Agora dei pra chorar com
tudo. Teria eu ficado assim não fossem tantas tragédias familiares? Não sei. Observo
minha infância e acho que sempre fui sensível, diferente do restante dos meninos. Fingia ser o menino clássico, é claro, mas não convencia muito. Dei-me conta da vocação para o choro a pouco, lendo
uma crônica. Meus olhos se encharcavam enquanto o autor relatava o aniversário
da mãe idosa, com câncer, prestes a morrer. Talvez tenha sido a menção à morte,
palavra chave nessa minha existência. Impossível me explicar sem citar a morte,
já nem me lembro de quantas tive. Talvez tenha sido a menção à mãe. Família
também é outra palavra que, a meu lado, é um palavrão. Quando escuto, tenho sempre que me segurar
para não recordar as fotos com pessoas jovens que mal sabiam que ali, na frente
da máquina, selavam seus destinos: ocupar uma prateleira na sala. É isso, agora
percebo, é a referência à família. Ao menos o cronista não mencionou nada além
dele e da mãe. Famílias grandes são uma verdadeira ofensa, um despudor. Tudo
bem, eu mereço, pois quando a minha era grande e completa eu me gabava mesmo,
tirava onda, já que além de tudo eu era o mais velho. Tinha cargo e tudo mais.
Primogênito, exemplo, essas coisas. E me sentia importante com isso. Hoje é
diferente. Escuto calado, não tenho cacife para tirar onda com ninguém. Qualquer
adesivo de família feliz num vidro traseiro já me desconcerta, porém,
forte – como dizem que sou – não choro, apesar da vontade.
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