquanto o sangue escuro escorria detrás da cabeça por entre os cabelos longos e bonitos. Por ironia, dessas que só a vida sabe tecer, ao contrário da cabeça tão elogiada, foi o coração - algoz de todos os irmãos e que tanto que lhe apertara durante a vida - que chegou ao fim daquela história intacto.  Na verdade, chegou forte como tinha de ser, de outra forma não suportaria tanta tristeza. Nessa mesma noite, estendido na mesa iluminada, ele ouvia com um sorriso desenhado aquelas palavras amigas de compreensão. - Morreu de forma digna.

2 comentários:

  1. A dor tem te feito um artista. Queria mesmo, meu amigo, ter uma palavra que tirasse de você aquele sorriso espontâneo e que de tão largo ocupava a cara inteira que tantas vezes vi em você. Esse sorriso de palhaço triste me faz entristecer também. Mas sei que não são palavras que fazem as dores cessar. Neste caso, se precisar chorar, não chora sozinho.

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  2. "E cantando assim
    Parece que o tempo voa
    Quanto mais triste
    Mais bonito soa
    Eu agradeço por poder cantar."
    (Assim disse o poeta)
    São em momentos de angústia e de tristeza que descobrimos muitas verdades escondidas dentro de nós, nesse caso, revelou um grande poeta, mas para o amigo, desejo que a inspiração acabe.

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