segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Choroso


Agora dei pra chorar com tudo. Teria eu ficado assim não fossem tantas tragédias familiares? Não sei. Observo minha infância e acho que sempre fui sensível, diferente do restante dos meninos. Fingia ser o menino clássico, é claro, mas não convencia muito. Dei-me conta da vocação para o choro a pouco, lendo uma crônica. Meus olhos se encharcavam enquanto o autor relatava o aniversário da mãe idosa, com câncer, prestes a morrer. Talvez tenha sido a menção à morte, palavra chave nessa minha existência. Impossível me explicar sem citar a morte, já nem me lembro de quantas tive. Talvez tenha sido a menção à mãe. Família também é outra palavra que, a meu lado, é um palavrão. Quando escuto, tenho sempre que me segurar para não recordar as fotos com pessoas jovens que mal sabiam que ali, na frente da máquina, selavam seus destinos: ocupar uma prateleira na sala. É isso, agora percebo, é a referência à família. Ao menos o cronista não mencionou nada além dele e da mãe. Famílias grandes são uma verdadeira ofensa, um despudor. Tudo bem, eu mereço, pois quando a minha era grande e completa eu me gabava mesmo, tirava onda, já que além de tudo eu era o mais velho. Tinha cargo e tudo mais. Primogênito, exemplo, essas coisas. E me sentia importante com isso. Hoje é diferente. Escuto calado, não tenho cacife para tirar onda com ninguém. Qualquer adesivo de família feliz num vidro traseiro já me desconcerta, porém, forte – como dizem que sou – não choro, apesar da vontade.

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